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observatório da universidade ANO IV
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SELEÇÃO DE ARTIGOS PUBLICADOS EM 2008





Janeiro





O corte


Em 2005 Costa Gravas nos brindou com mais uma realização genial - Le Couperet - traduzido no Brasil como - O Corte. Conta a estória individual de um quadro de uma corporação que leva às últimas conseqüências sua luta para se manter na empresa em virtude de um programa de reestruturação.


Desde o fim da CPMF parecemos viver mais intensamente um processo semelhante no setor público, em geral, e na educação em particular. As assustadoras afirmações dos governantes, antes da votação no Senado, não convenceram a um número suficiente de políticos para votar a favor do imposto sobre a movimentação financeira. Se o tom do desastre diminuiu após o fato consumado, a tesoura, ou melhor, a foice continua martelando as cabeças mais salientes no caldeirão da concessão de verbas.


Neste contexto foi divulgada no dia 17 último uma nota assinada pela ANDIFES, CNTE, CONTEE, FASUBRA, PROIFES, UNE e UBES, entidades que têm, na maioria das vezes, se alinhado com a política governamental, em geral, e com a política educacional em particular. Como toda a súplica de um súdito ao soberano, apresenta como justificativa principal que os desígnios do amo não poderão ser alcançados sem os recursos que serão subtraídos por força dos ajustes orçamentários.


A nota, já pronta, foi encaminhada pela secretaria executiva da ANDIFES também ao ANDES-SN, no dia 16, com uma consulta sobre o seu apoio, sendo que a divulgação seria feita no dia seguinte. Acertadamente a Diretoria Nacional do ANDES respondeu que não poderia fazê-lo e informou aos 254 delegados das 66 seções sindicais presentes à plenária do 27o Congresso do ANDES os motivos da recusa.


Segundo a nota, a falta de acesso à educação leva à desvantagem na busca do emprego e de melhores condições de vida, o que é uma redução simplista dos problemas do mercado de trabalho e da situação social do país que, obviamente, não poderão ser resolvidos simplesmente pela via da diplomação, além de incorporar o desvio de finalidade, de que a escola básica e a universidade existem para formar mão de obra.


Em outro parágrafo a ameaça à viabilidade do FUNDEB é mencionada como mais um motivo para se poupar a educação dos cortes orçamentários. Ora, o processo de implantação do FUNDEB está longe de ser consensual, em parte, pelas gratificações por produtividade que poderão legitimar as escolas eficientes e aquelas que são ruins porque seus professores e alunos não se dedicam...


No parágrafo relativo a ameaça à formação de técnicos, defrontamo-nos com a polêmica transformação da rede de escolas técnicas em institutos (IFETS). Portanto, também aqui, vemo-nos diante de uma política governamental ameaçada em sua execução pelo próprio governo que a concebeu...


Em outra parte o texto manifesto alerta para a ameaça aos programas de expansão recentemente aprovados. Ainda estão em nossas memórias as cenas de confronto no interior das universidades sobre estes programas, impostos por decreto governamental, e que estão longe de serem consensuais. Estaria o governo, após um ano de embates, fazendo aquilo que a oposição ao REUNI não conseguiu ?


Ao final do texto uma incongruência, afirma-se que a renda nacional está sendo crescentemente apropriada por interesses particulares, remetendo-nos para duas alternativas: açodamento na redação ou ato falho. A renda nacional é a soma de todas as rendas recebidas pelos proprietários dos fatores de produção utilizados durante o ano, portanto ela é por definição privada, os impostos não são incluídos em seu cálculo. Ou, os autores teriam querido dizer impostos ao invés de renda ?

 

 

Neste imenso palco que é Brasília todo cuidado é pouco. Do caos que sobreviria ao fim da CPMF ao velho balcão de trocas políticas o nome do povo é mais uma vez invocado em vão. Palavras de ordem o vento traz, o vento leva, assim como os ministros, políticos e dirigentes, mas o registro da história, este permanece para as atuais e futuras gerações.




Fevereiro





Toque de REUNIr


Antes mesmo do reinício (tardio) das aulas na graduação, os professores do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza receberam via e-mail uma convocação da administração superior para discutir a proposta do Bacharelado (Interdisciplinar) em Ciências Matemáticas e da Terra. O curso faz parte do pacote aprovado em 25 de outubro de 2007 pelo CONSUNI, denominado Programa de Reestruturação e Expansão da UFRJ (PRE). Devido às resistências manifestadas pelo corpo social da universidade, a referência formal ao REUNI(1) foi retirada do documento final. Pelo mesmo motivo foi proposto um alongamento do prazo de discussão dos módulos II e III do processo de reestruturação, a saber: ciclos básicos por centro e bacharelados interdisciplinares. Apesar disto, a proposta, originariamente, apresentada pela Decania do CCMN foi classificada como curso novo, sendo mantida no Módulo I do PRE que se encontra presentemente em fase de formalização. Apresentamos em seguida alguns pontos polêmicos da proposta os quais contradizem as metas almejadas com a sua eventual realização.


No PRE aprovado no CONSUNI o curso prometia criar até 2012, 310 vagas no turno diurno e 480 no turno noturno(Anexo I, Planilha Curso Novos de Natureza Interdisciplinar). No entanto, à página 13, do documento distribuído juntamente com o e-mail, os números são bem diferentes: 255 = 800 – 545 vagas no diurno e 425 = 650 – 225 no noturno. Para 2009 são previstas apenas 145 vagas novas no turno diurno.


Há controvérsia também nas metas qualitativas enunciadas à página 4, Este curso tem por objetivo formar profissionais, em nível superior, com uma sólida base conceitual e matemática nas áreas de ciências da Natureza, da Terra e da Matemática, capazes de aplicar e desenvolver as tecnologias necessárias à aplicação desses conhecimentos em sua vida, tanto profissional quanto pessoal. Examinando a grade curricular dos quatro primeiros períodos(2), constatamos que a profundidade do conteúdo está bem abaixo do que é praticado hoje nos cursos regulares do Centro. Embora o projeto permita, em tese, ao aluno migrar para um dos bacharelados tradicionais, a vaga não está garantida, pois depende de um índice descrito à página 13 que se baseia no número de disciplinas cursadas, no coeficiente de rendimento e no número de períodos cursados desde a entrada no curso (?). Caso o aluno não queira migrar, pode se candidatar, segundo os mesmos critérios, a obter uma habilitação específica (3) em mais um ano, ou ainda montar juntamente com o seu orientador, sujeito a aprovação do colegiado, uma grade de disciplinas que lhe garanta o ambicionado diploma. Ora, isto em nada se parece com o perfil objetivado no preâmbulo do documento. Ou alguém acredita que se possa formar em três anos um profissional com estas características ?


Os pressupostos educacionais do PRE passaram por várias metamorfoses ao longo dos embates no ano passado. A precocidade era um dos males a se combater. Aparentemente, a proposta apresentada vai na direção oposta – formar em três anos um profissional altamente especializado. Outro tema recorrente é o da interdisciplinariedade, que nos documentos da Reitoria já se chamou de transdisciplinariedade. Também aí reside um equívoco de concepção e uma incompatibilidade de implementação. Promover a interdisciplinariedade não é ensinar um pouco de tudo, mas, uma atitude, uma mentalidade. Em uma equipe interdisciplinar, mais do que nunca serão necessários matemáticos, físicos, químicos que possam dar respostas aos complexos problemas das áreas interdisciplinares. O desafio maior para a formação deste profissional e à sua atuação em ensino e pesquisa reside na atual estrutura organizacional das universidades federais, intocada em toda a discussão.


O PRE da UFRJ é conseqüência do REUNI, cujo objetivo principal é aumentar o número de formandos nas universidades públicas. Está mal formulado, como tantos outros projetos do governo federal nas áreas da educação, meio ambiente, infraestrutura, etc... E da mesma forma que em outros casos conhecidos, vem sendo imposto à comunidade universitária através da cooptação ou da chantagem. Aos mais volúveis, as mordomias que os cargos públicos não cessam de proporcionar. Aos que resistem, as ameaças e o ostracismo. Reproduz-se no interior das universidades o mesmo quadro de apropriação do estado pelos seus governantes, que por sua vez defendem interesses cada vez mais particulares, em detrimento de uma visão republicana em prol da coletividade.


A destruição do estado de direito vem se fazendo de forma distinta daquela que foi perpetrada pelo regime militar, mas se aproxima do mesmo resultado. A insensibilidade dos dirigentes diante dos equívocos que vêm sendo cometidos só encontra explicação no conformismo de uns, e no oportunismo de outros. Evidentemente, este retrocesso histórico vai colidir com as necessidades de um estado de direito moderno e democrático que a sociedade brasileira está a exigir.


(1)denominação do decreto presidencial que implantou a nível nacional a sistemática de reestruturação acadêmica das universidades federais.


(2) As cadeiras com (ead) serão ministradas a distância. As disciplinas de Inovação são palestras proferidas por especialistas em diferentes áreas. A composição de obrigatórias e optativas vai depender da habilitação específica almejada pelo aluno e isto já pode ocorrer a partir do segundo período.


(3) A aceitação também depende do índice já descrito. As habilitações mencionadas são: Análise de Suporte à Decisão, Física-Matemática e Sensoriamento Remoto.

 

 

 


Março


 


Contra-cheque do futuro


Desde novembro do ano passado os docentes das IFES vivem a beira de um ataque de nervos por causa das indefinições que cercam o projeto salarial do governo. Após meses de conversações, o governo bateu o martelo com a Central Única! dos Trabalhadores (CUT) e a facção PROIFES. Naquela ocasião foi anunciado mais "um nunca na história deste país" os professores receberiam tão bem. Até seria verdade se não fosse o detalhe de que o aumento seria diluído ao longo de três incertos anos. Incerteza comprovada na derrubada da famigerada cpmf que serviu de falso pretexto para que o governo suspendesse os compromissos assumidos. Compromissos que não eram nenhuma das sete maravilhas salariais do mundo moderno, pelo contrário, a cada conquista correspondia um retrocesso. Incorporava-se a GAE porém desincorporava-se o adicional por titulação. Aumentava-se o vencimento básico no primeiro ano, mas congelava-o nos anos seguintes. Dava-se paridade entre ativos e aposentados, contudo aumentava-se a distorção da malha salarial, criando-se "steps" demasiadamente elevados sem aparente justificativa racional, como, por exemplo, aquele existente entre Adjunto IV e Associado I. Ou ainda, na total falta de proporcionalidade entre os regimes de 20h e 40h, tornando a hora do professor 40h mais barata do que a do professor 20h, independentemente da "produtividade" de um, ou de outro... Ou seja, uma visão mais radical ainda de quebra de isonomia, do que aquela praticada pela Secretária de Educação do Estado de São Paulo.


O ano novo começou cercado de mistério sobre o futuro salarial dos funcionários públicos e também de muitos itens do orçamento. Entretanto, se o governo desejava levar adiante o projeto do REUNI, não poderia ignorar as necessidades salariais daqueles que seriam seus principais protagonistas – os professores. Assim nesta Quinta-feira última, 13 de março, o circo midiático governamental brindou a academia com um mimo irrecusável – dinheiro. Dinheiro para o REUNI, para os salários, enfim, tudo aquilo que havia sumido com a cpmf, voltou com juros turcos para a promoção da justiça e solidariedade. Entretanto, o docente que procurasse se informar nos sítios oficiais do Ministério do Planejamento ou da Educação nada encontraria (consulta dia 14 de março às 21h) . No sítio do ANDES se depararia com a nota de que solicitação de informação feita ao governo fora negada sob o pretexto de que o ANDES não havia participado da negociação e portanto não merecia ser informado...


Só restava uma alternativa – o sítio da facção ! E lá estavam as tabelas de um anexo de um ofício do MPOG de 6 de março de 2008 para o regime DE. Não foi possível encontrar as tabelas para os regimes de 20 e 40 horas (consulta dia 14 de março às 21h). O texto que acompanha as mesmas informa que a GAE não será mais incorporada em 2008, mas somente em 2009. A tabela apresenta somente a remuneração final que coincide com a remuneração final das tabelas de novembro de 2007. Porém, diferentemente daquelas, não detalha a composição da remuneração, isto é, vencimento básico, gae, ged, etc..., o que impede que os professores calculem quanto vão ganhar de fato. Por exemplo, se o vencimento básico não aumentar, a GAE também não aumenta, tampouco as receitas provenientes de causas salariais ganhas. Assim, um professor adjunto IV, DE, com doutorado, que tem 26,05% , mais 3,17%, terá como único aumento bruto, o reajuste da GED, que dá o módico valor de R$ 863,23 ! O que vai dar para esta categoria um aumento inferior a 10% para o ano de 2008. Este é o resultado da participação ativa e propositiva da CUT e do PROIFES na defesa dos companheiros adjunto IV. Na proposta de novembro de 2007, pelo menos no primeiro dos três anos o vencimento básico aumentava. No caso dos adjuntos IV, DE, com doutorado, de R$ 1.376,11 para R$ 2.505,17. Puxando assim um aumento ainda maior dos vencimentos via os percentuais mencionados acima.


Não somos loucos a ponto de rasgarmos dinheiro, nem tampouco tolos para considerarmos esta proposta benéfica para a categoria. Entretanto, temos um trunfo que não tínhamos no passado – o REUNI. Uma universidade do futuro não é possível com contracheques do passado, as negociações salariais precisam ser retomadas com o conjunto completo dos representantes dos docentes das IFES.

 


Abril




 

Praia Vermelha Business Center


O Conselho Universitário reunido hoje, dia 10 de abril de 2008, foi suspenso por determinação do Reitor que julgou não haver condições para sua continuidade, em vista da ocupação da sala de reuniões por cerca de trezentos estudantes que protestavam contra a votação sumária do novo plano diretor da UFRJ. Não foi uma boa reunião para o Reitor que teve, logo ao seu início, de anunciar a saída, a pedido, da professora Angela Rocha, decana do CCMN, da Comissão de Desenvolvimento do CONSUNI. Precisamente a Comissão envolvida com a tramitação do plano e em particular se tratando de uma dirigente que liderou no seu Centro e no CONSUNI a formulação do PRE-REUNI na UFRJ.

O plano diretor é ambicioso e não esconde isso ao afirmar no item 8.1, à página 26: ”O Plano de Reestruturação e Expansão e o Plano Diretor UFRJ 2020, que constitui sua faceta físico-territorial-patrimonial, apontam para uma ambiciosa transformação de nossa Universidade, sem paralelo nos últimos 40 anos. Eles não terão qualquer possibilidade de sucesso se, além dos recursos financeiros, não contarem com os recursos da inteligência, criatividade, engajamento e vontade política do conjunto da comunidade universitária. ” Pelo ocorrido hoje, aparentemente, está sobrando engajamento e vontade política, porém no sentido oposto ao indicado pelo plano.

Ao incorporar a totalidade das propostas do PRE-REUNI, mesmo aquelas que, de acordo com a votação no CONSUNI no ano passado, deveriam ser debatidas este ano, como é o caso da transferência das unidades de ensino da Praia Vermelha e a implantação dos bacharelados interdisciplinares e dos ciclos básicos amplos (Módulos II e III do PRE-REUNI da UFRJ) o plano diretor despertou contra si toda a animosidade que existe contra a compulsória reestruturação a que estão sendo constrangidas todas as instituições federais do país. Evidências disso são abundantes no documento. Por exemplo, nas Diretrizes Complementares à página 13, ao tratar das ¨Ações prioritárias para investimentos com recursos do orçamento 2007-2008¨ o documento indica que até 28 de abril deve ser apresentada para deliberação neste Conselho uma definição de área na Ilha do Fundão para a construção de prédio, em módulos, para abrigar salas de aula para novos alunos do CCJE, CFCH e CLA.

A pressa, dizem, é inimiga da perfeição, mas freqüentemente se dá muito bem com a contrafação. Na nota de rodapé número 18, à página 27, temos as seguintes indicações de ocupação: ¨...existem igualmente propostas para a edificação, na Praia Vermelha, de prédios para uso do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e para criação do Museu da Energia, para a edificação de um prédio para centro cultural e sede de empresas públicas e privadas, para a implantação de um hospital privado e para um prédio para laboratórios e consultórios médicos¨. Os projetos comerciais se integram assim à expansão do Rio Sul pela Brascan.

Estão certos os estudantes ao cobrarem sua cota neste latifúndio, ou dele só terão os palmos de suas covas.



Maio

quinta-feira, maio 01 2008


LICENCIATURAS EM TRÊS ANOS: UMA EXCRESCÊNCIA(*)

Clóvis Pereira da Silva[i]

O Governo Federal continua com o firme propósito de transformar em sucata o Sistema Nacional de Graduação - SNG. Seus atos neste sentido são divulgados diariamente pela imprensa, e se referem a sucateamento das universidades federais via redução de verbas para a manutenção das mesmas, via pagamento de salários aviltados aos docentes e aos técnicos – administrativos dessas instituições, via autorização desordenada para criação de novos cursos de graduação por parte de Instituições de Ensino Superior privadas. Para evitar o caos no SNG é necessário que a parte esclarecida da sociedade reaja de forma veemente. O futuro de nossa nação será moldado por nossas reações.

Nosso particular interesse está voltado para a oferta por Instituições de Ensino Superior - IES privadas dos cursos de licenciaturas em Matemática em três anos, excrescência que foi aprovada em 2002 pelo Conselho Nacional de Educação – CNE (cf. Resolução CNE/CP n° 2, de 19 de fevereiro de 2002).

A parte esclarecida da sociedade precisa fazer a si mesma a seguinte pergunta: como ficará o Brasil no competitivo contexto mundial com a oferta de cursos de licenciaturas em três anos e de má qualidade? Lembramos que estes são cursos formadores de professores do ensino básico (professores de matemática, física, química, história, geografia, língua portuguesa, etc.).

Será esta uma estratégia idealizada pelo Banco Mundial para assegurar nossa inserção no mundo capitalista globalizado como nação periférica, exportadora de recursos naturais, de produtos agrícolas e de mão – de - obra barata, e dependente ad infinitum da importação de ciência e tecnologia de ponta? Este atual estado de coisas interessa a quem? Certamente que não interessa à nação brasileira.

Segundo informações contidas no Informativo nº 136 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira-INEP, órgão do MEC, de 24/5/2006, o país tinha 2.381 IES. Desse total as IES privadas correspondiam a 89,83%. As 10,17% restantes eram IES públicas. Este é um número assustador tendo em vista a má qualidade dos cursos de licenciaturas, em particular, licenciaturas em Matemática, ofertados pela grande maioria dessas instituições privadas. Chamamos a atenção do leitor para observar a quantidade de jovens brasileiros que estão tendo uma formação de graduação de baixa qualidade. Este é um problema gravíssimo.

A educação do brasileiro não pode ser tratada como um grande e lucrativo negócio que desperta o interesse de grupos privados nacionais e estrangeiros. Sabemos que a venda de serviços da educação superior afasta a universidade do estudo do rigor teórico, da vigilância epistemológica e das soluções dos problemas nacionais.

A excelência da educação escolar da nação com conseqüente formação de seus líderes é um dos itens da soberania nacional[ii]. Um bom e inteligente sistema educacional deve ser uma prioridade para a nação. A qualidade de vida dos brasileiros no presente e no futuro, sua inserção no mundo capitalista globalizado serão determinados pela qualidade da educação escolar do país. A sociedade brasileira deve repassar esses princípios às autoridades responsáveis pelas coisas da educação.

O Brasil não pode esperar outros quinhentos anos para ser criado um Sistema Nacional de Ensino de boa qualidade. O momento é agora. A respeito da boa qualidade da educação nacional vejamos o que nos informa (BARROS, 1986, p. 207)[iii].

A educação como observa Tito Lívio de Castro, é, por excelência, o fator mesológico mutável, entre outros fatores imutáveis: dela, por conseguinte, é que temos de esperar tudo. É a alta cultura, especialmente de índole científica, que produz a prosperidade material, que pode enriquecer o país, torná-lo saudável e feliz. Para que a tenhamos, é preciso difundir as “luzes” por todas as classes sociais, espalhar o ensino primário, estabelecer o ensino secundário, criar o ensino técnico, especialmente o profissional e o agrícola. Mas, antes e acima de tudo, é preciso reformar o ensino superior, torná-lo sólido e eficaz, porque sem ele será vã qualquer outra tarefa. Sem uma elite intelectual bem preparada, como esperar a ilustração do povo? (...) Assim, se se quer um povo ilustrado, é preciso, primeiro, que se constitua uma elite verdadeiramente ilustre: que, democraticamente, do seio do próprio povo, saiam os seus guias, mas que essa posição de liderança seja conferida pelo saber e pela ciência. Ora, é exatamente o ensino superior que terá de formar esses guias, esses “ilustrados” a quem cabe acelerar a marcha histórica do país, a quem compete conduzi-lo à meta que a ciência e a indústria apontam como a era feliz da humanidade...

O atual SNG está estruturado para não garantir um avanço significativo da educação escolar brasileira; não está estruturado para fazer a inclusão social dos excluídos. Seu modelo tende a aprofundar o fosso social existente atualmente entre a minoria incluída e a maioria excluída da sociedade do conhecimento. O incentivo à massificação da oferta de cursos de graduação (aí incluídos os cursos de licenciaturas) de má qualidade é uma insensatez. É um produto de gestores incompetentes.

A nação brasileira precisa decidir se quer para si um modelo de universidade que seja capaz de inserir o Brasil na intensa competição internacional do mundo atual. Desejamos a universidade brasileira como sendo uma instituição moderna que possa contribuir para nos retirar da triste e vergonhosa condição de país exportador de cérebros, de matéria prima, e país dependente da ciência e da tecnologia desenvolvidas por outros países.

Sabemos que o futuro de nossa nação está intimamente ligado à qualidade da formação de suas elites intelectuais.

Assim que a Resolução CNE/CP n° 2, de 19 de fevereiro de 2002, foi publicada a imprensa nacional divulgou notícias de que os proprietários das IES privadas afirmavam que a inadimplência dos alunos em suas instituições ocorria a partir do segundo ano do curso.

Logo, inferimos que reduzir as licenciaturas para três anos funcionaria como a solução perfeita para reduzir a inadimplência de alunos clientes, assim como para atrair novos alunos. E quanto à qualidade dos cursos de licenciaturas a serem integralizados em três anos? Por que o CNE e o Ministro da Educação não acataram as informações de alerta, e os protestos contra as licenciaturas em três anos apresentados pela sociedade organizada, via sociedades científicas? Os gestores da educação brasileira foram alertados sobre os danos irreversíveis que causariam à formação de professores a aprovação da referida Resolução. Qual o propósito dos membros do CNE quando aprovaram a Resolução acima citada?

A partir do segundo semestre de 2002 várias IES privadas sediadas em diversas cidades brasileiras passaram a ofertar cursos de licenciaturas, inclusive em Matemática, em três anos letivos e funcionando apenas no período noturno. Principal objetivo dos proprietários dessas IES privadas: atrair a maior quantidade possível de alunos com a oferta de cursos de formação de professores em três anos. Sabemos que o processo “seletivo” para ingresso de alunos nas IES privadas é uma grande farsa. A imprensa nacional já divulgou, por exemplo, o caso de um analfabeto que havia sido aprovado em “processo de seleção” para um curso de Direito de uma determinada IES privada.

Para serem ofertados novos cursos de licenciaturas em Matemática em três anos, as grades curriculares desses mesmos cursos que eram ofertados em quatro anos tiveram que ser reduzidas. Várias disciplinas pertencentes a grandes áreas do conhecimento como: Álgebra, Geometria, Análise Matemática, Estatística, Física, História e Fundamentos da Matemática, Formação Pedagógica, contendo conceitos básicos da Matemática, e indispensáveis à boa formação do licenciado em Matemática foram suprimidas, criando-se assim verdadeiras grades monstros curriculares que passaram a graduar néscios numéricos, os novos licenciados em Matemática, que serão os professores das novas gerações de brasileiros analfabetos numéricos. Lembremo-nos do desempenho dos estudantes brasileiros nas diversas versões do Programa Internacional de Avaliação de Alunos – PISA, que aborda as áreas: Ciência, Leitura, Matemática.

Os cursos de licenciatura em Matemática de três anos são ofertados pelas IES privadas no período noturno. Em geral, os alunos de cursos noturnos precisam trabalhar durante o dia, inclusive aos sábados, para pagar a mensalidade do curso e para se manterem. Apresenta-se aqui um dos problemas do sistema. O aluno não tem tempo para estudar corretamente, nem para realizar as poucas e reduzidas tarefas escolares exigidas pelos professores do curso. A trapaça nos exames das disciplinas desses cursos chega a ser considerada um direito do aluno. Como aprender Matemática sem ter tempo para se dedicar aos estudos necessários, sem ter tempo para freqüentar bibliotecas (supondo que as IES privadas possuam boas e atualizadas bibliotecas, o que não é verdade). Sem ter bons, qualificados e experientes professores (nestas instituições os professores ganham por aula dada) para orientar os alunos, e sem o apoio de um consolidado ambiente científico que as IES privadas não têm? No processo ensino e aprendizagem não há mágica.

O processo de formação ou desinformação por meio desses cursos de licenciaturas em Matemática em três anos tem como características: a pobreza de informações teóricas essenciais à boa formação do professor de ensino básico, a precariedade nas manipulações matemáticas, e a precariedade no uso da informática como ferramenta auxiliar.

O responsável pela elaboração da grade curricular de um curso de licenciatura em Matemática a ser integralizado em três anos à noite passará a dispor de cinco noites por semana (de segunda-feira à sexta-feira), cada noite com três horas e trinta minutos de atividades escolares, para integralizar a carga horária de 2.800 horas, conforme determina o Art. 1° da Resolução CNE/CP n° 2, de 19 de fevereiro de 2002. Esta pessoa passará a utilizar os sábados para que algumas disciplinas tenham aulas regulares e desse modo cumprir a lei.

Isto funcionará apenas no papel, pois a grande maioria dos alunos das IES privadas trabalha também aos sábados, e assim sendo tais alunos não poderão assistir aulas aos sábados. Relembramos que por força da Lei nº 9.394/96, (a LDB) a freqüência é obrigatória a, pelo menos, 75% das aulas de cada disciplina do curso.

Há outro grave problema originado pelo sistema atual. Como as IES privadas procuram matricular o maior número possível de alunos clientes, eles são matriculados, por exemplo, em um curso de licenciatura em Matemática sem possuírem conhecimentos básicos necessários a alguém que aspira ser professor de Matemática.

Em resumo. Os cursos de licenciaturas em Matemática que eram ofertados em quatro anos por IES privadas já eram de má qualidade, devido a uma série de fatores que são do conhecimento das autoridades competentes, e a partir de 2002 esses mesmos cursos de má qualidade passaram a ser ofertados em três anos de duração. Teremos como resultado desse imbróglio a má qualidade elevada a n-ésima potência, , com n sendo um número inteiro positivo maior que 1.

O licenciado em Matemática deve ser um profissional que, dentre outras coisas tenha o perfil seguinte: saiba dominar conhecimentos matemáticos não triviais; tenha consciência do modo de produção próprio da Matemática (origens, processo de criação, inserção cultural); tenha conhecimento das aplicações da Matemática em várias áreas do conhecimento; seja capaz de perceber o quanto o conhecimento de certos conteúdos e o desenvolvimento de certas habilidades e competências próprias ao fazer matemático são relevantes para o exercício pleno da cidadania; seja capaz de observar seus alunos, ensiná-los a pensar, e buscar alternativas de ação que propiciem o desenvolvimento de autonomia e pensamento desses alunos.

Com a oferta de cursos de licenciatura em Matemática em três anos será impossível graduar profissionais com tal perfil, além de habilidades e competências que são determinadas pelo colegiado do curso.

Com isso poderemos inferir que o Governo Federal conseguiu criar o seguinte quadro sombrio. Os futuros professores de matemática graduados por IES privadas aprenderão quase nada, e por sua vez, menos que quase nada passarão para seus futuros alunos. Chegará o momento em que este quase nada tenderá para zero. Ainda bem que a USP e outras universidades públicas ofertam bons cursos de licenciatura em Matemática que são integralizados em quatro anos e em cinco anos, dependendo do período.

E La nave va.



NOTAS

[i] Doutor pela USP; Docente aposentado pelo Departamento de Matemática da UFPR; Vice-Presidente da SBHMat; Consultor da CAPES; Membro da Atual Diretoria da APUFPR. E-mail: clovips2@uol.com.br

[ii]Os responsáveis pelas coisas da educação dos países desenvolvidos sabem o que isto significa para seus países.

[iii] BARROS, Roque Spencer Maciel de. A Ilustração Brasileira e a Idéia de Universidade. São Paulo: Editora Convívio/ EdUSP, 1986.

* Artigo enviado pelo autor e aprovado pela equipe do blog para publicação






O OBSERVATORIO  RESPONDE AO PRESIDENTE DO PROIFES



Caros colegas,

Como Presidente do PROIFES, peço-lhes o obséquio de publicar os esclarecimentos que a seguir faço, de modo a que os leitores desse blog possam ser devidamente informados sobre as negociações da recente campanha salarial dos docentes das IFES.Em primeiro lugar, o PROIFES não é uma 'facção', e sim uma entidade nacional representativa dos professores das IFES. Tem sede em Brasília e reúne hoje mais de 20.000 docentes de 35 IFES. No processo de consulta que resultou na assinatura do Termo de Acordo do Ensino Superior o PROIFES ouviu mais de 4.000 professores em todo o país, não só através de consultas eletrônicas como através de votações em urna, assembléias gerais, etc. Vale a pena informar que, para não assinar o mesmo documento, a ANDES consultou 445 em assembléias gerais, várias delas controvertidas, realizadas por suas ADs (dados obtidos da página dessa entidade).

(BLOG)Não temos condições de verificar os dados fornecidos, mas causa-nos estranheza porque diante de uma adesão tão expressiva, somente 5 AD´s estão formalmente filiadas ao PROIFES de acordo com a página da entidade nacional (consulta em 29 de Abril Às 12:30h).

Em segundo lugar, o autor do artigo 'Vazamento' de tabelas parece desconhecer os seguintes fatos básicos:1) As negociações entre Governo (MEC e MPOG) e entidades representativas dos professores (PROIFES, ANDES e SINASEFE) começaram em agosto de 2007, e terminaram, respectivamente, em 05 de dezembro de 2007 (Ensino Superior), com assinatura de Termo de Acordo entre o Governo, PROIFES e CUT; e em 20 de março de 2008, com assinatura de Termo de Acordo entre Governo, PROIFES, CUT e, posteriormente (04 de abril) SINASEFE.

(BLOG)Isto é do nosso conhecimento sim, o que não é do nosso conhecimento é em quais assembléias com a presença de docentes reais o PROIFES consultou suas bases sobre a participação da CUT nas negociações.

2) A ANDES não assinou nenhum dos dois Termos de Acordo;

(BLOG)Também é do nosso conhecimento e o fez com base nas deliberações de Assembléias que grandes ou pequenas têm livro de presença permitindo a verificação do quorum real ao contrário das votações hipotéticas realizadas por consultas eletrônicas na Internet, sem a identificação real do docente, que são promovidas pelo PROIFES.

3) Como conseqüência, as entidades credenciadas a publicar informações sobre os Termos de Acordo assinados por elas e respectivas tabelas são: em relação ao Ensino Superior, o PROIFES; e em relação ao Ensino Básico, Técnico e Tecnológico, o PROIFES e o SINASEFE.Portanto, informo-os que as TABELAS publicadas nas páginas do PROIFES (Ensino Superior) e nas páginas do PROIFES e SINASEFE (Ensino Básico, Técnico e Tecnológico) são as pactuadas entre essas entidades e o Governo, daí decorrendo que o termo 'Vazamento' só pode ser usado por alguém que desconhece a realidade ou pretende deformá-la.

(BLOG)Neste particular ponto a crítica do artigo não é dirigida ao PROIFES por publicar as tabelas, mas ao governo por não fazê-lo amplamente aos mais de 55.000 professores das IFES em todo o país.

Em terceiro e último lugar, sugiro aos leitores desse blog a leitura do Boletim 12 do PROIFES (ver página da entidade, www.proifes.org.br), em que todo o processo de negociação (tanto do Ensino Superior quanto do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico) está cuidadosa e fielmente detalhado. Apenso ao Boletim 12 citado estão as tabelas finais, que deverão ser publicadas em instrumento legal a ser publicado pelo Governo, de acordo com os compromissos assumidos nos Termos de Acordo assinados.

(BLOG)Pelo nosso lado sugerimos aos leitores do blog e a todos os demais que leiam as notícias dos jornais de hoje para constatarem que com a exceção do acordo com os militares todos os demais acordos com servidores públicos estão na dependência de um suplemento orçamentário, o que demonstra a fragilidade do próprio acordo. Fragilidade, que em parte, deriva da dispersão da representação dos docentes das IFES após a criação do PROIFES.

Atenciosamente,
Professor Dr.Gil Vicente Reis de Figueiredo,
Universidade Federal de São Carlos, SP.
Presidente do PROIFES.
Segunda-feira, Abril 21, 2008 6:51:00 PM

O Observatório da Universidade é uma iniciativa independente, não vinculada ao ANDES, nem a nenhuma outra entidade ou partido político, que pretende promover o debate crítico e aberto sobre as questões da universidade e de seus protagonistas.

Professor Luis Paulo Vieira Braga
Universidade Federal do Rio de Janeiro, RJ.
Administrador do Observatório da Universidade
Terça-feira,29 de Abril de 2008.





segunda-feira, maio 19 2008 - 01:33

Neopeleguismo Sindical e Movimento Docente nas IFES*

Leandro Nogueira (EEFD-UFRJ)

Luis Paulo Vieira Braga (IM-UFRJ)

O cenário é indiscutível e o veredicto é consensual, tanto para as bases do pensamento à direita, como da esquerda democráticas: a CUT e a Força Sindical, em missão conjunta para integrarem política e financeiramente o aparato estatal, inovaram o peleguismo arbitrado pela Era Vargas, protagonizando o mais explícito neopeleguismo. E o fizeram como "nunca antes na história desse país", segundo os sociólogos Ricardo Antunes, professor da Unicamp, e Demétrio Magnoli, colunista de O Globo.

No começo, o argumento era o da luta pela legalização das centrais sindicais. Mas com a sanção pela Câmara Federal, em março último, do Projeto de Lei 1.990/07, a lacuna da legalidade, que diga-se de passagem, jamais impediu a existência da CUT ou da Força como entidades gerais de representação dos trabalhadores, foi preenchida com um belo pacote, contendo a conversão do imposto sindical para o status de contribuição negocial, e a confirmação da unicidade sindical.

Em uma única e sorrateira tacada, essa "modernização" dos fundamentos da legislação sindical varguista, consagrou uma casta de sindicalistas completamente apartada dos trabalhadores, na mesma medida em que foi suprimido o direito à liberdade sindical, consagrado pelo Art. 23 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e ratificado pela Convenção 87 da OIT.

Com a "contribuição negocial" a CUT e a Força passam a não mais necessitar da cotização dos trabalhadores associados, adverte o Prof. Antunes, já que serão patrocinadas pela legislação lulista, com 10% do valor das contribuições sindicais.

Por baixo, o presente lulista permitirá que os neopelegos abocanhem anualmente mais de R$ 100 milhões, lembra o colunista Magnoli, e sem qualquer prestação ao Tribunal de Contas da União, de acordo com a Lei 11.648, editada na sequência da sanção presidencial ao PL 1.990/07.

Além desse privilégio a fundo perdido, a CUT e a Força preservaram também a "reserva de mercado" por meio da unicidade sindical, princípio que obriga todos os trabalhadores a pagarem tributos para o sindicato local e único por base territorial. Os dirigentes da CUT e da Força alegam que ambas as centrais têm compromisso com o fim do imposto sindical, e que a criação da contribuição negocial coletiva, a ser aprovada em assembléia, beneficiará os sindicatos sérios e representativos, combatendo-se assim, os chamados sindicatos-fantasma.

Noves fora o fato de que o fim do imposto sindical ainda não foi decretado, nem a CUT ou a Força debatem o fim da unicidade sindical, ou informam que a nova contribuição pode superar o confisco anual limitado a 3,3% de um salário mensal, com a perspectiva de até ultrapassar 13% desses mesmos vencimentos.

Na prática, enquanto se perpetra a eliminação dos sindicatos-fantasmas, o novo instrumento de contribuição compulsória e garantido pelo Estado, visa asssegurar em bases ainda mais vantajosas a reserva de mercado sindical.

Este neopeleguismo é especialmente favorável ao governo Lula, que assim pode controlar melhor os movimentos reivindicatórios dos trabalhadores e aposentados, conduzindo-nos a passos largos. para a sociedade dos empregos de baixa qualidade e das aposentadorias mínimas, com uma rede pública de proteção social cada vez mais deficiente, não obstante sejam propagadas as maravilhas do "crescimento sustentado" da economia.

O quadro é especialmente deletério para a afirmação das políticas públicas que visam a promoção dos direitos de cidadania como educação e saúde, com os trabalhadores desses setores sofrendo com a agudização das perdas salariais e das condições de trabalho necessárias para a oferta do atendimento de qualidade à população.

Por outro lado, se os trabalhadores do país vão servindo como massa de manobra para a CUT e a Força, muitos professores nas IFES incorrem em grave equívoco, ao acreditarem que a questão do neopeleguismo sindical nem de longe lhes diz respeito.

Sem embargo, ironicamente, os neopelegos estão fazendo escola entre nós, a partir da ligação íntima que se verifica entre a CUT e a entidade conhecida como PROIFES, surgida há alguns anos, supostamente como alternativa de luta pela valorização da universidade pública.

Em verdade, a gênese do PROIFES remonta a um período recente na história do movimento docente das IFES, quando dissidências de colegas petistas e demais apoiadores do lulismo, passaram a marcar presença em assembléias docentes, na UFRJ inclusive, pela defesa obstinada das propostas governistas, ainda que elas fossem deletérias para as universidades públicas federais, ou mesmo implicassem na retirada de direitos e na desvalorização dos professores universitários.

No princípio, essa militância geradora do PROIFES visou desqualificar e obstruir as greves dos professores das IFES em 2003, apesar da notória recusa governista em negociar reajustes que gradualmente reparassem as nossas perdas salariais. Em seguida. passaram a defender resolutamente a Reforma da Previdência, sancionada pelo governo federal naquele mesmo ano, através da famigerada PEC-40, que extinguiu a aposentadoria integral dos novos servidores públicos, instituiu o confisco compulsório dos inativos, e ainda impôs novas perdas para os trabalhadores da iniciativa privada, numa autêntica negociata, como bem definiu à época, a filósofa Marilena Chauí, da USP.

Mas a pré-história do PROIFES, justiça seja feita, ainda registra o apoio incondicional de seus militantes à Contra-Reforma Universitária de Lula da Silva, cuja primeira fase pariu o PROUNI, o esquema de utilização de verbas públicas e renúncia fiscal, para o preenchimento de "vagas ociosas" em instituições privadas do ensino superior, apesar do inaceitável nível de subfinanciamento das IFES.

Diante da prestação de serviços tão relevantes, essa militância foi então reconhecida pelo governo em 2004, com a criação do PROIFES, após decisão tirada de uma reunião ocorrida nas salas do MEC, que segundo o filósofo Roberto Romano, da Unicamp, teria sido chancelada pelo Sr. Jairo Jorge, então Secretário Executivo do ministério.

Desde então, como organismo paralelo (e governista) de representação docente nas IFES, o PROIFES tem insistido na desqualificação do movimento docente vinculado ao ANDES-SN, mesmo após a greve de 2005, que resultou entre outros efeitos, na obtenção do nosso último reajuste salarial, na criação da classe de associado, além dos aumentos de 50% no incentivo de titulação para a carreira de ensino superior, e de 90 para 115 pontos na GED para os aposentados.

Além disso, o PROIFES tem apoiado em todo o país a implantação do REUNI, o decreto que estabelece a aprovação automática nas IFES, num simulacro de ensino superior que visa graduar sem formar, enquanto precariza, intensifica e desvaloriza o trabalho docente, com (sub) financiamento não garantido, e ainda por cima mediado pela chantagem orçamentária do governo.

Apesar desta lamentável trajetória, os dirigentes do PROIFES ainda se auto-proclamaram negociadores vitoriosos por um acordo de reajuste salarial, cujas tratativas foram encerradas pelos representantes do próprio governo, em 10/12/2007, após estes divulgarem proposta que não contemplava as reivindicações aprovadas pela base majoritária do movimento docente nas IFES.

E, em 22/04 último, como os reajustes constantes nas tabelas impostas pelo governo, e previstos para vigorarem a partir de 01/03/2008, ainda não haviam dado o ar da graça em nossos surrados contracheques, o doutor-presidente do PROIFES, resolveu "cobrar" do governo, mais precisamente dos secretários do MPOG e do MEC, através de carta com cópia aos parlamentares do Congresso Nacional, que a tal "negociação vitoriosa" fosse implementada com urgência, por meio de Medida Provisória. Segundo ele, estaria "se instalando no professorado um clima de crescente perplexidade e, inclusive, de descrença em relação ao pronto cumprimento daquilo que foi pactuado".

E, em pleno mês de maio, logo após o Dia das Mães, as egrégias autoridades do governo, quiçá sensibilizadas por tal apelo, resolveram incluir os docentes das IFES e do Ensino Básico Federal, em nada menos que duas MPs, nº 430 e 431, publicadas no DOU, edição extra do dia 14/05, concedendo reajustes salariais, também para os demais servidores do Executivo Federal, da Polícia Federal, do Desenvolvimento Agrário, da Previdência, da Saúde e do Trabalho, da fiscalização do Ministério da Agricultura, da Polícia Rodoviária Federal, do Denasus e das Forças Armadas.

Mas sobre o que foi pactuado e exaltado como "grande vitória" pelos negociadores do PROIFES, é bom lembrar, por exemplo, que com o tal "acordo", os vencimentos de um "privilegiado" Professor Doutor 40H, Adjunto I, hoje no valor de R$ 3581,08, passarão inicialmente para R$ 4300,00. No sexto ano da Era Lula, trata-se de um valor ainda muito aquém dos vencimentos de R$ 5084,00, percebidos já em 2007, por um Policial Rodoviário Federal em início de carreira, de quem é exigida apenas a formação de ensino médio, para o cumprimento de uma carga de 40 horas semanais de trabalho, em regime de escala de revezamento.

Não obstante a necessidade da justa remuneração do Policial Rodoviário Federal, é mister que não seja ignorada a evidente e inaceitável desvalorização dos professores nas IFES. Além disso, não será em comunhão com o neopeleguismo, que conseguiremos reverter essa situação que o PROIFES considera "vitoriosa".

A bem da História, não dá nem para chamar de "vitória de Pirro", o tal "acordo" do PROIFES. O rei do Épiro, como se sabe, jamais se deixou iludir, mesmo após o épico triunfo em uma batalha contra os romanos.

O PROIFES, ao contrário, mesmo desprestigiado , mostra-se muito satisfeito com o tal "acordo", em verdade, uma clara imposição governista. Seus membros consideram-se hábeis negociadores, quando distantes disso, são apenas subservientes às decisões tomadas pelos gabinetes ministeriais, que como se sabe, invariavelmente postergam a substantiva recuperação de nossas perdas salariais.

* Contribuiram na revisão do texto os professores: Cláudio Bornstein (COPPE-UFRJ), José Henrique Erthal Sanglard (POLI-UFRJ) e Abraham Zakon(Escola de Química - UFRJ).




quarta-feira, maio 21 2008 - 02:11

GEMAS !

Diante da profusão de novas siglas que passarão a povoar o contracheque dos docentes das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) uma delas chama a atenção - GEMAS. O professor otimista a interpretará como augúrio de valores de pedras preciosas adicionados aos seus rendimentos, já o pessimista terá a percepção de que muito sacrifício será necessário para obtê-la. De um ponto de vista mais objetivo, a gratificação específica do magistério superior (GEMAS) criada pela Medida Provisória 431 de 14 de Maio de 2008 não pode deixar de suscitar suspeitas de que seja a reinvenção da GED da gestão Paulo Renato - Fernando Henrique. Se tiver o seu mesmo vício de origem, ao confundir avaliação com gratificação, será muito mal vinda pela maioria dos docentes. O pressuposto de que o funcionário só desempenha com afinco suas funções se receber algo a mais, traz embutidos dois dilemas: a) os salários jamais podem ser aumentados ao nível correto e b) aqueles que trabalham pouco continuarão assim, pois ainda receberão muito pelo que fazem.

O uso de gratificações no setor público tem sido confundido com o seu uso em segmentos específicos do setor privado, que é de outra natureza, baseado no lucro das atividades. As gratificações corretas no setor público são, a princípio, devidas a insalubridade, tempo de serviço, titulação, entre outras. Outra forma de aumento de rendimentos nos vencimentos específicos dos docentes são as bolsas de produtividade, que apesar de, supostamente, remunerarem uma atividade extra, acabam por monopolizar os seus beneficiários em atividades de pesquisa e pós-graduação. Somente mais recentemente têm aparecido bolsas de graduação e extensão incentivando atividades voltadas para os curso de graduação. E, finalmente, há os polêmicos projetos de prestação de serviços através das, não menos polêmicas, fundações de apoio que tantos problemas têm trazido às universidades em todo o país. O dilema das receitas oriundas da prestação de serviços é que a partir da sua institucionalização, os orçamentos das IFES jamais serão satisfatórios exatamente porque há a captação extra-orçamentária e além disso, os projetos cada vez menos serão de natureza pública, como é o caso da Microsoft na UFPE e da L´Oreal na UFRJ. Ou seja, tunga-se duplamente a instituição pública e aqueles a quem ela se destina.

As contínuas reformulações dos contracheques do serviço público em geral, e dos docentes em particular, reduzem-se a variações sobre o mesmo tema. Salários defasados são compensados com gratificações que não substituem, por muito tempo, nem a necessária avaliação qualitativa, nem a erosão dos salários. Recorrentemente as IFES se vêem com um corpo docente insatisfeito e mal avaliado. Sem querer extrapolar para outro tema, mas inevitável, cai-se na recorrência das pseudo reformas que pretensamente buscam potencializar a raquítica universidade pública brasileira, fruto, dentre outras causas, da desmotivação e desmoralização de seus professores.

Mais uma vez perdeu-se a oportunidade de se implementar uma política salarial que resgatasse o peso do vencimento básico, com a progressiva eliminação de gratificações espúrias. Mais uma vez, ao custo de inúmeras reuniões, produziu-se uma solução de meia sola que talvez não resista ao curtíssimo horizonte de sua implantação que é de três anos. A insustentabilidade das propostas se revelou no repúdio que colheu até mesmo do leniente parlamento brasileiro em vistas do conflito evidente com as normas do Supremo Tribunal Federal. Cai a MP 430 que provia os recursos para a MP 431 antes mesmo de ser votada. Volta a bola para o campo do governo que deverá agora formular um projeto de lei e encaminhá-lo para votação até o final de maio. Enquanto isso, gemam !




segunda-feira, maio 26 2008 - 08:16

A UNIVERSIDADE NO BRASIL: ESSENCIALIDADE.

O CUIDADO NA ESCOLHA DOS GESTORES UNIVERSITÁRIOS

Clóvis Pereira da Silva[i]

No mundo globalizado atual o que diferencia e diferenciará no futuro as relações entre os países desenvolvidos, é e será o uso do conhecimento pelas nações que formam este bloco. Sabemos que nos países desenvolvidos, a universidade pública é, e continuará sendo o principal centro para formação de recursos humanos qualificados onde se amplia faz, e se fará ciência na fronteira do conhecimento humano sob a forma de ciência e cultura, sendo também o principal centro de idéias que alimentará, e continuará alimentando, o desenvolvimento inovador, tecnológico ou industrial do país onde esta universidade se encontra.

No Brasil, construir e manter universidades públicas com autonomia de decisão sobre seus destinos significa investir recursos orçamentários públicos de modo inteligente em seus recursos humanos, em educação, ciência e tecnologia que são elementos capazes de apoiar com sucesso os planos estratégicos de desenvolvimento inovador industrial, e assim garantir boa qualidade de vida ao povo brasileiro. A sociedade brasileira não tem percebido este fato.

É necessário perceber que a função pública das universidades brasileiras através do livre exercício da docência, da pesquisa e da extensão à comunidade, deverá ser mantida e ampliada. Atualmente a qualidade do ensino de graduação nas universidades públicas brasileiras está sendo prejudicada pela existência de uma estrutura obsoleta, que não premia a qualidade, nem atende as necessidades do mercado e tampouco contempla a expansão do número de vagas ofertadas. O Sistema Nacional de Graduação – SNG está em obsolescência.

Há uma confusa política universitária por parte do governo federal que conduz a gastar mal o dinheiro público, e a não atender as reivindicações salariais dos docentes e dos técnicos - administrativos das Universidades Federais que estão com salários aviltados. A indignação por parte dessas duas categorias para com o governo federal é crescente. Para o futuro imediato, acrescentemos ao atual contexto acadêmico das Universidades Federais um sério complicador que se chama Reestruturação e Expansão das Universidades Federais – REUNI, além do já existente PROUNI.

Para conseguir adesão ao REUNI, um nefasto programa, o governo federal foi apoiado por alguns gestores de Universidades Federais. Estes gestores, alguns dos quais atraíram vários membros dos Conselhos Universitários de suas instituições para apoiar o programa através de acordos políticos. São docentes e servidores que desprezam a ética acadêmica. São docentes e servidores preocupados apenas com vantagens pessoais transitórias, quer no plano político partidário, aí mirando futuras candidaturas para cargos eletivos, quer no plano de obtenção de vantagens pecuniárias. Estas pessoas enviaram a ética acadêmica para a órbita do planeta Júpiter. Uma das extrapolações dessas posturas reprováveis foi constatada nas Fundações de Apoio à Pesquisa das diversas Universidades Federais onde em algumas das quais as vistorias do TCU detectaram diversas irregularidades em suas gestões.

É necessária a elaboração urgente, de um projeto para manter a boa qualidade, a credibilidade e o valor da universidade pública brasileira, cuja inserção no ambiente da pesquisa científica da fronteira do conhecimento humano mundial deve ser preservada. Este projeto não pode prescindir da análise dos problemas financeiros e estruturais do país. Uma nova política acadêmica para as universidades públicas brasileiras requer o delineamento de alguns critérios em sua estratégia e planejamento, além de uma mudança de comportamento político principalmente onde ela é estruturada, passando obviamente por radicais mudanças, por exemplo, no cuidado da escolha dos gestores universitários.

Sugerimos que, quando da proximidade do processo eleitoral para indicação de um Reitor este processo seja precedido da discussão, pela comunidade acadêmica, e definição do perfil desejável do ocupante do cargo de Reitor. A Associação de Docentes de cada Universidade Federal forme um Comitê de Busca de candidatos com perfil para ocupar o cargo de Reitor. Em seguida, cada Conselho Universitário poderia designar uma Comissão para identificar os possíveis nomes de docentes que atenderiam às demandas da respectiva instituição. O Comitê de Busca divulgaria as condições básicas que os candidatos ao cargo de Reitor deverão preencher, e após uma seleção dos candidatos, o Comitê de Busca divulgaria os nomes dos candidatos para a comunidade acadêmica, que assim elegeria o melhor candidato. Dentre as condições básicas para lançamento de candidaturas, poderão ser incluídas: a de que o candidato ao cargo de Reitor não poderia ser filiado a algum partido político; não poderia ser reconduzido; e que apresente um resumo de seu plano de gestão, em no máximo duas folhas de papel formato A4.

É chegada a hora de não mais serem admitidos gestores medianos e atrelados a partidos políticos. Pessoas não éticas, que usam a universidade pública para fins pessoais como se esta fosse um bem de sua propriedade. A comunidade acadêmica sabe que existem vários congressistas que usaram o cargo de Reitor e a máquina administrativa de alguma universidade pública para chegar ao Congresso Nacional. Como se aproxima o processo eleitoral para escolha de novos prefeitos das cidades, percebe-se que há reitores de Universidades Federais usando o cargo e a instituição pública para, em conluio com governadores, serem indicados candidatos pelo partido x ou y, (sabemos que por força da Lei, o funcionário público candidato a algum cargo eletivo deve se afastar das funções, pelo menos, seis meses antes da data das eleições. Mas durante o período de negociações para ser indicado candidato, o Reitor usou a administração pública em seu favor). Estes fatos devem ser denunciados à sociedade. No processo de escolha de futuros reitores das Universidades Públicas devem ser inseridos novos parâmetros nas regras que balizarão o processo de escolha de futuros Reitores. Deve ser evitado que pessoas medianas ou, aventureiros político-partidários sejam eleitos Reitores. O compromisso do Reitor de uma Universidade Federal para com a instituição que dirige restringe-se tão somente ao contexto da qualidade acadêmica dessa instituição.

As pessoas de bem desse imenso país, devem reagir de modo contrário à destruição da universidade pública brasileira que é um bem inestimável. Destruição esta pretendida e fomentada pelo governo federal. Lembramos que o bem estar, a prosperidade completa e a felicidade do povo brasileiro têm primazia sobre o bem estar e a prosperidade de alguns poucos cidadãos. Nossa nação será moldada pelas ações da sociedade. É necessário reavaliar e recriar os recursos decisórios das universidades públicas para compensar o desprestígio flagrante do governo federal que destrói a manutenção dos cursos e instituições consagrados. Este mesmo desprezo se confirma na criação clientelista de novas universidades, novos cursos e novos cargos acadêmicos com finalidades aparentemente educacionais, científicas e tecnológicas, mas apenas políticas.




[i]Doutor pela USP; Docente aposentado pelo Departamento de Matemática da UFPR; Vice-Presidente da SBHMat; Consultor da CAPES; Membro da Atual Diretoria da APUFPR. E-mail:
clovisps2@uol.com.br





Maio







A DESCONSTRUÇÃO TURBOCAPITALISTA NA UNIVERSIDADE DO BRASIL-UFRJ

"O pessimista queixa-se do vento,

o otimista espera que ele mude

e o realista ajusta as velas"

William George Ward

(Teólogo católico e matemático – Inglaterra, 1812-1882)

E alguém tem de pilotar para um destino seguro...

Abraham Zakon, José Henrique Erthal Sanglard, Leandro Nogueira

REFORMA ACADÊMICA SEM DISCUSSÃO APROPRIADA?

Turbinada por sedutoras ofertas de verbas em troca de melhores estatísticas que incluem “mais jovens matriculados nos cursos superiores”, uma reforma universitária está em andamento. Se a UFRJ quiser pagar suas contas de água e luz, tapar os rombos nos telhados de suas bibliotecas e laboratórios, deverá colaborar compulsoriamente na criação de factóides e números midiáticos, sem consonância com a realidade do ensino médio e sem conexão ou compromisso com a garantia da qualidade dos diplomas de ensino superior.

Novos cursos e vagas para estudantes de qualquer origem, com novas edificações para serem inauguradas perante a mídia, estão sendo concebidos para aprovação urgente na UFRJ, já com datas marcadas. O dinheiro está sendo previsto para empreendimentos novos, sem que existam perspectivas de solução para as pendências antigas do ensino de graduação e do Colégio de Aplicação.

Parece um conjunto de avanços acadêmicos, mas é apenas a concretização do que há muito vinha sendo urdido por governos anteriores. Trata-se da criação e da ocupação de novos espaços de poder, diluindo carreiras e instituições consagradas, enquanto promove a ilusão do falso acesso ao ensino superior, para os jovens que não puderam definir as suas vocações. Sem meias palavras, a massificação, travestida de democratização da universidade.

A atual reforma universitária carece de discussão aberta, porque não é um projeto alternativo concebido e amadurecido nas unidades acadêmicas. Os veículos de comunicação têm exibido retrospectivas acerca dos últimos 40 anos, quando estudantes e trabalhadores do Ocidente decidiram marchar contra todos os autoritarismos à direita e à esquerda. Enquanto isso, empurram-nos hoje, goela abaixo, uma autêntica impostura contra o ensino superior, vitaminada por uma insidiosa chantagem orçamentária.

É necessário, no mínimo, avaliar o que aconteceu na nossa universidade pública, antes de se pensar em qualquer tipo de reforma, seja parcial ou global.

1968 A 2008: QUATRO DÉCADAS DE MUDANÇAS NA UFRJ

Mudaram nosso status de “Universidade do Brasil” para “Universidade Federal do Rio de Janeiro”. Mudaram nossa Reitoria da Praia Vermelha para a Ilha do Fundão. Destruíram a clássica edificação da antiga Faculdade de Medicina, mas não derrubaram suas qualidades acadêmicas, e, ainda assim continua provendo a melhor formação médica do Brasil. Mudaram as edificações do ensino de Engenharia, Medicina, Educação Física e deixaram as de Direito e Letras em prédios mal conservados ou limitados. Deixaram unidades, algumas literalmente isoladas, na Praia Vermelha, na Lagoa, na Quinta da Boa Vista, no Centro, em Laranjeiras, em São Cristóvão...

Mudaram o sistema seriado para o sistema de créditos e de requisitos. Extinguiram, duas décadas depois, com o advento da Informática, vários serviços burocráticos, atribuindo antigas tarefas de digitação e arquivamento das secretárias para os próprios docentes. Substituíram papel por meio eletrônico sem garantir equipamentos, treinamento e recursos computacionais confiáveis.

Os Catedráticos foram extintos e convertidos em Titulares, passando à chefia apenas dos seus interesses acadêmicos de ensino e pesquisa. Foram extintos também os planos anuais de atividades docentes e os seus respectivos relatórios, elaborações que constituíam matéria de apreciação regular nos colegiados. Em troca, surgiram confusos e congestionados sistemas computacionais, que nem todos preenchem, por não ser mais obrigatório nem compensador em termos salariais.

Os Auxiliares de Ensino foram virtualmente extintos na UFRJ com o advento dos professores Substitutos. Foram abertos concursos de professores Assistentes para mestres que já eram doutorandos, transformando o salário, destes novatos, em bolsa virtual de doutorado. O doutorado como requisito inicial da carreira docente escancarou as porteiras para o subemprego ofertado aos substitutos. A classe de Adjuntos foi inchada por não haver concursos para titulares. Foram extintos os concursos de Cátedra em regime de competição e a obrigatoriedade da defesa de uma tese específica, substituídos por apresentações de monografias nas áreas de conhecimento dos vários candidatos únicos ao cargo de Professor Titular.

Foram extintas as equipes de docentes criadas e chefiadas por catedráticos que, também, davam aulas experimentais para grupos de alunos de uma mesma turma, além das teóricas. Hoje, os doutores dão aulas para turmas mistas (oriundos de diversos períodos), mas ninguém é chefe... e não há trabalho de equipe. Foram criadas turmas burocráticas de estudantes, constituídas por alunos que se inscreveram pela internet, alguns formando grupinhos fechados e colegas desgarrados. Existe alguma solidariedade entre os alunos, mas, aparentemente, sob um nível abaixo do “espírito de turma” que havia antes dos anos 70.

Foram extintos os cargos de Serventes, Auxiliares de portaria e de infra-estrutura, além de oficinas de manutenção das antigas unidades. Mantiveram-se equipes mínimas de eletricistas, bombeiros hidráulicos e serviços gerais nas Decanias e terceirizaram vários destes. Substituíram Técnicos de carreira por jovens egressos de escolas técnicas, que se tornam estudantes de engenharia, que transformaram salário em bolsas de estudo e, ao se graduarem, procuraram os cursos de mestrado ou mudaram de emprego.

Banheiros de alunos foram transformados em laboratórios. As raras caixas d’água e cisternas não atendem às necessidades de alimentação, sanitárias e de higiene. Foram extintos os restaurantes universitários, o que criou espaço para inúmeros serviços privados de alimentação, que recebem pouco ou nenhum controle sanitário. E surgiu o mercado paralelo de “quentinhas na porta do freguês” sem que a sua qualidade seja fiscalizada e garantida e que impostos sejam pagos pelos vendedores ambulantes e empregadores distantes.

Laboratórios de ensino de graduação foram extintos e surgiram condomínios de sofisticados laboratórios de pesquisa, sem que planos antigos de ocupação ou os critérios de projetos de construção civil do Escritório Técnico da Universidade (ETU) fossem respeitados. Prevaleceram atitudes e decisões políticas de novos grupos de pesquisadores, ávidos em produzir “papers” e almejar premiações.

As congregações e os colegiados em geral foram reformulados com a inclusão crescente de representantes de todas as categorias e classes, substituindo experiência acadêmica por votos das vontades políticas de novos personagens, nem sempre comprometidos com a qualidade do ensino de graduação. Os alunos continuam reclamando.

MAS QUAL SERIA, AFINAL, A REVOLUÇÃO EM CURSO?

As palavras “revolução” e “reforma” têm sido invariavelmente associadas à ideologia do progresso, de algo necessariamente bom ou melhor que o atual. Do ponto de vista histórico, porém, uma revolução é uma mudança drástica em determinado sistema social, alterando profundamente suas principais relações. No caso das IFES (e da UFRJ), temos apenas uma reforma tratada como revolução ou uma contra-reforma assumida como evolução, que nos conduz ao sucateamento do ensino e à precarização do trabalho docente e acadêmico. Estamos saindo do estado de universidade aspirante à concepção de Humboldt para o “escolão” de terceiro grau.

Na carreira docente atual inexiste uma especificação clara das principais atribuições acadêmicas dos docentes em cada nível/classe da carreira, e nem se toca nas questões coletivas e de equipes. A principal parte da carreira, para a maioria dos docentes ainda continua sendo a tabela salarial, que impulsiona a febre promocional e publicadora de “papers”.

Paralelamente, concede-se o direito a um grupo pequeno de docentes para criar um novo curso de graduação num colegiado desvinculado de qualquer unidade acadêmica estabelecida, mas com previsão de uma estrutura administrativa, sem que se defina se será um departamento, uma faculdade ou um instituto de pesquisas. Consultam-se os colegiados de origem dos docentes desse grupo “se estão interessados em participar do novo curso” sem que a proposta pedagógica seja apreciada e corrigida, apesar dos flagrantes erros de conceituação e concepção, inclusive, das grades curriculares.

O cenário exposto revela que ocorre, na prática, a privatização de parte de uma universidade pública gratuita através de empreendimentos que não se estendem à totalidade de docentes, funcionários e estudantes e da administração da unidade. Extinguiram-se verbas e dotações orçamentárias para subsistência e desenvolvimento das universidades. Criaram-se editais nas entidades de fomento para direcionar alguns capitais das empresas privadas, estatais e mistas interessadas em determinadas pesquisas.

Surgiu o espírito de “vale–tudo” que ignora qualquer plano diretor para ocupar espaços físicos. Quem consegue verbas segue “a lei do mais forte”, atua como um “novo catedrático”, prioriza sua condição de cientista, e gera uma nova hierarquia de recursos humanos sustentada por bolsistas de iniciação científica, mestrado, doutorado, pós-doutorado, etc. Além dos novos condomínios de serviços privativos, deparamo-nos diariamente com os estacionamentos pagos do CT, CCMN, CCS e Letras, e é inevitável constatar que nossa universidade pública se tornou semi-privatizada.

Em meio a tantas e seguidas propostas de reformulação, invariavelmente inócuas do ponto de vista acadêmico, mas não exatamente gratuitas, reproduz-se no âmbito de nossa UFRJ, aquilo que o sociólogo Zygmunt Bauman tão bem diagnosticou como entre os principais efeitos da modernidade “líquida” que acomete principalmente o Ocidente. Essa circunstância, por sua vez configura o ambiente propício para a potencialização do turbocapitalismo, tal como definido por Edward Luttwak: a perda do sentido de comunidade.

Com efeito, Bauman, conhecido como o pensador da globalização individualizada, assevera que a constante atualização e o acúmulo do conhecimento, são produzidos cada vez mais às expensas do sentido de pertencimento comunitário. No contexto do ambiente acadêmico esse fenômeno tem ensejado a formação de condomínios fechados, que em sintonia com a governança neoliberal pretendem a desregulamentação de suas atribuições públicas, tendo em vista a priorização das oportunidades de mercado.

Desse modo, a fragmentação da comunidade acadêmica atende à finalidade de desconstruir a universidade pública de qualidade e socialmente referenciada, em favor da promoção do turbocapitalismo; Ora, esse é o sistema que Luttwak aponta como acelerador da eficiência e da globalização da economia, mas também dinamizador da exclusão e do agravamento das desigualdades sociais. Em outras palavras: um sistema auto-centrado na reprodução incessante, irrestrita e inconteste do capital, que posiciona a universidade pública na rota de colisão com os objetivos que visam a solidariedade e a justiça social.

Sem um planejamento estratégico e rigorosamente acadêmico para a sua perspectiva mais elevada do ponto de vista institucional, leia-se no pleno exercício de sua autonomia, a UFRJ ameaça soçobrar em razão da menoridade acadêmica dos gestores que olvidam a sua missão de Estado e o seu compromisso maior com a educação pública brasileira, sendo paulatinamente tragada por um processo entrópico que poderá reconfigurá-la como o maior escolão federal e privatizado do terceiro grau no Brasil.





terça-feira, junho 10 2008 - 08:17

Publicar mais, ou melhor? O tamanduá olímpico.

Publicado originalmente na:

Revista Brasileira de Ciências do Esporte 29 (1): 35-48, 2007.

ISSN 0101-3289

Luiz Oswaldo Carneiro Rodrigues

Professor Titular de Fisiologia do Exercício da Universidade Federal de Minas Gerais

Coordenador do Programa de Pós Graduação em Educação Física

Pesquisador (Nível II) do CNPq e médico.

Currículo completo: http://lattes.cnpq.br/6211659251836942

Endereço para correspondência:

R. Roberto L Aroeira 40 - Bairro Itapoã

31710-570 - Belo Horizonte MG

Tel 31 3491 9460 e 9971 0622

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Resumo

O presente texto discute alguns dos critérios que os órgãos financiadores da pesquisa utilizam para escolher os projetos contemplados nas Ciências do Esporte, embora esta questão possa ser importante também para os cientistas brasileiros de outros campos do conhecimento. Observa-se que as transformações realizadas nos últimos anos nos sistemas de fomento e classificação dos programas de pós-graduação resultaram no aumento da produtividade científica brasileira medida pelas publicações indexadas no contexto internacional. No entanto, a pressão institucional quantitativa pela publicação pode estar induzindo a distorções de comportamento entre os cientistas, o que compromete o próprio sentido do fazer científico e o futuro da ciência no Brasil. Uma comparação entre o tamanduá e a ciência produzida pelos brasileiros pode ser útil no entendimento de algumas propostas de ação para a comunidade científica ligada às Ciências do Esporte.

Palavras-chave: produção científica, hegemonia cultural, ciências do esporte.

Abstract

Publishing more, or better? The Olympic tamandua.

The present text issues some of the research funding institutions criteria used to approve Sports Science projects, but it seems to be an interesting and common problem to Brazilian scientists of another scientific areas. It has been observed that the performed changes in the postgraduate supporting and qualifying system have resulted in greater Brazilian scientific productivity, as shown by its indexed international papers. Nevertheless, the institutional pressure for quantitative publishing could be resulting in researchers behavioral distortions, which could be harmful to the scientific practice and the science future in Brazil. A comparison is made between the tamandua and the produced science from Brazilians and it seems to be useful to clarify some possible political actions to the Sports Science scientific community.

Key words: scientific production, cultural hegemony, sports science.

Resumen

¿Publicar más, o mejor? El tamandua olímpico.

El texto aquí elaborado discute algunos de los criterios que las instituciones de investigación científica utilizan para seleccionar los proyectos a ser favorecidos en las ciencias del deporte, no obstante que esta situación sea importante también para los cientistas brasileños de otros campos del conocimiento. Se observa que las transformaciones realizadas en los últimos años en los sistemas de fomento y clasificación de los programas de pos-grado resultaron en un aumento de la productividad científica brasileña conforme medido por las publicaciones indexadas en el contexto internacional. Sin embargo, la presión institucional cuantitativa para publicación puede estar induciendo a graves distorsiones de comportamiento entre los cientistas, lo que compromete el propio sentido de la actividad científica y el futuro de la ciencia en Brasil. Una comparación entre el oso hormiguero (tamanduá) y la ciencia que se produce por los brasileños puede ser útil en el entendimiento de algunas proposiciones de acción para la comunidad científica relacionada con las ciencias del deporte.

Palabras-clave: producción científica, hegemonía cultural, ciencias del esporte

Introdução ao tamanduá

Fosse a ciência produzida no Brasil um tamanduá-bandeira, sabemos que o nosso curioso e típico mamífero quadrúpede não sobreviveria se o repartíssemos em segmentos alguns mais, outros menos importantes: os primeiros recebendo mais recursos, sangue, açúcar, oxigênio, sais minerais e vitaminas, enquanto os demais seriam tratados à míngua, abaixo do conhecido limiar de sobrevivência de São Mateus: “àqueles que tudo têm, mais lhes será dado; aqueles que nada têm, o pouco que lhes resta lhes será tomado”. Apesar de absurda na metáfora, esta parece ser a realidade da distribuição dos recursos vitais para a produção de conhecimento no Brasil e o campo das Ciências do Esporte talvez possa ser localizado num daqueles pêlos da enorme cauda do tamanduá, oscilando de um lado para outro ao sabor do seu desajeitado caminhar em busca de cupins e formigas orçamentárias, ainda e sempre ameaçado de extinção. Portanto, é deste ponto de vista que vamos emitir alguns grunhidos descontentes que, seguramente, devem ser diferentes das reflexões epistemológicas dos cientistas localizados na ponta da língua do nosso querido mamífero, quando ele a expõe diante do fotógrafo internacional que vem documentar a nossa biodiversidade.

Publish or perish… or Push the parish?[1]

Como se sabe, o elemento fundamental para a produção de conhecimento é o financiamento dos seus custos e para obter recursos para sua pesquisa, como bolsas e auxílios financeiros, qualquer cientista brasileiro deve apresentar um projeto, o qual deve ser aprovado quanto ao mérito, e seu currículo deve alcançar uma determinada pontuação no sistema de classificação dos órgãos de fomento, como, por exemplo, o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). Uma vez que a necessidade de financiamento se torna progressivamente maior à medida que mais tecnologia é incorporada às técnicas científicas, obter verbas nos órgãos de fomento tornou-se a expressão máxima da competição entre os pesquisadores.

Balizados formalmente pelo discurso da ética, os candidatos enviam seus projetos de pesquisa detalhados e seu currículo, que são analisados por comitês pertinentes a cada uma das subdivisões das três grandes áreas em que foi dividida a ciência. Ainda que nas subdivisões das áreas os projetos sejam agrupados de acordo com alguma afinidade entre si, na verdade cada pesquisador traz para a avaliação um tema que, em princípio, deve ser original e que, portanto, encontra poucas pessoas capazes de julgar a sua relevância com precisão. Assim, são convidados outros pesquisadores para darem pareceres técnicos sobre os projetos dos colegas, o que se tornou uma atividade obrigatória para aqueles já contemplados com recursos (bolsas e auxílios) e que resulta em geral numa verificação se o método científico proposto está correto e se as técnicas e orçamentos são adequados, dada a progressiva especificidade temática de cada projeto. Neste ponto do processo já encontramos problemas: o bioquímico Franklin Rumjanek, por exemplo, critica o critério de seleção para financiamento de projetos das agências de fomento à pesquisa do país porque o perfil do solicitante é levado mais em conta do que a pesquisa em si, o que gera distorções na hora da escolha, pois a decisão se baseia no número de trabalhos publicados e na qualidade dos periódicos científicos que os aceitaram, mas não garante que seja selecionada a parcela mais produtiva de pesquisadores[i]. Assim, caso seja aprovado o mérito do projeto, a distribuição das verbas entre os pedintes será realizada de acordo com a classificação do currículo do pesquisador a partir de uma pontuação detalhada de cada atividade considerada relevante segundo os critérios do órgão de fomento.

Apesar de o currículo ser preenchido num formulário eletrônico padronizado, cada pesquisador é livre para incluir toda e qualquer atividade que ele achar relevante, ou seja, apesar do pesquisador estar sujeito a sanções no caso de cometer fraude comprovada, tornou-se necessário definir critérios cada vez mais detalhados e quantificá-los para comparar currículos diferentes. Desta forma, o sistema de classificação atribui pontuação para determinadas atividades, entre as quais, especialmente valorizada como “objetiva”, está a publicação de artigos científicos nos últimos anos. Os artigos publicados podem variar numa escala de pontuação que vai do máximo, que são os artigos completos em periódicos indexados internacionais e de grande impacto na comunidade científica (em função do número de consultas e citações) até o mínimo, que são aqueles artigos resumidos em periódicos regionais de baixo impacto. Por exemplo, a subcomissão do CNPq, que julga os pedidos da sub-área onde se encontram as ciências do esporte, atribui oito pontos para o primeiro tipo de artigo e apenas um ponto para o de menor impacto.

Aqui é que o tamanduá torce o rabo: para vencer a corrida ele deve falar inglês, ou seja, no sistema de classificação utilizado, a principal qualidade de um pesquisador brasileiro é sua capacidade de publicar artigos em... inglês. O sistema de pontuação está de acordo com a concepção de que um artigo publicado em inglês é melhor do que qualquer outro publicado em português ou em qualquer outra língua[ii]. É esperado que este sistema de pontuação geralmente seja capaz de comparar adequadamente os currículos de pesquisadores que se ajustam a este modelo de produção do conhecimento, ou seja, o nosso tamanduá deve entrar na corrida, vestido de terno e gravata, num esforço para se adaptar às normas de comportamento impostas a partir do estrangeiro, como alguns dos nossos cientistas que têm procurado se ajustarem aos temas e problemas propostos pela comunidade científica internacional.

Mas há quem não concorde que publicar em inglês deva ser a prioridade e aqui se encontra o grande divisor de águas entre os pesquisadores: de um lado, aqueles que acreditam, e têm fortes argumentos para sustentar sua crença, que a ciência é “universal”, ou seja, os temas mais avançados do conhecimento internacional são aqueles que de fato interessam e não existiria ciência “regional”. Portanto, seria natural que os cientistas mantenham os olhos voltados para as questões mais recentes e profundas que estão sendo discutidas no mundo desenvolvido, decorrendo daí a necessidade de publicar predominantemente em inglês e dialogar com a comunidade internacional. Além disso, deveríamos estimular a publicação em inglês porque mesmo revistas respeitadas em países desenvolvidos como Alemanha, Japão, Espanha e França já estão capitulando na sua histórica resistência lingüística e passando a publicar em inglês2. Outro argumento contundente nesta lógica é que o processo de divulgação do conhecimento não termina na publicação inicial, mas tem continuidade e se torna relevante de acordo com o número de vezes em que o trabalho é citado por outros cientistas, ou seja, o seu impacto. Alguns argumentam, inclusive, que mesmo aqueles que publicam em português[2] em 86% das vezes utilizam como fonte de consulta a literatura internacional em inglês nas revistas da área médica[iii]. Assim, este diálogo entre cientistas somente seria possível, no momento, em inglês. Finalmente, os defensores da publicação em inglês acreditam que a feroz competição pelo espaço seria um mecanismo saudável de seleção e a sobrevivência neste processo seria indispensável para caracterizar a “boa” ciência.

Mas há também quem duvide que esta competição seja saudável, uma vez que a enorme pressão por resultados “positivos”, aqueles que agradam aos financiadores, pode gerar desde conclusões intencionalmente falsas a interpretações estatísticas distorcidas em função das pressões de mercado[iv]. Somem-se a isto as posturas ingenuamente úteis de uma parte dos cientistas em sua incompreensão dos fundamentos matemáticos do pensamento científico[v], teremos um quadro onde a “verdade” representada pelos periódicos internacionais pode ser gravemente questionada na razão direta da competição envolvida.

Outra restrição à excessiva valorização das publicações em inglês é o fato de que os avanços internacionais em qualquer área científica somente acontecem atualmente à custa de enormes investimentos financeiros em formação pessoal, infraestrutura, tecnologia científica e reconhecimento social para a produção de conhecimento. Assim, o nosso tamanduá metafórico participa desta corrida maluca competindo contra robôs e máquinas maravilhosas, disputando espaço nas revistas internacionais, mas dispondo de centenas de vezes menos recursos do que seus concorrentes, alimentando-se basicamente de migalhas orçamentárias, e, incrivelmente, permanece famigerado, vivo e crescendo nos últimos 26 anos de 0,44 para 1,7% na sua participação nos artigos indexados mundialmente[vi].

Apesar destes sinais detectados no crescimento[3], pode ser que em longo prazo esta corrida esteja fadada ao fracasso ou à maldição da Rainha Vermelha no Alice no País das Maravilhas, que precisa correr cada vez mais rápido para se manter no mesmo lugar, por causa do aumento exponencial dos custos tecnológicos para a realização de pesquisas, uma vez que na divisão internacional estaríamos abaixo do já referido limiar de São Mateus. Além disso, é preciso verificar se este crescimento estaria localizado em áreas subsidiárias da produção científica internacional, denominados de focos de “excelência”, que talvez não sejam mais do que meras extensões da divisão internacional de trabalho, uma forma de investimentos estrangeiros atraídos pela mão de obra científica mais barata.

Diante disso, é preciso compreender melhor a nossa inserção na história da ciência, que demonstra que mesmo que sejamos pertencentes a comunidades científicas internacionais não podemos nos desvincular da sociedade que nos dá origem e nos sustenta, porque inseridos nela participamos das contradições e interesses sociais, econômicos e políticos que a constituem, podendo contribuir para aumentar, manter ou diminuir as desigualdades que sabemos existir. Neste sentido, talvez o nosso tamanduá devesse deixar um pouco de lado a corrida internacional e se debruçar sobre os problemas regionais, os cupins e formigas do nosso subdesenvolvimento, e encarar sua missão histórica de povoar o cerrado e manter viva a diversidade de olhar que permeia os sertões brasileiros. Para isso, deveria dialogar em português com a comunidade a que pertence pelo menos com a mesma freqüência com que o faz em inglês. Na matriz desta concepção, está o reconhecimento de que o processo histórico de colonização não está extinto, que continuam os ciclos internacionais de exploração e que, à semelhança da dívida do período da escravidão para com os negros, não há igualdade de oportunidades no mundo em que vivemos. Como conseqüência, não haveria ciência “universal”, mas sim distribuição desigual do conhecimento em função das disparidades históricas e sociais entre as diferentes comunidades científicas em suas origens. É fácil verificar que as denominadas publicações “internacionais” raramente são de fato internacionais no seu conteúdo, nos seus leitores e no corpo editorial[vii], mas sim expressões evidentes dos interesses próprios da comunidade de língua inglesa.

Há pesquisadores contrários a esta forma desigual de capitalização do saber humano que querem produzir conhecimento para aqueles que financiam o nosso fazer científico: a população a que pertencemos historicamente, que nos sustenta com seu trabalho na forma de impostos diretos e de geração de riqueza. Assim, devemos dar prioridade às publicações em português, ainda que, no melhor dos mundos, também possamos dispor de energia para, simultaneamente, publicar nossa produção de conhecimento em revistas internacionais. Além disso, já foi mostrado que a competição internacional não é sinônimo de alta qualidade científica e, menos do que “boa” ciência, o conteúdo das publicações pode estar sendo determinado pelos temas de interesse daqueles que controlam financeiramente a pesquisa no mundo desenvolvido, particularmente os Estados Unidos[viii].

Para tornar ainda mais complexa e polêmica a definição sobre o tipo de ciência que seria do interesse da população brasileira ou não, a internacionalização crescente na vida moderna dificulta cada vez mais a possibilidade de se controlar qualquer tipo de fronteira física ou ideológica. Não se pode negar a fragilidade das tradicionais barreiras geopolíticas nacionais simultaneamente à ampliação das fronteiras abismais entre ricos e pobres e é claro que à divisão entre os países existe uma correspondente separação entre os cientistas dos dois lados da balança econômica. Embora não estejamos atolados na miséria escandalosa da África subsaariana, o Brasil desponta nas estatísticas internacionais como local de contrastes sociais[ix], os quais permeiam inevitavelmente o cotidiano dos cientistas.

Portanto, é possível que ocorra internamente uma reprodução da divisão internacional de produção científica na realidade brasileira, com alguns poucos núcleos privilegiados capazes de se inserirem na competição internacional, enquanto outras grandes regiões permanecem em completo abandono institucional, nas quais os pesquisadores mal conseguem se manter atualizados sobre o que é produzido no seu próprio país. Na verdade, apesar de todo o organismo do tamanduá sofrer intensamente para se manter na corrida olímpica internacional em busca de uma medalha de ouro, algumas partes do seu corpo já se deterioram. O aumento da competição e a diminuição de recursos têm resultado em grave distorção cultural onde o número de publicações prevalece sobre o conhecimento, com grande sofrimento mental, menor criatividade científica, abandono da carreira e, num futuro próximo, diminuição de jovens interessados na ciência: uma combinação de fatores que pode levar ao declínio da ciência produzida no Brasil[x].

Finalmente, a progressiva internacionalização da publicação em inglês pode liquidar de vez com as publicações regionais, cujo desaparecimento dificultaria ainda mais o acesso da maioria dos profissionais da área de saúde à produção de conhecimento contemporâneo, mesmo nos países mais desenvolvidos, aqueles que não adotam o inglês como língua oficial3. Neste sentido, o artigo recente na Nature aponta os custos adicionais para o domínio do inglês, a redução da capacidade de competição dos cientistas de fora da comunidade de língua inglesa e a lentidão dos processos locais comparados ao desenvolvimento internacional2. Este fenômeno entra em ressonância com o sistema de pontuação pelos órgãos de fomento gerando uma equação perniciosa:

Revistas internacionais + pontuação maior = artigos piores para as revistas locais = decadência das revistas em português + pontuação menor

Ao contrário, se os artigos em português fossem valorizados haveria artigos de mais qualidade nas revistas nacionais e o acesso à informação científica seria muito mais abrangente nos sistemas de procura eletrônicos, especialmente no Portal CAPES, mantido com recursos públicos. É importante salientar que não se trata apenas de existir a informação em inglês ou em português, mas sim na postura que assumimos e na quantidade de energia investida para podermos dialogar com as revistas internacionais (acatar seus temas e prioridades) ou para nos dedicarmos às publicações nacionais (voltarmos o olhar para o “nosso” público). O ponto de vista defendido por alguns cientistas é que as publicações devem atingir públicos diferentes, todos muito importantes: os acadêmicos (em inglês, que permita o acesso mundial) e os técnicos e a população em geral (esses dois últimos em português). É claro que neste melhor dos mundos teríamos que possuir energia suficiente para atender as duas pontas do processo, mas o sistema de pontuação nos currículos não ajuda na construção de um sistema bem valorizado das revistas em português.

Há qualidade na quantidade?

Independentemente da língua utilizada na publicação, no sistema de pontuação e classificação dos órgãos de fomento podem ocorrer distorções que causam injustiças e resultam em desânimo quando um cientista desconfia que foi desmerecido no processo. Para exemplificar, vamos observar dois casos reais.

O primeiro, vamos denominá-lo de Doutor A, recentemente classificado como pesquisador do CNPq no primeiro nível (I), com direito à bolsa e também ao chamado auxílio de bancada, ou seja, um recurso mensal para gastar em pesquisas, durante três anos. Observando-se sua produção científica extraída do banco de currículos da Plataforma Lattes[xi] no dia 22 de Dezembro de 2006, verifica-se que o Doutor A publicou 54 artigos de 2004 até aquela data, ou seja, um artigo e meio por mês, o que significa que ele deve ter concluído uma pesquisa e meia por mês para dispor de dados originais e resultados suficientemente relevantes para merecerem a atenção da comunidade, ou seja, serem publicados. Ou então, teria concebido uma nova teoria a partir de dados antigos, o que o tornaria um caso raro de cientista que cria novos conceitos importantes quase duas vezes por mês ao longo de três anos. Desta produção, no entanto, 31 artigos foram publicados numa revista na qual o Doutor A é o próprio editor! Entre os demais artigos de sua exuberante lista, aqueles melhores qualificados para disputar um lugar ao Sol na comunidade internacional foram apenas dois os publicados numa revista espanhola: no entanto, mesmo este periódico possui tão pouco impacto (não é em inglês...) que nem mesmo é considerado relevante pela coordenação dos programas de pós-graduação brasileiros[xii]. Não é preciso mais comentários para se perceber que o Doutor A optou por publicar cada vez mais ao invés de cada vez melhor. No atual sistema de pontuação, apenas com os artigos publicados na sua própria revista ele conseguiu 31 pontos, desbancando qualquer outro pesquisador que tivesse, digamos, no mesmo período publicado um artigo por ano na melhor revista internacional, que faria 3 x 8 = 24 pontos apenas, o que poderia significar para este último ficar de fora da lista dos contemplados com os recursos para sua pesquisa.

No segundo exemplo, também real e emblemático, o excepcional número de publicações desta vez acontece em inglês. O Doutor B, também da área da saúde, apenas dois anos após a conclusão do seu doutorado obteve sua classificação como pesquisador nível I no CNPq com um currículo impressionante (também obtido na Plataforma Lattes em 22/12/2006), no qual constam 57 artigos publicados em variadas revistas em apenas três anos, o que significa 1,58 artigos por mês, algo parecido com o que observamos na produção do Doutor A, mais uma vez sugerindo uma fantástica obtenção de resultados ou criação de novas idéias científicas mensalmente. No entanto, enquanto o Doutor A obteve seu doutorado há vários anos e já orienta muitos alunos em várias universidades, o que permitiria teoricamente a sua co-participação na autoria de diversos trabalhos realizados pelas várias pirâmides de produção científica (orientador – alunos de doutorado – de mestrado – de iniciação científica) nos diferentes locais, o Doutor B começou sua atividade de orientação muito recentemente. O mais incrível é que apesar de sua juventude científica os artigos do Doutor B tratam de uma impressionante quantidade de assuntos variados: 29 doenças diferentes, com algumas ligações entre si se as considerarmos englobadas numa especialidade médica suficientemente abrangente. Não citaremos as doenças ou a especialidade para impedir a identificação do Doutor B, uma vez que nossa intenção é demonstrar a distorção do sistema e não personalizar o problema. Como esperado, a sua participação como co-autor intermediário (nem o primeiro, - geralmente o mais envolvido com o trabalho, nem o último – geralmente o orientador) foi de 37% nos seus artigos indexados no sistema de procura científica PubMed[xiii], o que pode explicar em parte a profusão de artigos e temas, sem que saibamos o seu verdadeiro grau de envolvimento com o conhecimento produzido, o que se constitui numa deficiência do nosso sistema de citação de autores[xiv].

Para saber se talvez estejamos diante de um futuro ganhador do Prêmio Nobel, resolvemos comparar a produção dos Doutores A e B com, por exemplo, dois dos últimos agraciados em Medicina: Craig C. Mello (2006) e J. Robin Warren (2005). Se considerarmos a produção científica destes dois cientistas premiados, também a partir das publicações citadas no PubMed, observa-se que Mello apresenta 45 artigos em revistas indexadas no período de 16 anos, ou seja 2,8 por ano. Warren, por sua vez, nos últimos 56 anos aparece com 94 artigos, ou seja, uma taxa de 1,6 artigos por ano. Enquanto isso, o nosso Doutor B exibe no mesmo sistema de procura a impressionante cifra de 29 artigos em três anos, ou seja, mais de 9,6 publicações anuais, batendo de longe os dois ganhadores do Nobel. O Doutor A, como já vimos, não foi encontrado naquele sistema de procura.

Estes dois exemplos, que foram encontrados sem muita dificuldade entre os atuais contemplados com a Bolsa de Produtividade do CNPq, não devem representar a maioria dos pesquisadores, é claro, mas a sua simples existência provoca algumas reflexões. Primeiro, não se pode condenar os doutores A e B por se mostrarem mais adaptados aos desafios do ambiente, numa perspectiva evolucionista, onde as condições a serem enfrentadas são as regras criadas pelo sistema de avaliação dos currículos: eles são aqueles que devem sobreviver melhor e nesta lógica eles poderão se multiplicar muito mais, tornando-se uma espécie hegemônica num determinado futuro. Segundo, não se pode dizer que a distorção do sistema de avaliação da produção científica seja um problema exclusivo do Brasil, uma vez que a insatisfação com os critérios de aprovação de verbas para a pesquisa o com o sistema competitivo por recursos é internacional, tornando-se, inclusive, o tema humorístico do personagem interpretado pelo comediante inglês John Cleese: um cientista que não consegue completar duas frases sem deixar extravasar seu rancor para com os seus colegas, que, segundo ele são sempre os beneficiados por critérios suspeitos nos financiamentos[xv].

Parece claro que o sistema de pontuação atual pode ser indutor de um ciclo nada virtuoso, no qual são estimulados aqueles que publicam muito e não aqueles que produzem conhecimento com qualidade, se admitirmos que mais não seja sinônimo de melhor. Infelizmente, a própria direção dos órgãos financiadores é parte da mesma lógica: só podem ser indicados para os postos de dirigentes do sistema de avaliação aqueles cientistas mais classificados pelo próprio sistema de avaliação, ou seja, aqueles que publicam muito, afastando-se a possibilidade de injunções políticas, é claro. É possível, então, que o nosso tamanduá continue seu processo de seleção natural: quanto maior o comprimento da língua, mais térmitas serão capturados pela sua viscosidade ao penetrar nos labirintos burocráticos do cupinzeiro, garantindo a nutrição do tamanduá, o que aumenta a sua chance de reprodução. Talvez, depois de uns tantos anos deste processo, encontremos uma nova espécie - uma língua enorme arrastando atrás de si os vestígios das demais partes do tamanduá pelo cerrado brasileiro, ou um fóssil curioso preservado num museu de História da Ciência num país qualquer.

A medalha de ouro

No final das contas, depois de disputar a corrida em desvantagem com seus concorrentes, é possível que o tamanduá conquiste o sonho olímpico, um eventual reconhecimento da comunidade científica internacional: a medalha da publicação numa revista de alto impacto. No entanto, todo este esforço pode ser decepcionante: a desonestidade científica nas publicações cresceu tanto nos últimos anos que a credibilidade das revistas e do sistema de revisão por pares foi posta em quarentena. Há suspeita de que a maioria dos resultados publicados é falsa2 e que os periódicos biomédicos são uma extensão da divisão de marketing das companhias farmacêuticas[xvi] e Antony Barnett, redator do The Observer (Inglaterra), afirma que as gigantes farmacêuticas contratam autores fantasmas para produzir artigos e colocam o nome de médicos neles[xvii]. A credibilidade do sistema de publicações científicas tem sido tão questionada diante das pressões da competição e do mercado que foi criado um site exclusivamente para detectar pesquisadores que estão relacionados à indústria ou a interesses econômicos e políticos[xviii].

Para finalizar, segundo Richard Smith, ex-editor da British Medical Journal, o sistema de revisão por pares seria “lento, caro, pródigo para com o tempo acadêmico, altamente subjetivo, propenso a vieses, deficiente para detectar defeitos grosseiros e quase inútil para detectar fraudes”d. Diante destas suspeitas, o próprio Richard Smith ajudou a fundar a Public Library of Science (PloS), uma coleção de periódicos abertos pela internet, que defende o direito à informação pois não é preciso o leitor pagar para ter acesso às publicações: são os autores é que pagam, quando podem (cerca de 70%). Ainda recente este sistema de publicação precisa ser mais bem discutido e, para os motivos do presente artigo, não resolvem o nosso problema: os artigos são em inglês.

Assim, exausto, estressado pela competição, desnutrido pelo longo esforço, discriminado pela sua aparência exótica, no alto do pódio o tamanduá pode descobrir que a ambicionada medalha de ouro não passa de um pedaço de latão pintado: não se trata de mérito científico.

Preservando o tamanduá: bandeiras

Se verdadeiras estas distorções, haveria alternativas? Se for possível construirmos um novo modelo a partir de algumas modificações no sistema de avaliação dos órgãos de fomento, temos que mudar nossa cultura do muito para o melhor, com ênfase nos critérios de relevância do conhecimento produzido e não apenas no prestígio internacional do meio de publicação. Deveríamos também modificar nossas prioridades na publicação, valorizando a publicação dos artigos em português e a divulgação científica para crianças, jovens e profissionais brasileiros. Para começar, o CNPq poderia desvincular a avaliação da produção internacional da nacional, pontuando de forma independente as duas atividades, reconhecendo o valor específico de cada uma delas para a atividade acadêmica. Além disso, precisamos promover a descentralização da distribuição dos recursos de fomento de acordo com uma política de combate às desigualdades regionais e, é claro, ampliar os mecanismos de participação da sociedade que sustenta os cientistas na definição dos projetos de pesquisa que devem ser financiados.

Sabemos todos que colocar estes temas na agenda dos cientistas, das instituições de pesquisa e dos órgãos de fomento significa enfrentar os controladores dos cofres nos subsolos dos bancos centrais, onde estão concentrados os recursos amealhados do trabalho de todos os brasileiros e sua descentralização é uma questão de poder político e econômico. Por outro lado, esta agenda requer a mobilização ideológica da própria comunidade científica para transformar nossa competição atávica em altruísmo social, através do reconhecimento da produção em português como recompensa efetiva. Teremos que compreender que desenvolver as regiões mais pobres significa fortalecer o tamanduá como um todo e, principalmente, teremos que perder o medo de sermos avaliados externamente pelos leigos, pois é nossa a responsabilidade de apresentar à sociedade aquilo que fazemos com clareza suficiente para que a sociedade compreenda a importância da ciência para a humanidade.

Não será fácil sustentar tais idéias, especialmente num período de desalento em que a nossa sociedade civil mal organizada se desorienta pela falta de alternativas políticas no quadro nacional. Além disso, o problema não parece ser exclusivamente brasileiro porque, ideologicamente, a concentração de recursos e a competição generalizada devem fazer parte daqueles containeres importados que trazem a maquinaria complexa do colonialismo contemporâneo. No entanto, ainda é possível defendermos que o lugar do tamanduá não é o zoológico e nem o museu: mas sim o cerrado brasileiro, genuinamente brasileiro.

Agradecimentos: Ao meu irmão jornalista e escritor Ernesto Carneiro Rodrigues, pelo estímulo, aos cientistas exemplares Nilo Resende Viana Lima e Nilton Alves de Rezende, à doutoranda em História da Ciência Ana Carolina Vimieiro Gomes, à mestranda em Educação Física Luciana Gonçalves Madeira pela leitura, aos colegas da UFMG Verônica Franco Parreira, Herbert Ugrinowitsch, Paulo Sérgio Lacerda Beirão, Mônica Bucciarelli Rodriguez e Pablo Juan Greco pelas críticas e sugestões.



[1] Perdoem-me a aliteração em inglês: Publicar ou perecer… ou impulsionar a paróquia?

[2] Inclusive o presente artigo, para indicar que não se trata de um problema regional ou do autor.

[3] Talvez um ajuste decorrente da redemocratização do país, uma vez que democracia, tolerância religiosa e livre comércio são necessários para o desenvolvimento científico. Ver Matt Ridley, “O que nos faz humanos: genes, natureza e experiência”. Editora Record, Rio de Janeiro, 2004.



[i] RUMJANEK, F. Ciência burocrática. Revista Ciência Hoje 233:32, 2006.

[ii] Special report. Lost in translation. Nature 445, 25 Janeiro de 2007.

[iii] Cunha-Melo, J.R.; Santos, G.C.; Andrade, M.V. Brazilian medical publications: citation patterns for Brazilian-edited and non-Brazilian literature. Brazilian Journal of Medical and Biological Research 39:997-1002, 2006.

[iv] Ioannidis, J.P.A Why most published research findings are false. PloS Méd 2(8): e124, 2005.

[v] Pena, S.D. Thomas Bayes: o “cara”! Ciência Hoje 38(228):22-29, 2006.

[vi] Zorzetto, R. et alli. The scientific production in health and biological sciences of the top 20 Brazilian universities. Brazilian Journal of Medical and Biological Research 39:1513-1520, 2006.

[vii] Ofori-Adjei, D. et alli. Have online international medical journals made local journals obsolete? PloS Med 3(8): e359, 2006.

[viii] Moyniham, R.; Henry, D. The fight against disease mongering: generating knowledge for action. PloS Med 3(4): e191, 2006.

[x] de Meis, L. et alli. The growing competition in Brazilian science: rites of passage, stress and burnout. Brazilian Journal of Medical and Biological Research 36:1135-1141, 2003.

[xiv] Tscharntke, T. et alli. Author sequence and credit for contributions in multiauthored publications. PloS Biol 5(1): e18, 2007.

[xv] ARCH, J. Complete guide to guys. Filme, 2006.

[xvi] Leite, M. Editores debatem sobrevida de periódicos. Folha de São Paulo - Ciência, 8 de Outubro de 2005.

[xvii] Folha de São Paulo, 7 de Dezembro de 2003

[xviii] www.integrityinscience.or


Setembro

terça-feira, setembro 30 2008 - 06:16

O BLOG recebeu um comentário da Profa. Cristina Ayoub Riche sobre seu trabalho na Ouvidoria, devido à sua relevância e extensão estamos publicando-o como texto para facilitar a sua leitura. Normalmente o espaço reservado para comentários é para textos curtos.

Ouvidoria Geral da UFRJ

Prezados: Quero, primeiramente, parabenizar o grupo que idealizou o Blog Observatório da Universidade, espaço democrático e participativo, em prol da Universidade e da sociedade brasileira. Relativamente à matéria publicada "Ouvidoria ainda que tardia", peço a publicação dos seguintes esclarecimentos: A proposta de nova resolução e de regimento da Ouvidoria Geral já foi encaminhada ao CONSUNI. Encontra-se pautada para apreciação, tendo sido analisada pela Procuradoria Geral da UFRJ e pela Comissão de Legislação e Normas daquele Conselho. Os nossos esforços têm sido árduos, mas, acredite, produzem efeito.O comentário da Profa Luciana Boiteux, da FND, que no dia 29/09/2008, tive a oportunidade de ler, no referido Blog, confirma a minha assertiva. Acreditamos que a criação e o pleno funcionamento da Ouvidoria, esteja sendo fundamental para a consolidação da nossa Universidade do futuro, da UFRJ dos cidadãos e das cidadãs, da UFRJ que constrói e viabiliza o espaço para o diálogo. Com muito orgulho, quero registrar que uma equipe mínima, de duas pessoas, tem sido capaz de demonstrar que é possível realizar, quando se acredita naquilo que faz. Por exemplo, não dispomos, ainda, de qualquer aparato tecnológico para gerenciamento das demandas que recebemos eletronicamente, tudo é feito manualmente. Somente, de janeiro a junho de 2008, recebemos mais de 400 demandas e as nossas estatísticas têm rosto, têm anseios e direitos, inquietações, insatisfações, querem falar, querem ter voz, um espaço para serem ouvidas, e a certeza de que serão, devidamente, ouvidas! Às vezes basta uma orientação, um acolhimento seguro, uma informação certeira para que tudo volte à normalidade, outras vezes, é preciso muito mais, um trabalho constante e pedagógico para a mudança de cultura, mudança de valores e paradigmas. Isso é bem mais difícil! Somos procuradas, cotidianamente, entre outros, por docentes, discentes, servidores, terceirizados, prestadores de serviços da UFRJ, pacientes de unidades hospitalares da UFRJ, discentes e docentes de outras instituições, para esclarecimentos de dúvidas, para encaminhamento e tratamento de suas reclamações, de suas solicitações, de seus elogios. Nosso trabalho é multidisciplinar, é dinâmico, envolve a insatisfação humana, vai do direito individual ao difuso, reforça o compromisso com o social, com o interesse público, tem uma função pública, reafirmando, na prática, o papel do servidor público e o controle social, já que viabiliza a participação do cidadão na avaliação da prestação do serviço. A Ouvidoria não substitui as associações, as representações, os sindicatos. Ela é mais um canal de interlocução que visa garantir os direitos do cidadão. Não há sociedade sem direito e, numa concepção moderna, o direito é um fenômeno simbiótico, dialético de todos os conhecimentos humanos, é o resultado de toda e qualquer atividade cultural humana, seu critério teleológico é a composição justa da paz social. Por isso se considerarmos a dimensão dos direitos, a Ouvidoria, em razão da sua natureza jurídica, pode ser tratada como um direito de terceira geração, já que é um instrumento de fato a serviço do bem-estar social do homem, e tem a preocupação em amparar interesses e direitos metaindividuais. Esses direitos metaindividuais se dividem em direitos difusos e coletivos, nascem da valorização da pessoa humana, por meio da evolução dos direitos diante da ampliação da proteção de âmbitos de sua vivência, anteriormente, não protegidos ou não privilegiados pelo direito. Além disso, a Ouvidoria pode ser considerada como um direito de quarta geração, em virtude dos direitos humanos, em que se exige do homem contemporâneo maior consciência da justiça no exercício de sua cidadania. É nesse contexto que a Ouvidoria se insere, não somente sob a ótica política, representando, nas sociedades abertas, um instrumento democrático que consagra os princípios da autonomia da vontade, da boa-fé e da eqüidade, mas também, sob a ótica jurídica, como meio alternativo e capaz de atender às necessidades urgentes vividas pelo homem em sociedade, que espera uma resposta célere e eficaz para a solução de seus conflitos. Costumo dizer que a Ouvidoria é um remédio constitucional para mitigar o déficit de cidadania e combater as patologias sociais, como a apatia política. Atuamos na prevenção e na mediação dos conflitos, com base na economicidade e celeridade, na confidencialidade, buscando sempre o equilíbrio, a harmonização e a pacificação das partes. Para nós, que atuamos em Ouvidoria, não há vencedores ou vencidos. Quem vence é a UFRJ, ao aperfeiçoar os seus serviços, é a comunidade, é a sociedade, é a nação brasileira. Hoje, sem qualquer dúvida, posso garantir que interna corporis e externa corporis a Ouvidoria Geral da UFRJ tem a confiança e o respeito de quem a demanda. Esperamos, pedagogicamente, multiplicar, na prática, esse conceito de Ouvidoria Pública propondo um programa de ação pela consolidação de uma Universidade Pública, que cumpra de modo eficiente, com excelência e qualidade a sua missão, o seu dever. Na oportunidade, queremos convidar todos vocês para o Seminário Endividamento e Cidadania / A questão do Superendividamento: prevenção e tratamento, a ser realizado no dia 17 de outubro de 2008, das 09h30min às 15h00min, no Auditório da Decania do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza, Roxinho, localizado na Avenida Athos da Silveira Ramos, 274, no campus Fundão da UFRJ. O referido Seminário visa dar início à concretização das atividades pedagógicas e acadêmicas propostas pela Ouvidoria Geral e, inicialmente, está voltado para o seu corpo social, professores, servidores e estudantes. A escolha do tema justifica-se pelo crescente número de demandas, recebidas na Ouvidoria, entre outras, sobre superendividamento, exclusão bancária, desconhecimento das regras do Código de Defesa do Consumidor, questões que envolvem cláusulas abusivas de contratos, publicidade enganosa. O acesso ao crédito é cada vez mais estimulado, e o crédito consignado permite que os bancos ou agentes financeiros não suportem qualquer risco em operações desta natureza.No entanto, em consequência, usuários/beneficiários deste sistema tornam-se, muitas vezes, reféns de um completo descontrole orçamentário, surgindo, assim, o fenômeno do superendividamento. Estudos prévios, em Direito Comparado,comprovam que o superendividamento é um fenômeno que afeta, profundamente, a auto-estima e a confiança do cidadão na sua capacidade de controlar sua vida pessoal e familiar, interferindo, também, no seu ambiente de trabalho. Visando educar para o crédito, educar para o consumo, alertando para a publicidade abusiva, para a propaganda enganosa, pretendemos apresentar as pesquisas e propostas relativas ao assunto, as noções sobre os principais direitos e deveres referentes aos serviços financeiros e as regras sobre contratos de crédito. Serão exibidas alternativas viáveis e fundamentadas juridicamente para resolverem a grave condição econômico-financeira, com o intuito de superar o preconceito moral, via de regra, presente nestas circunstâncias. A Ouvidoria Geral, que compreende a UFRJ como agente de transformação e fórum natural da cidadania, busca, com este evento, contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e solidária. Segue endereço eletrônico que permite a visualização do meu artigo publicado no jornal O Globo, em 25 de setembrode2008:

http://www.info4.com.br/gomateria.asp?cod=220615&nome=816&cliente=816

Agradeço a atenção, deixo o meu convite para que visitem a Ouvidoria Geral da UFRJ e as minhas saudações universitárias, Cristina Ayoub Riche Ouvidora Geral da UFRJ




A fetichização do conhecimento*

Por Flavio Moura

*Publicado originalmente na Revista Tropico http://p.php.uol.com.br/tropico/html/index.shl

Sucesso dos cursos breves e das feiras literárias, como a Flip, está relacionado ao esgotamento da universidade

Mesmo passados mais de três meses desde sua última edição, que se realizou em julho de 2005, a Festa Literária Internacional de Parati ainda é assunto que rende discussão. Ela se tornou o evento mais ilustrativo dos mecanismos que regem a relação entre escritores, jornalistas, editoras e leitores no Brasil. Nenhum outro acontecimento relacionado à literatura recebeu tanta atenção em tempos recentes nem foi tão capaz de transformá-la em chancela de prestígio intelectual, não importa que sua efetiva ressonância sobre a cultura brasileira continue em baixa.

Em três anos de existência, o evento contribuiu para tornar nítida uma série de questões que estavam latentes no ambiente cultural brasileiro e tornou-se referência inescapável para pensar os mecanismos de consagração que operam no restrito e auto-referente meio literário do país.

Como pouquíssimos outros acontecimentos promovidos no Brasil, a Flip foi capaz de concentrar no mesmo espaço e em torno dos mesmos interesses parte significativa do capital econômico, político, social e cultural do país. Desde sua primeira edição, fez com que presidentes de banco, ministros de Estado e figuras de diversos segmentos da cultura vissem ali motivos suficientes para compensar o deslocamento e a pouca familiaridade com a obra da maioria dos convidados.

Intelectuais no topo da hierarquia acadêmica temperam ali sua necessidade de exposição. Cronistas de antiga cepa aproveitam para coletar causos para seus textos. Editores, mesmo que alguns a contragosto, avaliam a possibilidade de renovar seus catálogos. Jovens escritores encontram vitrine de que jamais disporiam. Jornalistas atualizam oportunidades de trabalho, pautas ou munição. Medalhões da literatura internacional revêem, entre um passeio de barco e outro, o estoque de preconceitos sobre o país. Astros da música popular encontram tempo para uma partida de futebol “longe dos holofotes”. Atrizes da moda buscam contrapeso para a imagem de futilidade que a TV lhes confere. Cineastas na berlinda entre o cinema de mercado e o “autoral” reafirmam seus pendores literários. Comentaristas de telejornal destilam obsessões malcriadas “contra a USP e a Unicamp”. O poder local disputa a atenção dos visitantes ilustres. Cada qual a seu modo, todos têm dividendos a colher nos cinco dias de evento.

Num país em que a tiragem média de um livro de ficção é 3 mil exemplares, não é improvável que muitos autores -são 700 lugares no auditório principal e mais de mil na tenda instalada na praça da cidade- tenham tido mais público ali do que compradores para seus livros ao longo de toda a carreira. Em 2004 e 2005, por exemplo, 12 mil pessoas estiveram na cidade, além de 400 jornalistas. Só no ano passado, a cobertura da mídia, com direito a inserções ao vivo no Jornal Nacional, foi maior do que a da Bienal do Livro de São Paulo, visitada por mais de 500 mil pessoas durante 11 dias.

Um modo de esboçar uma reflexão sobre esse fenômeno pode ser encontrado na dinâmica particular que envolve a organização da Flip, bem como no choque que a festa produziu entre o mercado de livros e uma produção cultural que pode ser caracterizada como de elite. E isso num momento em que se assiste a uma sofisticação dos meios de divulgação cultural, à criação de novas arenas para o debate de idéias e a um processo crescente de culto às disciplinas mais prestigiosas das ciências humanas.

Do ponto de vista da organização, importa lembrar que a Flip não é um evento do mercado editorial pura e simplesmente, mas uma festa literária que pretende reunir autores cuja produção não se restrinja a uma busca imediata por sucesso de vendas. Em contrapartida, basta uma olhada rápida na programação dos três anos para notar que tampouco podem ser chamadas de “marginais” ou ainda de refratárias ao mercado as casas editoriais que dela participam. Daí que não sejam muitas as editoras com entrada efetiva no evento: de São Paulo, podem-se listar a Companhia das Letras, a 34, a Planeta, a Cosac Naify e umas poucas mais. Do Rio, a Objetiva, a Record, a Nova Fronteira, a Agir e, quando muito, a Rocco. E, entre as estrangeiras, a Bloomsbury.

Nesse cenário, não há como não reservar espaço para esta última, que responde pela idealização do evento, e para a Companhia das Letras, de atuação determinante para a sua formatação. As duas se beneficiam de uma composição entre prestígio intelectual, poder econômico e trânsito social que ajuda em parte a entender o prestígio cultural de que se reveste a Flip.

Detentora de um poder de legitimação intelectual sem equivalente no Brasil, a Companhia foi uma empresa geradora de transformações significativas na indústria do livro nas décadas de 80 e 90. Ocorre que, ao menos de início, a inovação não veio a propósito de um enfoque ostensivamente voltado para o mercado. Desde os primeiros anos de sua fundação, soube apresentar-se como uma empresa comprometida apenas com a qualidade artística de seus produtos.

Somado ao cultivo de contatos importantes com setores da universidade, da mídia impressa e do capital financeiro, esse trabalho, impulsionado por uma conjuntura econômica favorável, contribuiu para uma aceitação quase irrestrita de seus livros pela imprensa cultural. A editora tornou-se um modelo de produtora de cultura que soube tirar proveito da imagem de credibilidade que acumulou à custa de uma submissão exemplar às exigências da produção “pura”. Em outras palavras: conseguiu emplacar diversos best-sellers sem com isso perder a força de sua chancela.

A inglesa Bloomsbury conseguiu feito semelhante. À parte do mainstream do mercado editorial inglês, era vista como uma “farejadora de talentos” -basta, a esse respeito, notar as mesuras com que a ela se referem autores como Julian Barnes, Michael Ondaatje e Salman Rushdie. Ao longo de vários anos, fez fama publicando mais de olho no Booker Prize que nas listas de mais vendidos. Até que veio Harry Potter, e com ele alguns bons zeros a mais no balanço da empresa.

Mas nem por isso se perdeu a aura de comprometimento com a literatura dita séria. Pelo contrário: não parece exagerado supor que a Flip contribua para corrigir a imagem da Bloomsbury, que com o efeito Harry Potter poderia se esvair na heresia do sucesso comercial. Boa parte das escolhas de sua diretora editorial e presidente da Flip, Liz Calder, permite que se pense nesse sentido: a opção por Parati, local associado à resistência cultural nos anos 70; seus discursos de abertura, sempre enfáticos na louvação à “força transformadora da literatura”; a insistência em temas politicamente corretos, de que é prova a presença algo deslocada de Jeanette Winterson em 2005; e até mesmo as peças descontraídas de seu vestuário.

Não é de estranhar, portanto, que a soma de esforços dessas duas editoras fosse capaz de contribuir para um encontro raro entre diferentes esferas da elite cultural do país. Aliado a um competente trabalho de produção e aos catálogos de que dispõem, de fato sem equivalente entre as concorrentes, esse esforço coletivo construiu uma força de legitimação que é marca importante do ambiente cultural no Brasil contemporâneo.

Ressalte-se, ainda, que as duas têm perfil parecido. São independentes que ocupam espaço de vulto no mercado. Em outros termos: sobrevivem longe dos grandes conglomerados, coisa rara no cenário atual. Pense-se, por exemplo, na Objetiva. A casa carioca ganhou visibilidade no início dos anos 1990 com uma aposta em força de vendas. De início, emplacou diversos títulos nas listas de mais vendidos e chegou a atrair Paulo Coelho para suas hostes. Mas, com a entrada de grupos estrangeiros na virada para os anos 2000, a venda para uma multinacional tornou-se negócio mais atraente que a peleja por vendas num mercado instável, e a editora acabou absorvida pelo grupo Santillana, gigante do meio editorial espanhol.

Também carioca, a Record, que nos anos 1970 foi referência em modernização editorial e qualidade de catálogo, não se pauta por critérios de sofisticação, mas por uma espécie de “ecletismo de resultados”. Um dos maiores grupos no mercado de livros, é detentora de diversos selos, entre os quais um que atua no ramo da auto-ajuda. Além disso, publica uma quantidade astronômica de títulos por mês, o que impede que seja associada a um trabalho de esmero editorial ou que cultive um crivo severo na seleção de autores.

Mesmo a entrada em cena, em 2002, da Planeta, grupo espanhol comparável ao Santillana, é reveladora da instabilidade de imagem que caracteriza os grandes conglomerados. A casa editorial começou a disputar autores justamente com a Companhia das Letras, numa clara tentativa de associar prestígio a seu catálogo e de transcender a imagem de editora de best-sellers.

Não se pode, contudo, forçar a nota na semelhança entre as trajetórias da Companhia e da Bloomsbury, nem atribuir exclusivamente às duas a formatação de um evento que conta com uma diretoria de programação própria. Nos dois primeiros anos, essa tarefa ficou a cargo do jornalista Flávio Pinheiro, sem dúvida de atuação determinante para a feição assumida pela Flip. Com passagem vasta pela imprensa carioca e bom acesso às editoras e jornais -deixou a direção do evento para ocupar o posto de editor-chefe de “O Estado de S. Paulo”-, Pinheiro não apenas contribuiu para a escolha dos autores convidados, como propiciou uma aproximação digna de nota entre os escritores e os profissionais de jornais, sites e revistas. Como mediadores das mesas e debates, muitos repórteres e colunistas das editorias de cultura ganharam espaço novo de atuação, o que contribuiu para uma simbiose com os autores convidados cujo reflexo na imprensa salta à vista.

Em 2005, a diretoria de programação ficou dividida entre a editora Ruth Lanna, egressa da Companhia das Letras e da Planeta, e o professor de Teoria Literária da USP Samuel Titan Jr. Ambos empenharam-se em zelar pelo formato, aliando convidados de prestígio acadêmico, no Brasil e no exterior, best-sellers capazes de preservar apelo intelectual, promessas da literatura brasileira, nomes de destaque na literatura contemporânea européia e jornalistas estrangeiros versados na prosa de não-ficção.

Além das peculiaridades de sua organização, ajuda a explicar o caráter do evento o contexto de ampliação do debate acadêmico em que ele se insere. Nesse sentido, importa ver a Flip como participante de um processo que envolve a intensificação de cursos livres em diversas cidades do país, a promoção de ciclos de palestras e o sucesso de estabelecimentos destinados a ensinar filosofia e outros temas “nobres” para um público de alto poder aquisitivo.

Vai aqui uma digressão apressada, mas não parece descabido supor que a proliferação desses espaços revele sinais de esgotamento da universidade. Se nos anos 1950 e 1960 a criação de departamentos especializados em literatura e em diversas áreas das ciências sociais concentrou a produção intelectual no âmbito universitário, hoje ele parece depender mais das instâncias extra-acadêmicas do que há 20 anos. Seja porque as revistas especializadas andam à míngua, têm poucos leitores e não respondem com agilidade à pauta cultural do país, seja porque as crescentes disputas políticas dos departamentos bloqueiam canais não-viciados de comunicação ou até mesmo por causa do aviltamento dos salários, o fato é que professores de carreira consolidada têm procurado com freqüência espaços de diálogo como esses.

Parece razoável supor que o crescimento do mercado editorial e o aumento da capacidade de consumo não sejam suficientes para explicar o surgimento dessas alternativas. Pelo visto, é preciso encarar esse processo ao lado de um culto a determinadas disciplinas que parece se travestir, com o perdão da expressão, numa “fetichização” do conhecimento. A boa acolhida de público de palestras promovidas em torno de temas como a “história categorial em Marx”, não raro retransmitidas pela TV; a disponibilidade de setores da burguesia paulistana em pagar somas consideráveis para assistir a cursos breves sobre temas na linha “o amor em Platão”; a permanência no mercado de uma editora como a Cosac Naify, pródiga na feitura de edições que parecem almejar à condição de objeto único e recusar a produção em escala industrial; ou até mesmo a inclusão de quadros sobre filosofia no programa “Fantástico” são alguns dos elementos que permitem pensar nessa direção.

São todos participantes de um novo contexto de diversificação cultural que mereceria atenção mais detida. Por ora, basta dizer que eles tornam visível uma busca por espaços de interlocução que ilumina as possibilidades de atuação existentes para o intelectual do início dos anos 2000








domingo, setembro 28 2008 - 11:03

Minerva, Felício ! *

A direita e a esquerda, quando se fecham, aproximam-se em métodos e símbolos. Recentemente, um dos diretores da CUT, João Antonio Felício, veio a público defender o ato de criação do Sindicato Nacional dos Professores das Instituições Federais de Ensino Superior nas dependências da sede nacional da CUT, no dia 9 de setembro, em São Paulo. Do ponto de vista jurídico o ato carece de validade porque seu edital de convocação não previa credenciamento prévio para ter acesso ao recinto da reunião, nem o voto por procuração. Ambos os dispositivos foram denunciados por professores que compareceram à sede da CUT. Portanto, foi com um “carro cheio de um povo contente(1)” que atropelou, indiferentemente, as normas básicas do jogo democrático. Assim procedem os grupos totalitários, ora invocando o respeito à ordem, ora invocando o respeito à história.

A disputa pela filiação às Centrais Sindicais está se acirrando em vista das alterações na legislação trabalhista que conferem mais poder e recursos às Centrais. O interesse da CUT nos docentes das universidades faz parte do esforço desta Central em se manter hegemônica, senão única, no movimento sindical. Recorre o dirigente à conhecida metáfora de Mussolini sobre organização sindical: “...cabe ao sindicalismo unir o conjunto, aglutinar forças para tornar inquebrantável o feixe..”. A tarefa não será fácil, pois atualmente a CUT reúne, segundo o Ministério do Trabalho, 41% dos sindicatos, e perde em número de trabalhadores para a Força Sindical. Outras Centrais também se desenvolvem, com é o caso da Nova Central Sindical de Trabalhadores (589 sindicatos afiliados) e a União Geral dos Trabalhadores (449 sindicatos afiliados). Há ainda a CGTB e a CTB cada uma com cerca de duzentos sindicatos afiliados. Fora da burocracia do Ministério do Trabalho, existem a Intersindical e o CONLUTAS .

A ação PROIFES-CUT explica-se muito mais pela convergência de interesses dos seus dirigentes, uns entregando à CUT um sindicato expressivo, e esta dando a eles seu respaldo material e político. Processo semelhante está em curso na Previdência, uma assembléia de fundação de um sindicato de trabalhadores do INSS está marcada para o dia 27 de dezembro, na sede da CUT, apesar de já existir, desde 1984, a FENASPS que representa os trabalhadores da Saúde, Trabalho, Previdência e Assistência Social.

Nem o ANDES, nem o PROIFES têm grande capacidade de mobilização. Por motivos diferentes, descolaram-se das assim chamadas bases, devido aos mesmos erros de sempre: vanguardismo, submissão ao poder constituído e centralismo. Os seus caminhões cheios de um povo contente colidiram de frente, mostrando que a história não se deixa interpretar assim tão facilmente.

(1) Em sua missiva o dirigente sindical faz alusão aos versos da triunfalista canção de Chico Buarque e Pablo Milanês: Canção pela unidade da América Latina

* Postado por Luis Paulo Vieira Braga





domingo, setembro 21 2008 - 10:23

O Jornal da (Reitoria) da UFRJ e o Boletim da UFRJ*

O Jornal da (Reitoria) da UFRJ tem uma apresentação impecável e artigos de indiscutível qualidade, entretanto, por não ter um conselho editorial independente da Reitoria, leva a pecha de jornal chapa branca. E, de fato, entre matérias de elevado interesse, inserem-se aqui e ali reportagens que reforçam as ações da Reitoria. Faz parte deste esquema a tiragem exagerada de 25.000 exemplares ! Boa parte deles fica mofando nas dezenas de gôndolas criadas especialmente para distribuí-los.

Destino oposto teve outra publicação, de natureza completamente diversa, mas de importância fundamental para a comunidade da UFRJ – O boletim da UFRJ. É o diário oficial da universidade, no passado, era impresso e distribuído às unidades, o que facilitava a sua leitura e acesso. Hoje, é acessível via a página da UFRJ, em um link denominado Boletim da UFRJ. O seu conteúdo inclui editais de concursos, admissão, progressão e afastamento de servidores, concessão de bolsas, além das resoluções, portarias, regulamentos aprovados no CONSUNI, CEG e CEPEG, dentre outros órgão colegiados. Por exemplo, no último número publicado, no 11 de 2008, constam as Diretrizes para o Plano Diretor que foram objeto de prolongadas discussões e de barulhentos protestos ao longo do ano.

Democratizar o Jornal da (Reitoria) da UFRJ e ampliar divulgação do Boletim da UFRJ são medidas que aumentam a transparência do setor público, contribuindo para que não seja instrumentalizado para atividades não conformes.







segunda-feira, setembro 22 2008 - 03:52

ANDES e o registro sindical, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come*

Terminou, neste fim de semana, mais um capítulo da disputa pelo direito de representar os professores de ensino superior. O ANDES realizou seu III Congresso Extraordinário em Brasília-DF e decidiu manter o estatuto como está, isto é, incluindo todas as categorias de professores universitários: públicos federais, estaduais e municipais e também os das instituições particulares de ensino.

Segundo cobertura da imprensa do ANDES, as votações tiveram os seguintes resultados: A proposta de reformar o Estatuto do ANDES-SN, retirando da base do Sindicato os docentes das instituições particulares de ensino superior - IPES, foi rejeitada pela plenária do III Congresso Extraordinário, no final da manhã de domingo (21/9). Por ampla maioria, a categoria reafirmou o ANDES-SN como o único e legitimo representante dos professores das instituições de ensino superior de todo país. Duas propostas previam a alteração estatutária: a primeira, apresentada pela Associação dos Docentes da Universidade de Viçosa - ASPUV S. Sind., foi rejeitada por 206 votos contra 33 favoráveis e três abstenções. A segunda, apresentada pela ADUNIOESTE S. Sind., ADUNICENTRO S. Sind. e SINTUTFPR S. Sind., também foi rejeitada pela plenária por 141 votos contra 96 favoráveis e três abstenções. Esta última previa a alteração estatutária com a formalização em cartório condicionada à definição, por parte do Ministério do Trabalho, de que a medida seria suficiente para a resolução do impasse sobre o registro sindical.

Para garantir o atual status quo o ANDES depende da mobilização de seus associados, o seguinte plano de luta foi aprovado, segundo a imprensa do ANDES: Para enfrentar o recrudescimento dos ataques desferidos ao Sindicato Nacional, os 281 delegados de 62 seções sindicais reafirmaram a liberdade de organização sindical como princípio da entidade desde sua fundação e aprovaram um plano de lutas que visa dar uma resposta à estratégia do governo federal e da CUT/Proifes de desconstruir a efetiva e autônoma representação política e sindical dos docentes.Uma das ações aprovadas é a realização de uma jornada de lutas em defesa do ANDES-SN, que culminará em um grande ato público em frente ao Ministério do Trabalho e Emprego – MTE em Brasília. Para dar sustentação à jornada, o plenário apontou a construção de um movimento político em defesa do Sindicato Nacional, tanto nas universidades quanto na sociedade, ampliando as alianças com entidades dos movimentos sociais e intelectuais, em âmbito nacional e internacional, com o objetivo de desmascarar a farsa articulada pelo governo com a CUT/Proifes para tentar criar um outro sindicato na base dos docentes das universidades federais e, assim, destruir o ANDES-SN.

Sem dúvida será um desafio para o ANDES-SN mobilizar suas bases, pois sua desmobilização foi exatamente um dos fatores que os operadores governistas levaram em conta nos seus cálculos. Se o relativo estupor diante da truculência e ilegalidade da assembléia que criou o novo sindicato de docentes, vai ceder lugar à mobilização geral dos docentes filiados à ANDES, em defesa do seu sindicato, já é outra história. O hiato entre os dirigentes do ANDES e sua base vem se aprofundando há alguns anos, em virtude da adoção de uma pauta fortemente ideológica, que não corresponde ao sentimento da maioria dos docentes. A entrada no CONLUTAS, mais do que a saída da CUT, aprofundou este afastamento.

Ver-se-ão os docentes, carentes de quem os defenda, confrontados com a conclamação à luta pela defesa da entidade que deveria defendê-los...A sua motivação para ela é um horizonte ainda mais sombrio – o de um sindicato único que se impõe pela força da burocracia estatal, intervindo diretamente no bolso de seus afiliados compulsórios, pela via do imposto sindical e do recolhimento previdenciário para fundos de pensão.

* postado por Prof. Luis Paulo Vieira Braga (UFRJ)


Outubro


A Lição*

Extrato de A Lição de Ionesco

Após questionar um estudante sobre os princípios mais básicos da aritmética, um exasperado professor lança um derradeiro desafio, calcular um produto de dois números muito grandes, para sua surpresa o aluno acerta a resposta

O PROFESSOR , cada vez mais surpreso calcula mentalmente

Sim... Você tem razão... o produto é quintilhões, quatrilhões, trilhões, bilhões, milhões..., cento e sessenta e quatro mil quinhentos e oito ! Mas como você soube fazer a conta, se você não domina os princípios básicos da aritmética ?

O ESTUDANTE

Foi simples. Não podendo confiar em meu raciocínio, eu decorei todos os resultados possíveis de todas as multiplicações.

Quando o REUNI surgiu em 2007 no corpo do PDE, também conhecido como o PAC da educação, sua equação era aparentemente simples – trocar mais vagas e diplomas por mais verbas. De fácil assimilação, a mensagem encontrou eco junto a parcelas dos professores, alunos e técnicos administrativos, assim como suas entidades e associações representativas. Os pessimistas, de então, no máximo alegavam que as condições já eram precárias em muitos cursos, não sendo possível nenhuma expansão antes de sanar os problemas correntes. Entretanto, a implementação do REUNI está levando as universidades federais ao limiar do absurdo, improvável até na mente do mais famoso dramaturgo deste estilo.

A Universidade Federal do Rio de Janeiro, que através de seus dirigentes vem capitaneando a adoção do programa do Ministério da Educação do Brasil (MEC do B), recentemente, deu demonstrações de até onde está disposta a ir para cumprir suas metas.

Tomando como referência a teoria da transdisciplinareidade, a reitoria da UFRJ aderiu à filosofia da Universidade Nova lançada pelo reitor da Universidade Federal da Bahia. Sua aplicação à estrutura acadêmica implica na implantação de grandes ciclos básicos e na transformação dos cursos especializados em cursos mais generalistas – bacharelados interdisciplinares que poderiam, posteriormente, permitir o ingresso em uma etapa mais especializada. Diante das fortes reações contrárias , limitou-se à aprovação de novos cursos de bacharelado, na ampliação de vagas e na implantação de um bacharelado interdisciplinar no centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN), berço do prof. Horácio Macedo, aonde foi decano, ex-reitor da UFRJ, comunista histórico, ex-preceptor do atual reitor da universidade. O projeto de criação do Bacharelado do CCMN também foi muito criticado (1), mas assim como as demais medidas do REUNI foi aprovado às custas de liberação de verbas e muita pressão política. Verbas, aliás, têm sido a principal motivação para a aprovação dos novos projetos. Alegando pesadas despesas, dentre elas, só este ano(2008) vinte milhões de reais para a Light (eletricidade), cinco milhões para a Telemar (telefonia), três milhões e duzentos mil para a EMBRATEL (telefonia) e cinco milhões e duzentos mil para a CEDAE (água e esgoto), o Reitor, mais de uma vez, compareceu aos colegiados para vencer as resistências às medidas governamentais. Lamentavelmente, não demonstrou a mesma determinação na racionalização no uso dos recursos orçamentários.

Os efeitos de uma reforma tocada a interesses fisiológicos não tardaram a aparecer (2). Talvez o mais emblemático de todos eles seja a estatística divulgada pela comissão do vestibular da UFRJ sobre a relação candidato vaga para 2009. O carro chefe da reforma curricular - Bacharelado Interdisciplinar do CCMN, atraiu 0,25 candidatos por vaga ! O pior é que parte das vagas deste curso foram retiradas de outro – o Bacharelado em Geologia, que tem a procura de 10 candidatos por vaga. A coordenação deste último, teve, a contragosto, que ceder 20 vagas pela absoluta falta de condições materiais para aceitar 50 alunos. Ou seja, a UFRJ está trocando vagas valorizadas no meio acadêmico, por vagas frias... Ao invés de apoiar a Geologia e investir na sua expansão, condena-a à retração forçada !

Menos importante, porém, também emblemática, foi a intempestiva decisão das decanias do Centro de Tecnologia e do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza sobre a alteração do horário dos cursos diurnos, cujas atividades começariam às 7:30h e terminariam à noite às 18:30h... O motivo principal para esta mudança é a inexistência de laboratórios suficientes para atender aos alunos, a ampliação do período vespertino permitiria a criação de mais turmas. A decisão, entretanto, não foi adiante porque o Centro de Ciências da Saúde, que tem algumas disciplinas em comum, não aprovou a mudança de horário.

Porém a jóia maior na coroa do REUNI é o banco de professores equivalentes (3) que ameaça inviabilizar a curto prazo o funcionamento de muitos cursos, assim como, a médio prazo, minar o regime de dedicação exclusiva, já bastante comprometido na prática, pela liberação do recebimento pela prestação de serviços diversos, pelos professores que estão neste regime(4). Ao reduzir por equivalência o quantitativo de docentes em um departamento, ao mesmo tempo que congela a contratação de novos e necessários (substitutos de fato), a Reitoria da UFRJ, na melhor das hipóteses deixa as chefias de departamento diante da escolha de Salomão, ou quebra com a DE (formal) promovendo a contratação de professores do quadro em regime de 20h(equivalência 2 para 1) ou 40h(equivalência 1 para 1), ou fecha disciplinas por falta de docentes especializados, contratando um menor número de docentes DE.

O PDE, ou PAC da Educação, careceu de um planejamento estratégico, parecendo-se mais com um programa de candidato. Infelizmente, contou com o apoio imediatista da elite da universidade, a beneficiária primeira das suas verbas. Diante de um cenário ameaçador para as contas públicas, devido á retração econômica que se avizinha, caminhamos para um impasse, aonde metas mal formuladas vão se compor com recursos insuficientes.

(1) Bacharelado a Bolonhesa (neste blog, postado em Julho o parecer dos professores Luiz Antônio e Rui Cerqueira)

(2) O livro cinza do REUNI (http://livrocinza.wordpress.com/2008/08/11/o-livro-cinza-do-reuni/)

(3) Vagos Docentes (neste blog,postado em Outubro)

(4) Dedicação Exclusiva lato Sensu (http://www.correiobraziliense.com.br/blog/blogdoservidor/)

* postado por Luis Paulo Vieira Braga




A equipe do blog desenvolveu um projeto denominado Memória Acadêmica que procura fazer uma retrospectiva crítica da história da universidade por meio de entrevistas com alguns de seus professores mais antigos e expressivos. Em 2007 foram feitas duas entrevistas: Prof. Mascarenhas da Escola de  Química e Prof. Luiz Adauto do Instituto de Matemática. As duas  foram veiculadas pelo Jornal da ADUFRJ. Atualmente este projeto continua sob a exclusiva responsabilidade do prof. Abraham Zakon da Escola de Química da UFRJ.




SELEÇÃO DE ARTIGOS PUBLICADOS EM 2007



GRADUAR OU DIPLOMAR ?

Abraham Zakon (EQ)
José Henrique Erthal Sanglard (EP)
Leandro Nogueira Filho (EEFD)
Luís Paulo Vieira Braga (IM)
Luiz Eduardo Carvalho (FF)
Maria Aparecida da Silva (FL)

A RETÓRICA DOS DEFENSORES DO “BACHARELADO INTERDISCIPLINAR”
“Bacharéis de Coisa Nenhuma” serão os egressos da “Universidade Nova”, que incluirá um ciclo básico de três anos em “Bacharelados Interdisciplinares (BI)”, desprovidos de qualquer formação profissional específica. Além dos danos diretos aos alunos, essa nova modalidade poderá acarretar o inchamento das universidades públicas e o conseqüente represamento de estudantes dentro destas, se persistirem as deficiências do ensino básico vigente. Por outro lado, equivale a oferecer ao povo brasileiro um atestado de óbito – não-declarado explicitamente – do curso colegial, isto é, do ensino médio ou secundário, e a evadir-se da cobrança por sua melhoria.
Apregoado como reflexo de uma ilusória autonomia universitária, o “projeto Universidade Nova” poderá ser usado por alguns reitores para trocar mais vagas por verbas do governo federal ou captar empréstimos internacionais que costumam sustentar as políticas da educação. Sabe-se que “o Banco Mundial prestará assistência aos países para criar uma variedade mais ampla de instituições de educação superior e de sistemas de instrução com o fim de oferecer maiores oportunidades educacionais ao crescente número de egressos da escola pública, especialmente os setores mais pobres” [1]. É o que deixa entrever o comentário do Prof. Aloísio Teixeira, Reitor da UFRJ: “... verificamos a existência de um paralelismo grande entre o que falamos e a intenção de transformar a universidade brasileira num ambiente mais democrático, capaz de receber um contingente maior de jovens” [2].
Tentativas similares de criação de novos diplomas ocorreram, nos anos ’60, com o surgimento dos chamados “engenheiros operacionais”, categoria extinta após oito anos de existência por ação dos Conselhos Regionais de Engenharia e Arquitetura (cf. Jornal da ADUFRJ, 04/08/2003). Nos anos ‘90, foram ressuscitados sob a denominação de “tecnólogos”, que passou a abranger outras áreas além das Engenharias.
Veiculado como novidade e usando o nome de um grande educador brasileiro como atestado de boas intenções e de credibilidade, o projeto “Universidade Nova" imita o que já foi feito, no âmbito acadêmico, em alguns países latino-americanos. Mas por que os ditos "bacharelados interdisciplinares" já não foram implantados experimentalmente na UFBA? E por que precisam do endosso de outros reitores?

AS UNIVERSIDADES CONSAGRADAS SÃO ELITISTAS PORQUE GRADUAM
Quem questiona o BI vem sendo rotulado de “elitista”. Mas, as universidades nasceram elitistas para formar, nas variadas áreas do saber (artística, científica, tecnológica), profissionais com qualificação destacada, capazes de gerir os grandes, médios e pequenos interesses dos diversos setores de uma nação.
De forma não declarada, mas cada vez mais explícita, nas duas últimas décadas os gestores federais executaram projetos de incentivo ao aumento da produção de matérias-primas naturais para fins de exportação, visando produzir saldos na balança comercial e quitar dívidas antigas. Diante da oferta excessiva e crescente de mão-de-obra barata (ou desqualificada), incentivaram projetos educacionais para formação de tecnólogos e de modelos ralos de universidade para as massas.
Os cursos de curta duração para diplomar “engenheiros operacionais”, “tecnólogos” e “bacharéis interdisciplinares” nivelam para baixo os padrões educacionais do ensino superior no Brasil, que já adquiriu qualificações acadêmicas de excelência para desenvolver e executar projetos em diversas áreas do conhecimento. E em decorrência disso, predominará a reserva de domínio das altas tecnologias para os países do hemisfério norte.
Os cursos de curta duração — pela pequenez induzida — incorporam o despreparo científico (observacional e analítico) para a compreensão dos fenômenos naturais, industriais e sócio-econômicos. A inclusão das disciplinas eletivas de artes e línguas é ilusória. Os reflexos dessa mutilação educacional ocorrerão dentro da universidade e no convívio familiar e profissional de cada jovem. Se a universidade não tem promovido essa formação observacional e analítica nos primeiros anos é porque, em alguns casos, no lugar de algumas antigas equipes de docentes (selecionados e chefiados por catedráticos) surgiram novos professores (concursados ou substitutos) que se individualizaram dentro do sistema departamental aparentemente “democrático”.

O “BACHARELADO INTERDISCIPLINAR” EM OUTROS PAÍSES
O modelo do “Bacharelado Interdisciplinar (BI)” já existe, sob a denominação de "Estudos Gerais", em universidades hispano-americanas e em algumas instituições nos Estados Unidos. Exposto ao público acadêmico da UFRJ na Aula Magna de 14 de março de 2007 [2], o projeto “Universidade Nova” mantém estreita semelhança com o “Programa de Bachillerato en Educación General (PBEG)” implantado pela unidade Río Piedras da Universidade de Porto Rico, tanto na definição da proposta — estimular e fomentar "un plan de estudios dirigidos a proveer una educación universitaria interdisciplinaria e integrada de excelencia", estabelecendo "retos, programas y experiencias que propician el desarrollo de las destrezas de redacción, investigación y razonamiento en los/las estudiantes desde la óptica y filosofía de la educación general” — como nas metas a serem alcançadas: "Ofrecer una oportunidad de preparación subgraduada de carácter interdisciplinario a los estudiantes que desean proseguir estudios profesionales posteriores al Bachillerato" [3].
Os principais pontos comuns entre os dois projetos são: 1º - Os estudantes ainda sem escolha vocacional definida serão o público alvo, o que determinaria a criação de um programa acadêmico calcado na flexibilidade, com escolha de disciplinas "eletivas"; 2º - A integração geral do saber. Será mera coincidência? [4]
A resposta a esta pergunta encontra-se em La Enseñanza Superior: Las Lecciones Derivadas De La Experiencia, documento apresentado pelo Banco Mundial como resultado de estudos sobre as condições do ensino superior nos países em desenvolvimento, no qual se reconhece a educação de terceiro grau como o espaço de transmissão e geração de conhecimentos, de criação e exercício de capacitações técnicas de alto nível [5]. Não obstante, e fiel aos objetivos do estudo realizado — estabelecer metas de “aprimoramento” que devem ser adotadas para obtenção de financiamento internacional —, o documento em questão tende a enfatizar alternativas que permitam aos gestores (governo e dirigentes institucionais) adequar este nível de formação acadêmica ao quadro de redução dos investimentos na educação. Portanto, não é surpresa encontrar semelhanças entre projetos de “renovação” do ensino universitário no contexto latino-americano. Todos têm, como respaldo, a mesma cartilha.
Questiona-se a validade do ensino pautado em modelos tradicionais “defasados”, como o da universidade européia, “con su estructura de programas en un solo nivel”, que demonstrou ser “costoso y poco apropriado en el mundo en desarollo” [5]. E propõe-se, como solução imediata, a maior “diferenciación en la enseñanza superior, o el desarrollo de instituciones no universitarias y el fomento de establecimientos privados”, a fim de satisfazer a crescente demanda social da educação pós-secundária.
O documento do Banco Mundial sugere gerar custos mais baixos, facilitar a manutenção financeira empresarial e tornar os sistemas de nível superior mais atraentes — “más sensibles a las necesidades del mercado laboral” — pela diversificação da oferta de formação acadêmica de terceiro grau. Propõe a criação de instituições não-universitárias (institutos politécnicos, profissionalizantes ou técnicos que fornecem ciclos curtos de habilitação e treinamento) nos moldes dos community colleges, institutos de estudos pós-secundários com oferta de dois anos de ensino acadêmico ou profissional. Papel preponderante nesse processo seria desempenhado, igualmente, pelos programas de ensino à distância.

CONCLUSÕES
As universidades vêm sendo expostas na mídia como a solução messiânica para pobres e excluídos conquistarem o direito de viver no paraíso. A idéia de conquistar um diploma superior nas universidades particulares está sendo vetada pelo seu alto custo operacional.
Existe uma massa descomunal de jovens egressos do ensino secundário que é eliminada todos os anos nos vestibulares. Será que os elaboradores do projeto “Universidade Nova” estão pensando justamente em direcionar esses cursos "interdisciplinares" para diplomar turmas de office boys / girls adequados para serviços secundários? Uma boa formação técnica (ou colegial) não capacitaria mão de obra qualificada para atuar nesses serviços de forma eficiente?
A solução do “bacharelado interdisciplinar” apresenta-se como um novo produto populista: o estudante não se forma em nada, não arruma emprego na profissão escolhida... mas ao menos é um sujeito de "nível superior". Cursos sem metas de capacitação definidas, concebidos para difundir uma formação periférica, não serão a panacéia para a tão alardeada “crise” do ensino superior. Não se pode confundir universidade com centro de treinamento e de adestramento rápido. Não podemos compactuar com os oportunistas de plantão, que tentam criar shopping centers, feiras e camelódromos de cursos, diplomas e certificados, aparentemente de nível superior.
Projetos como o da “Universidade Nova” não fazem mais do que utilizar as universidades públicas para oferecer atividades de ensino não-universitário com diplomação de ensino superior e trocar vagas por mais verbas ou financiamentos bancários. Sua rejeição se faz necessária.
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EQ – Escola de Química
EP – Escola Politécnica
EEFD – Escola de Educação Física e Desportos
IM – Instituto de Matemática
FF – Faculdade de Farmácia
FL – Faculdade de Letras
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[1] CAPES. Anais da Conferência Mundial do Ensino Superior, Paris, 8-9 out. 1998. In: Universidade e Sociedade, XVI (39), Fev. 2007, p.84

[2] http://olharvirtual.ufrj.br/2006/index.php?id_edicao=150

[3] http://generales.uprrp.edu/bachillerato/programa_baeg.html

[4] http://www.pucp.edu.pe/estudios_generales/letras/
http://www.qcc.edu/images/4114_spanish_gen_studies.pdf
http://www.puc.cl/dara/registro/estudios/estgrales.html
http://www.uned.ac.cr/sociales/programas/00.html
http://www.usb.ve/estudiar/pregrado.html
http://www.iupuc.edu/academics/programs/generalstudies.asp
http://www.uchile.cl/uchile.portal?_nfpb=true&_pageLabel=conUrl&url=6831

[5] GRUPO BANCO MUNDIAL. La Enseñanza Superior: las lecciones derivadas de la experiencia Washington: Banco Internacional de Reconstrucción y Fomento, 1995. 115 p. (El Desarrollo En La Práctica)




METAMORFOSES NA DELIBERAÇÃO DO CONSUNI IMPÕEM O REUNI COMO FATO CONSUMADO NA UFRJ



Roberto Leher (FEUFRJ)

O Decreto 6069/07 (REUNI) não deixa margem a dúvidas: é um contrato de gestão entre as IFES e o MEC objetivando a “reestruturação” das universidades federais como condição para a sua “expansão”. Em função de seu alcance e profundidade, ao ser examinado pelo Conselho Universitário, em sessão de 26 de abril do corrente ano, o Conselho deliberou a:

Discussão sobre o Plano de Desenvolvimento da Educação. Após ampla discussão, o Conselho Universitário resolveu: a) Constituir Comissão, composta de 5 (cinco) membros do CONSUNI, 5 (cinco) membros do CEPG, 5 (cinco) membros do CEG e 3 (três) indicados pela Reitoria, para análise da proposta de Plano de Desenvolvimento da Educação e organizar o processo de discussão no âmbito da UFRJ. (Boletim, 10, 10 de maio de 2007).


O encaminhamento proposto pelo CONSUNI foi correto e coerente com os procedimentos acadêmicos, tendo em vista a complexidade da matéria e, sobretudo, as profundas implicações do PDE para as atividades de ensino e, mais amplamente, para toda a vida universitária no país.

Nos mesmos moldes dos contratos de gestão do Plano Diretor da Reforma do Estado, o REUNI contém metas a serem atingidas como contrapartida aos possíveis recursos do MEC, como a quase duplicação do número de estudantes de graduação e a drástica redução da evasão – metas de expansão que, em abstrato deveriam ser celebradas por todos os que defendemos a criação de condições para que a educação superior universitária possa ser garantida a todos os estudantes que desejem prosseguir seus estudos, em particular os provenientes das classes trabalhadoras.

A questão de fundo que indubitavelmente seria constatada pela Comissão é que o MEC, por meio de seu projeto denominado Universidade Nova, pretende promover essa ampliação de vagas por meio de cursos aligeirados, expresso em uma graduação minimalista nos moldes dos “community colleges” estadunidenses e do processo de Bolonha, promovido pela União Européia, situação que desarticularia todo sistema de formação da UFRJ que, a despeito de suas insuficiências, ainda assegura elevada qualidade de formação aos seus estudantes. E, como se não bastasse, a graduação minimalista será o ponto final da trajetória “(semi) universitária” da grande maioria dos estudantes, caso o MEC não repasse para as IFES recursos substanciais. Como o Decreto do MEC permite antever que esses recursos serão muito pequenos, situação confirmada pelo Programa de Aceleração do Crescimento, como pode ser visto a seguir, a UFRJ estará legitimando a exclusão da grande maioria dos estudantes de uma graduação plena, verdadeira, capaz de assegurar uma formação profissional.

Seguramente a Comissão constataria que os recursos previstos pelo governo Federal (Decreto 6069/07) para essa “reestruturação” e expansão: “até 20% do equivalente ao orçamento de cada IFES, exclusive o custo da folha de aposentados e pensionistas” são demasiadamente reduzidos, impedindo a expansão de fato universitária (daí a fórmula da graduação minimalista da Universidade Nova). Considerando o orçamento médio do MEC para as IFES (2003-2006), isso significaria cerca de R$ 1,2 bilhões para todas as 53 Universidades Federais. Apenas para indicar a ordem de grandeza desse montante, caso cada uma das universidades federais recebesse o mesmo montante, teríamos algo como R$ 22 milhões ao ano para cada instituição. Certamente, a Comissão constataria que os recursos previstos não permitiriam cumprir as metas mantendo o imprescindível padrão de qualidade que a UFRJ tem assegurado em seus cursos, lembrando que com estes recursos as universidades terão de custear a infra-estrutura e as novas contratações de docentes (Dec. 6069/07, Art.3, inciso III). Dificilmente passaria despercebido da Comissão que, a rigor, o MEC sequer assegura o montante de até 20%: “o atendimento do Plano de cada IFES é condicionado à capacidade orçamentária e operacional do MEC” (Dec. 6069/07, Art.3, §3o).

Quando a Portaria nomeando a Comissão foi editada, em 02 de maio de 2007, as suas atribuições foram substantivamente ampliadas:

O Reitor (...) Resolve nomear Comissão para avaliar o PLANO DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO - PDE, e propor diretrizes para as ações a serem encaminhadas pela UFRJ (...) (Portaria nº 1345, de 02 de maio de 2007)

A Portaria deixou abertas duas possibilidades:

(1) que a Comissão iria elaborar um grande diagnóstico das insuficiências da UFRJ, objetivando desenvolver, autonomamente, um esboço de ações para ampliar, de fato, o acesso da juventude à UFRJ (e nesse escopo a UFRJ avaliaria o REUNI) e

(2) o que seria surpreendente, a elaboração de diretrizes que assimilam o REUNI como um dado, um pressuposto.

Por que a última alternativa seria surpreendente? Porque, claramente, o CONSUNI não deliberou por este posicionamento (vide a ata no Boletim n. 10 supracitada) e, também, porque o debate não foi realizado pela UFRJ com a profundidade necessária e, a bem da verdade, a Comissão não pôde examinar as conseqüências da “reestruturação da UFRJ” vis-à-vis ao REUNI e tampouco pôde organizar o debate internamente, como seria sua legítima atribuição.

A alternativa mais preocupante se confirmou. Apenas uma semana mais tarde, em 11 de maio, a Presidente da mencionada Comissão enviou uma carta aos Diretores, Decanos e Pró-reitores, estabelecendo:

Instruções para preparação e encaminhamento de seus projetos e iniciativas, que subsidiem a elaboração da proposta da UFRJ. O plano de reestruturação da UFRJ, a ser submetido ao MEC, deverá estar em conformidade com diretrizes e regras estabelecidas pelo Decreto citado, que cria o Programa REUNI.

Independente de aspectos pontuais contidos na Carta, muitos deles meritórios, o busílis da questão é a incorporação do REUNI como um fato consumado, criando a falsa impressão de que um consenso foi forjado na UFRJ. A partir desse fato, as unidades, premidas pelas orientações da administração e pelo estrangulamento financeiro, estão se vendo constrangidas a apresentar, a toque de caixa (menos de duas semanas) os seus projetos, temendo ainda maior restrição financeira. Essa é a perversidade do contrato de gestão: como o governo impõe, unilateralmente, as suas metas no projeto Universidade Nova como condição para liberação de recursos, as instituições acabam vitimadas pela chantagem econômica e, assim, a discussão acadêmica sobre o significado do Decreto 6069/07 é completamente descartada, como se a criação da graduação minimalista, a contratação de professores com recursos próprios, mas não garantidos, fossem assuntos burocráticos e irrelevantes. “(...) serão recomendadas prioritariamente pela Comissão aquelas que apresentem clara articulação entre diferentes unidades e entre as diretrizes, objetivos e metas estabelecidas no REUNI.”

O que fazer?

O artigo 207 da Constituição Federal é uma norma bastante em si que assegura a autonomia universitária. Compete ao Conselho Universitário zelar por esse preceito, exigindo que o MEC não imponha nenhuma chantagem econômica sobre a instituição e, nesse sentido, poderia questionar os termos do Decreto 6069/07, como tem feito ao longo de sua história sempre que existe uma medida governamental que desrespeita a autonomia. A rigor, foi esse o gesto do Conselho superior da UFRJ quando corretamente deliberou pela análise e discussão do REUNI.
Certamente, se o CONSUNI reavaliar a cadeia de acontecimentos que levou a exigência de que as unidades se ajustem aos imperativos da Universidade Nova/ REUNI até o próximo dia 25 de maio, constatará que o tempo foi tão acelerado que o debate não pôde acontecer.

O mais sensato parece ser retornar a deliberação original de 26 de abril, de modo que a Comissão avalie e organize o debate sobre o REUNI na UFRJ. É crucial também que as Congregações não deixem de se pronunciar sobre a necessidade de que a completa reestruturação da UFRJ seja ampla e democraticamente discutida em todos os âmbitos da UFRJ, com base em um calendário que assegure o debate. Os recursos, como visto, modestos, não podem servir de moeda de troca à completa descaracterização de todo o patrimônio científico, tecnológico, artístico e cultural edificado pela UFRJ que esperamos possa ser destinado a muitos, mas com a qualidade da UFRJ e não com um padrão minimalista.

Contraditoriamente, a resistência ativa ao Decreto pode contribuir para que a UFRJ elabore a sua agenda de expansão do acesso ao ensino universitário com qualidade, notadamente por meio de forte ampliação dos cursos noturnos e da adoção de medidas que promovam a articulação da instituição com a educação básica pública, apresentando o que a instituição considera necessário em termos de pessoal e de infra-estrutura para o atendimento das metas previstas em seu plano de expansão autonomamente estabelecido pelos seus colegiados a partir de um amplo debate em que todos os que fazem a universidade pública sejam protagonistas.

Rio de Janeiro, 20 de maio de 2007



REUNI ou DESUNI ?


Prof. Luis Paulo Vieira Braga (IM-UFRJ)


A administração pública no Brasil é uma das maiores vítimas das lutas político-partidárias que se desenvolvem no país. Freqüentemente, vista como meio para alcançar determinados objetivos, sejam eles financeiros ou ideológicos, prima pela falta de continuidade e instabilidade. Diagnósticos, feitos sob medida para alçar aos céus uma nova rotina e curto-circuitar as existentes, se sucedem a uma velocidade que excede em muito o limite do bom senso. Esse processo barbárico é envolvido em um amplo esquema de marketing que estigmatiza qualquer crítica como conservadora ou ultrapassada. O Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), lançado pelo Governo Federal em Abril deste ano, não foge à regra. Um enorme painel de programas que vão desde a instalação de energia elétrica nas escolas(1), passando pela distribuição de óculos, até a fixação de recém-doutores. É exatamente um dos programas do PDE, o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), criado pelo decreto presidencial 9.096, em 24 de Abril de 2007, que está provocando muita inquietação entre os professores nos departamentos acadêmicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ao indicar em seu Artigo 1o/ (2) as metas do programa, não deixa dúvidas sobre as condições que devem ser obedecidas, desqualificando-se, assim, as declarações suavizadoras de alguns dirigentes(3) empenhados em implantar o programa a qualquer custo. O Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CONSUNI) aprovou uma resolução criando uma comissão de alto nível (4) que , corretamente, pretendia promover um debate sobre a propriedade ou não do REUNI e as linhas mestras a serem estabelecidas. Entretanto, a Portaria do Reitor (5) que formalizou a existência dessa Comissão alterou o seu caráter, o que foi denunciado pelo Prof. Roberto Leher em artigo recente (6).


De catalizadores da discussão, os integrantes da Comissão passaram a missionários do REUNI, promovendo uma primavera de projetos de cursos novos, de aumento de vagas e implantação de ciclos básicos por Centro(7), à margem do marco legal estabelecido pelo Conselho de Ensino de Graduação que disciplina a formulação do Projeto Pedagógico e organização curricular dos cursos de Graduação da UFRJ(8). Dizendo-se premidos pelos prazos, artificialmente, criados pelo Governo Federal, os operadores do REUNI na UFRJ promovem um verdadeiro rolo compressor nos colegiados de unidades e congregações em busca de apoio a algum vestígio de projeto que possa ser encaixado na forma do decreto 9.096. Digo vestígios, pois nem processos estão sendo corretamente instruídos para amparar as propostas dentro do marco de legalidade convencionado até então nesta universidade. O informe seguinte do representante de professores na Congregação do Instituto de Matemática ilustra a fragilidade da dinâmica adotada - a consulta aos professores adjuntos e associados sobre a criação do Bacharelado em Ciências da Natureza e Matemática teve 30 votos contrários e 12 votos favoráveis. Com isso os dois representantes dos adjuntos/associados seguiram o resultado da consulta e votaram contra a proposta na Congregação do IM ( órgão máximo deliberativo do IM ). O resultado final na Congregação foi a aprovação das linhas mestras da proposta, que permitem dar uma direção ao projeto. Praticamente todo o detalhamento do funcionamento do curso ( por exemplo: disciplinas, critérios para transferência dos alunos entre os cursos etc ficou para ser discutido ao longo dos próximos meses. Ora esse procedimento está em flagrante contradição com os incisos III e VI do Artigo 4o/ da resolução do CEG citada acima(9). Em especial o inciso III aponta a necessidade de se assegurar os recursos materiais e humanos para viabilizar o curso, assegurando assim que os benefícios orçamentários se destinem aos que os necessitam e o inciso VI garante o padrão de qualidade , agindo como antídoto à criação de cursos voltados para alunos com pretensões intelectuais abaixo da média que se tem praticado na UFRJ. O fato do CONSUNI e do CEG, tacitamente, aceitarem a alteração do processo de formulação de projetos pedagógicos não cria automaticamente jurisprudência. É necessário que tanto um colegiado, como o outro assumam perante a comunidade universitária que estão mudando tanto a resolução que instituiu a comissão de alto nível para o REUNI, como a resolução 02/2003 do CEG, pelo simples fato de que não se pode conviver com a norma e o descumprimento da mesma, nem com a contradição entre a palavra e a ação.

As tautologias expressas nas diretrizes do REUNI não incomodam a ninguém, reduzir a evasão, oferecer mais vagas, facilitar a composição de novos currículos, entre outras, merecem a atenção dos dirigentes e do corpo de docentes, discentes e técnicos administrativos da universidade. Mas a reforma pretendida parece mais orientada a melhorar índices sobre a realidade acadêmica, do que a realidade acadêmica propriamente dita(10). Reduzir a evasão transferindo evadidos de um bacharelado mais exigente para um mais fácil, ou encurtar a duração de um curso antes que os alunos vão embora, não parecem ser, exatamente, soluções de base, mas sim artifícios cosméticos do gênero – tudo está bem, se termina bem. E terminar bem significa ter dinheiro em caixa, e é dessa ilusão que se alimentam estas e outras propostas de gestão da administração pública, como se empreendimento privado fosse. Nada impedia que o governo federal alocasse 20% a mais no orçamento do MEC e fosse aprovando os projetos REUNI a medida que chegassem. Ao condicionar a apresentação imediata de projetos, ao encaminhamento orçamentário, o executivo praticamente impôs um paradigma – as universidades federais devem seguir o exemplo das universidades particulares: oferecendo cursos acessíveis aos alunos egressos do ensino médio público, aprovando de uma forma ou de outra a maioria desses alunos; contratando mais professores em tempo parcial e com menos qualificação(11); buscando financiamento no sistema produtivo através da prestação de serviços; e assimilando os campi universitários ao espaço urbano, descaracterizando-os assim como entidades autônomas.

(1)Um subprograma de outro Programa do Governo – O Luz para Todos, cujo secretário geral foi recentemente indiciado na, denominada, Operação Navalha da Polícia Federal.

(2)§ 1o O Programa tem como meta global a elevação gradual da taxa de conclusão média dos cursos de graduação presenciais para noventa por cento e da relação de alunos de graduação em cursos presenciais por professor para dezoito, ao final de cinco anos, a contar do início de cada plano.
§ 2o O Ministério da Educação estabelecerá os parâmetros de cálculo dos indicadores que compõem a meta referida no § 1o.

(3) Perguntada sobre a possibilidade de a UFRJ alcançar os índices cobrados pelo MEC em cinco anos, a decana do CCMN foi enfática: "Não é possível para qualquer universidade brasileira atingir o índice de 90% de taxa de conclusão nos cursos de graduação", diz. Segunda ela, aliás, pouquíssimas universidades no mundo inteiro devem conseguir índices tão elevados. De acordo com Ângela, talvez duas na Inglaterra e duas nosEstados Unidos: "Mas temos que confirmar esta afirmação", ressalta. Jornal da ADUFRJ, Ano X, número 538, 22/05/2007, página 8.

(4) Constituir Comissão, composta de 5 (cinco) membros do CONSUNI, 5 (cinco) membros do CEPG, 5 (cinco) membros do CEG e 3 (três) indicados pela Reitoria, para análise da proposta de Plano de Desenvolvimento da Educação e organizar o processo de discussão no âmbito da UFRJ. (Boletim, 10, 10 de maio de 2007).

(5) O Reitor (...) Resolve nomear Comissão para avaliar o PLANO DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO - PDE, e propor diretrizes para as ações a serem encaminhadas pela UFRJ (...) (Portaria nº 1345, de 02 de maio de 2007)

(6) Metamorfoses na deliberação do CONSUNI impõem o REUNI como fato consumado na UFRJ. Roberto Leher, Jornal da ADUFRJ, Ano X, número 538, 22/05/2007, página 6.

(7) Na Reunião de 24 de Maio do CONSUNI foram anunciadas as aprovações no Centro de Ciências da Saúde (CCS) de 50 vagas novas para o Curso de Medicina no Campus de Macaé, vagas adicionais para os cursos de Fonoaudiologia e Fisioterapia e um curso novo – Terapia Ocupacional. Já o Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (CCJE)aprovou a criação de dois cursos novos – Relações Internacionais e Gestão Pública, além de estudos para criar um ciclo básico comum.

( 8 ) RESOLUÇÃO CEG Nº 02/2003 de 12 de março de 2003.

(9) Artigo 4º - Os seguintes aspectos deverão compor o Projeto Pedagógico : I - apresentação histórica do curso, sua origem e inserção no contexto da Unidade e da UFRJ; II - justificativa, finalidade e identidade do curso; III - concepção de currículo adotada e prospectiva de operacionalização, incluindo a previsão do número inicial de vagas e docentes, bem como turno (s) de funcionamento e recursos humanos e materiais; IV - objetivos do curso como norteadores da formação acadêmico-profissional do aluno; V - perfil do egresso que configure a interação entre uma sólida formação acadêmica e uma atuação profissional marcada pelo compromisso ético nos espaços social, político, ambiental, científico e cultural de sua inserção; VI - as ementas dos conteúdos relativos aos componentes curriculares, acompanhadas de objetivos e metodologias de trabalho didático, formas de avaliação, carga horárias e bibliografias básicas, aprovadas pelos colegiados.

(10) "A proposta apresentada, de criação de um novo curso, pretende olhar para o problema do ponto de vista dos estudantes, e com isso iniciar um processo de melhoria de nossos indicadores de eficiência, como solicitado pelo Ministério da Educação em seus documentos públicos." Projeto de criação de curso "Bacharelado em Ciências da Natureza e Matemática, Ângela Rocha dos Santos, Sérgio de Paula Machado, Marta Feijó Barroso, CCMN,Abril, 2007.

(11) O banco de professores equivalentes criado pela PORTARIA NORMARTIVA INTERMINISTERIAL No- 22, DE 30 DE ABRIL DE 2007 dos MINISTROS DE ESTADO DA EDUCAÇÃO E DO PLANEJAMENTO, ORÇAMENTO E GESTÃO cuja unidade de referência é o professor 40 horas, e não mais o professor em DE permite que as universidades administrem a vontade o quantitativo de professores, quanto mais baixo na escala de qualificação e regime , mais professores podem contratar.





APG-UFRJ diz não ao REUNI e defende:
Mais vagas nas Universidades Públicas com efetiva assistência estudantil e mais verbas para contemplar nossa pauta de reivindicações (transporte, Bandejão, bibliotecas, alojamentos, bolsas, melhoria da infra-estrutura, concurso para professores e técnicos...)
Por uma Universidade comprometida com os interesses do povo brasileiro.
(APG-Associação de Pós-Graduandos)



Com verbas escassas e salários congelados, com déficit na assistência estudantil e bolsas de pesquisa insuficientes, o Governo Federal lança “novos” projetos para impor um modelo de Universidade a serviço dos interesses do mercado. Nossa economia vive um processo de regressão e subordinação, voltada para a produção de commodities para exportação, com o barateamento da mão-de-obra e oferta cada vez menor de empregos qualificados. De todos os empregos criados em dez anos, apenas 6% romperam a barreira dos dois salários mínimos e nos últimos 10 anos o número de desempregados com nível superior triplicou e os rendimentos destes caíram 26%. Os projetos do Governo para a Educação prevêem uma reestruturação que, em nome de uma maior ampliação da Universidade, determinam uma série de mudanças que precarizam ainda mais as condições de ensino, pesquisa e trabalho na UFRJ. O decreto do REUNI e a portaria do professor-equivalente, lançados recentemente, reforçam a tendência de subordinação da nossa economia e de adequação das Universidades Públicas a esse modelo econômico-social. E, também, tentam impedir a discussão sobre o que a Universidade realmente precisa para atender às necessidades do povo. É surpreendente que a Reitoria da UFRJ, eleita duas vezes afirmando o seu caráter democrático e o respeito às instâncias acadêmicas, simplesmente assimile e imponha os novos moldes passando por cima do debate com os estudantes, professores e funcionários técnico-administrativos. A toque de caixa, a UFRJ corre para se adaptar aos ditames do MEC. Enquanto isso, as reivindicações dos estudantes, professores, funcionários técnico-administrativos e da APG pela ampliação da Universidade, incluindo melhorias em nossas condições de ensino e aumento de verbas, há anos vêm sendo ignoradas...


Os pós-graduandos têm discutido questões relacionadas com o Programa de Desenvolvimento da Educação (PDE), entre elas o REUNI [1], que abrangem medidas como o aumento da relação alunos/professores para 18/1 em cinco anos [2], visando à ampliação do acesso, elevação gradual da taxa de conclusão média dos cursos de graduação das Universidades Federais para 90% (diminuição da retenção para 10%) e criação do banco de “professores equivalentes” [3]. Para isso, bastaria o “melhor aproveitamento da estrutura física e de recursos humanos existentes nas Universidades Federais”.

Enumeramos alguns argumentos utilizados no REUNI e o porquê de nossa posição contrária a este. Esclarecemos alguns dos principais fundamentos que guiam este decreto no sentido da subordinação da estrutura econômico-social brasileira à economia mundial e de atrelamento dos rumos da Universidade a este “projeto de desenvolvimento”.

(1) A estrutura física da UFRJ que segundo o MEC precisa ser melhor aproveitada, com certeza não é a mesma da qual “usufrui” diariamente a comunidade acadêmica. Os banheiros estão degradados e sujos (quando não estão fechados), falta água em algumas Unidades, ratos passeiam pelas salas do IFCS, as bibliotecas estão defasadas, o transporte é insuficiente e caro, a alimentação básica é salgado + refresco e as obras do Bandejão estão atrasadas. Situações similares denunciam os estudantes que ocuparam várias Universidades recentemente, cobrando moradia estudantil, transporte, alimentação, etc. Apesar de diagnosticarmos as enormes carências da UFRJ – lembremos que em 2004, segundo dados da própria Reitoria, a UFRJ precisaria de R$216 milhões para obras, consideradas na ocasião como “inadiáveis” – o Governo Federal impõe a adequação das Universidades Públicas ao REUNI num cenário de restrição orçamentária. Ou seja, enquanto os recursos para a educação tendem à estagnação, bilhões de reais dos cofres públicos são gastos com o pagamento de juros e com superávits primários recordes [4]. Caso a proposta da Universidade esteja “à altura” dos objetivos do REUNI, a “promessa” – textualmente não assegurada no decreto – seria um ganho de apenas 20% do orçamento da UFRJ em cinco anos. Lembremos ainda que nos últimos anos, as verbas de investimento nas Universidades Públicas foram praticamente inexistentes. Um aumento de orçamento de 20% em cinco anos (condicionado à aprovação da proposta pelo MEC e “à capacidade orçamentária e operacional” do Ministério1) não vai atender às nossas reivindicações mais básicas, como as já citadas. Na UFRJ, a Reitoria entende que a ampliação de vagas poderá ser feita utilizando-se apenas a capacidade ociosa das instalações físicas existentes [5]. Isto significa que não teremos as condições mínimas para receber os novos estudantes.

(2) As Universidades Públicas terão que aumentar em até 100% as vagas de discentes com o mesmo quadro de docentes referente a dezembro de 2006, com a implantação do banco de professores equivalentes, que coloca um teto que congela a contratação de docentes (para a UFRJ este valor é de 4761 equivalentes). O contra-senso das imposições torna-se evidente quando analisamos o levantamento feito pela Comissão Temporária de Alocação de Vagas (COTAV) em 2005: verificou-se a necessidade de um aumento de, pelo menos, 600 docentes na UFRJ, enquanto apenas cerca de 100 vagas [6] foram contempladas. Só para exemplificar, “dos 105 professores do IFCS, 34 podem se aposentar“ e “dos 64 professores do quadro permanente da ECO (Escola de Comunicação), 10 têm direito à aposentadoria e 11 o terão até 2011 [7]”. Para os pós-graduandos, além de termos dificuldades de acesso às bolsas [8], a não ampliação de concursos significa cada vez mais dificuldades em trabalhar na nossa área de formação (hoje, 70% dos pós-graduandos não trabalham na sua área de formação, como pesquisa e ensino nas Universidades, por exemplo). Com o banco de equivalentes, a tendência é o aumento de professores substitutos (que já é grande, como na Faculdade de Educação e Direito, onde eles compõem cerca de 30 e 50% do quadro docente, respectivamente [9]). Muitas vezes os pós-graduandos suprem esta demanda, restringindo a capacidade de pesquisa de algumas Unidades, aumentando ainda mais a defasagem com os cursos que têm pós-graduação e que têm menor número de estudantes de graduação. É esta a “articulação da graduação com a pós-graduação” a que o REUNI se refere? O PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) reforça isto que levantamos, ao limitar por 10 anos a expansão da folha de pagamento [10].

(3) Sobre o aumento da “taxa de conclusão média dos cursos de graduação”[1] dos atuais 50% para 90%, muitos professores têm apontado que esta meta caminha no sentido de forçar, objetivamente, a aprovação direta dos estudantes. Professores e Unidades da UFRJ têm enfatizado que as razões da permanência dos estudantes além dos prazos estabelecidos dos cursos (isso quando não ocorre o abandono do curso – evasão) estão no alto custo das passagens, na deficiência do transporte, na alimentação cara (sem alternativa, como o Bandejão) e na ausência de alojamento para os que moram longe [11]. O decreto do REUNI não procura diagnosticar as dificuldades enfrentadas pelos estudantes e contempla de maneira vaga a questão da assistência estudantil quando diz “ampliação de políticas de inclusão e assistência estudantil” [1] sem uma efetiva destinação de verbas.

REUNI: mais uma vez o falso argumento dos "privilegiados" da Universidade pública

O decreto do REUNI diz que temos um problema de gestão e é necessário um “melhor aproveitamento da estrutura física e dos recursos humanos existentes nas Universidades Federais” [1]. Nós ouvimos dos últimos governos que os investimentos em Educação favorecem uma parcela mais rica da população (os “privilegiados”), devido ao mau uso da estrutura pública. Porém, o argumento do “privilégio”, na realidade, vem sendo utilizado para RETIRAR (ou para não ampliar na medida de nossas necessidades) verbas da Educação Pública e penalizar os estudantes, que são impedidos de ingressarem ou de se manterem na Universidade. Os dados denunciam: muitos alunos necessitam da assistência estudantil para concluírem seus cursos. 65% dos estudantes têm uma renda média FAMILIAR mensal de até R$1.669,00 e NECESSITAM de algum apoio institucional para sua permanência e conclusão dos cursos [12]. E quem são os verdadeiros privilegiados? 5 mil famílias (somente 0,01% da população) controlam mais de 40% da Riqueza Nacional [13]. Estas se beneficiam da política econômica que prioriza o capital especulativo em detrimento de investimentos na Educação e em outras áreas sociais.

O Bandejão, o alojamento, as bolsas, bibliotecas atualizadas e o transporte são itens decisivos para que possamos nos manter na Universidade. A assistência estudantil não é um favor ou uma concessão, é um direito conquistado e que devemos garantir e ampliar, possibilitando com reais condições a ampliação da Universidade.

O REUNI NÃO É A NOSSA PROPOSTA
PARA A UFRJ


A APG reivindica o cumprimento, por parte da direção da UFRJ, do acordo realizado com os estudantes que ocuparam a Reitoria no dia 15 de junho: suspender a adesão imediata ao REUNI [14], abrir o debate na UFRJ (no segundo semestre, após as férias) e só depois decidir quanto à conveniência ou não em ingressar no Programa.Não há discussão sobre o REUNI na UFRJ: o que se "discute" na UFRJ é a adequação das propostas das Unidades visando à implementação do REUNI. O processo em curso não contempla outras posições existentes na comunidade acadêmica de contestação da adesão ao REUNI, feita por estudantes da graduação e de pós-graduação, por professores e técnicos. Na recente reunião dos estudantes que ocuparam a Reitoria da UFRJ no dia 15 de junho, obteve-se o comprometimento da Reitoria em discutir amplamente a adesão ou não da UFRJ ao REUNI. As discussões seriam realizadas no segundo semestre, quando os estudantes estão na Universidade, após o período de férias. Entretanto, os encontros que foram realizados entre os dias 18 e 22 de junho desvirtuaram o acordo feito com os estudantes na reunião. Estes encontros visaram à apresentação das propostas de adequação das Unidades e Centros ao REUNI e não a anterior e necessária discussão do decreto e suas implicações. Isto pressupõe aceitar a adesão da UFRJ ao REUNI. Além disso, foram dados dois meses para se formular uma proposta (desde a publicação do decreto pelo Governo, em 24 de abril de 2007) e duas semanas pela Comissão formada pela Reitoria, Consuni, CEPG e CEG para adequação ao decreto. Isso não pode ser algo sério, que tenha uma proposta pedagógica coerente. A Reitoria diz que haverá conseqüências muito ruins para a UFRJ se ela não aderir ao REUNI. Mas o que nós devemos discutir são as nefastas conseqüências da adesão ao REUNI, como apontamos acima. É preciso compreender: a adesão significa o compromisso com as metas do REUNI! Alguns membros da comunidade acadêmica, uns por ingenuidade e outros nem tanto, estão nublando esta questão, afirmando que as Unidades só estão aproveitando para apresentar seus projetos e as necessidades que já estavam elaboradas e que não necessariamente precisam seguir as orientações do REUNI. Ora, o decreto No 6.096 é claro: o repasse dos recursos está vinculado ao cumprimento das etapas do projeto [1], ou seja, das metas estabelecidas pelo decreto.

A APG reivindica o cumprimento, por parte da direção da UFRJ, do acordo realizado com os estudantes que ocuparam a Reitoria no dia 15 de junho: suspender a adesão imediata ao REUNI, abrir o debate na UFRJ (no segundo semestre, após as férias) e só depois decidir quanto à conveniência ou não em ingressar no Programa.


A APG tem reivindicado há vários anos que a Universidade realize um diagnóstico, para sermos coerentes com a entrada e garantia de permanência de novos estudantes que tenham uma situação de menor renda. Nas inúmeras reuniões com o Reitor, as Decanias e os Conselhos, nas discussões do Plano de Desenvolvimento da UFRJ (PDI), a APG sempre reivindicou que a UFRJ fizesse uma proposta concreta para ser levada ao MEC. Desta proposta fariam parte a melhoria das condições de permanência dos estudantes (incluindo o Bandejão), o diagnóstico de quais cursos teriam suas vagas ampliadas e quais as mudanças em termos de melhorias estruturais e de ampliação orçamentária e de pessoal seriam necessárias. Mas definitivamente o REUNI não é esta proposta. Na nossa visão, este projeto não fortalece a Universidade Pública, voltada para os interesses do povo brasileiro, impedindo um mínimo de estrutura para receber novas vagas, tão necessárias num país em que mais de 70% dos estudantes pagam Universidades Privadas [15].

No processo de discussão do PDI também não foi realizado um diagnóstico efetivo dos reais problemas da Universidade, ou seja, um levantamento das necessidades para implementar a ampliação de vagas e abertura de cursos noturnos, melhoria de transportes, alojamento, Bandejão e assistência estudantil para evitar a evasão, com propostas de verbas que contemplem a nossa pauta de reivindicações. Essa pauta exigida por estudantes, professores e técnico-administrativos em reuniões, atos, greves, manifestações, ocupações, não tem sido atendida usando-se o argumento de “falta de verbas”, restrição orçamentária e tem sido sistematicamente postergada.

O REUNI, na nossa visão, significa rebaixar a formação universitária, como já foi feito no Brasil com o ensino médio e fundamental públicos. As outras propostas inclusas no PDE, o professor-equivalen-te, a Universidade Nova, a implantação de ciclos básicos (como já é a realidade na nova Universidade Federal do ABC, por exemplo), ensino à distância, ampliação de cursos tecnológicos de nível superior (os chamados Centros Universitários) estão inseridas nas ações do Governo Federal para impor o seu modelo de Universidade a serviço das tecnologias de produção de commodities para exportação (como minérios, petróleo, cana, soja). Em uma sociedade em que o emprego qualificado é cada vez mais escasso e a mão-de-obra barata é o principal fator de atração de capitais, estas medidas reforçam a tendência de ampliação de empregos com baixos salários, regimes trabalhistas precarizados e desemprego cada vez maior entre os universitários e pós-graduados. Para nós é importante também questionar quem se beneficia do ensino e pesquisa realizados pelas Universidades brasileiras. Por exemplo, estudantes que ocuparam a Reitoria da USP denunciaram que a Faculdade de Farmácia era referência na América Latina em medicamentos para doenças tropicais; hoje é referência em cosméticos [17]. A pesquisa científica na área de medicamentos está cada vez mais controlada pela indústria farmacêutica, muitas vezes desenhada fora e vem ao Brasil simplesmente para ser conduzida e, quando muito, aplicada [18].
Nos últimos 10 anos o número de desempregados com nível superior triplicou e os rendimentos destes caíram 26%. Além disso, de todos os empregos criados em dez anos, apenas 6% romperam a barreira dos dois salários mínimos [16].
Os funcionários federais em greve denunciam que a recente “proposta” do governo de transformar os hospitais em Fundações Estatais tende a agravar o quadro na área de saúde (que já vem sofrendo com o aumento de casos de doenças como dengue, tuberculose, leishmaniose, malária, hanseníase, doença de chagas, por exemplo [19]), desvinculando-os do ensino e retirando-os do orçamento do governo para serem financiados pelos serviços que prestarem. Recentemente, estudantes, apoiados por docentes e técnicos, ocuparam a UFAL e denunciaram, entre outras questões, que a Reitoria tentou modificar uma proposta de Escola Agro-técnica, voltada para as necessidades dos trabalhadores rurais, para uma Escola Agro-Industrial, voltada à monocultura da cana-de-açúcar, aos interesses dos usineiros [20]. Não custa lembrar o que significa hoje esta política do etanol como “locomotiva do desenvolvimento” do Brasil: morte de cortadores de cana por excesso de trabalho, que por isso estão em greve em São Paulo para aumentar o piso salarial de R$410,00 (para o corte de 10 toneladas de cana/dia!) para R$1.600,00 e melhoria das condições de trabalho. Isso sem falar que as pesquisas financiadas hoje pela Petrobras (que já tem parte considerável de suas ações pertencente ao capital multinacional) não se revertem em barateamento de gás de cozinha e combustíveis para o povo brasileiro, por exemplo [21].

É neste contexto que somos contra o REUNI. Antes de aceitarmos de forma “realista” o argumento falacioso de que não há verbas para investir nas áreas sociais (o governo federal tem batido recorde atrás de recorde de arrecadação de impostos e contribuições federais [4]) e que não temos força para mudar os rumos do país, a UFRJ deve abrir uma ampla discussão sobre seu próprio projeto educacional. Para isso, precisamos diagnosticar nossos problemas e necessidades para ampliar cursos (inclusive noturnos), assistência estudantil, vagas docentes e de técnico-administrativos para dar o necessário suporte para a melhoria e ampliação da Universidade Pública.

1. REUNI – Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais. Decreto N° 6.096, de 24 de abril de 2007.
2. Na UFRJ esta relação é 9/1 para graduação e 12/1 se incluídos os pós-graduandos.
3. Índice usado para quantificar o corpo docente de acordo com o seu salário: por exemplo, um professor adjunto 40h corresponde a 1,55 equivalentes e um professor substituto 20h a 0,4 equivalentes.
4. “Arrecadação de impostos da União bate recorde”. O Globo 16/03/2007: http://clipping.planejamento.gov.br/Noticias.asp?NOTCod=342985.
5. Folha de informação para discussão preliminar: “Proposta de Ampliação da Oferta de Vagas – UFRJ” – Pró-reitoria de Planejamento e Desenvolvimento – 18/09/2006.
6. Jornal da APG – Setembro de 2006.
7. Proposta Institucional do CFCH para o REUNI: subsídios para o debate sobre a participação da UFRJ – maio de 2007.
8. Entre 2006 e 2007, o número de bolsas de pós-graduação, cedido pela CAPES à UFRJ, manteve-se praticamente constante: 560 bolsas de mestrado e 451 bolsas de doutorado em 2006; 554 bolsas de mestrado e 464 bolsas de doutorado em 2007.
9. Propostas encaminhadas à Reitoria pela FE e FND.
10. Boletim da ADUR-RJ sobre o REUNI – maio de 2007.
11. “REUNI recebe críticas de todos os lados”. Jornal da Adufrj, 12 de junho de 2007.
12. Fonaprace (Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis)
13. Atlas de exclusão social – Os ricos no Brasil. Marcio Pochmann. Editora Cortez, 2004.
14. Metamorfoses na deliberação do CONSUNI impõem o REUNI como fato consumado na UFRJ - Roberto Leher (FE UFRJ) - 20 de maio de 07.
15. Dados do ANDES-SN (Entrevista com o Professor Osvaldo Coggiola no site da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, 2004).
16. Dados do economista Márcio Pochman.
17. Vídeo da ocupação da USP contada por alguns ocupantes: http://ocupacaousp.noblogs.org/category/vdeos.
18. Pesquisa clínica: onde e para quem? - Carta Capital - 9/5/2005.
19. Carta Capital, 12 de junho de 2007.
20. A ocupação da Reitoria da UFAL – Sérgio Lessa (Diretor da ADUFAL) – Jornal da Adufrj, 12 de junho de 2007.
21. Enquanto os cientistas brasileiros desenvolvem tecnologias de ponta para extração de petróleo em águas profundas, a maior parte do que se extrai tem sido exportada no lugar de beneficiar o povo brasileiro com a redução dos preços do gás e combustíveis: antes da quebra do monopólio estatal do petróleo, o gás de cozinha custava R$4,00 (com subsídio de R$1,95 do governo) e hoje custa mais de R$30,00. No Brasil, o preço que pagamos na gasolina contém 22,2% de distribuição, que é feita por empresas multinacionais conhecidas como 7 irmãs. Jornal da APG, dezembro de 2005.
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REÚNICO – para onde descaminha a UFRJ?

Prof. Luis Paulo V. Braga

Para quem acredita que o REUNI é a solução definitiva para o acesso bem sucedido das camadas populares ao ensino superior público, nada mais natural que no dia 19 de julho, dia dos povos oprimidos, se aprovasse no Conselho Universitário da UFRJ(CONSUNI) o relatório elaborado pela Comissão designada pelo Reitor e CONSUNI para avaliar o PDE. Fins tão nobres poderiam justificar, a principio, os meios nada nobres utilizados para conseguir sua aprovação em tempo recorde . Entretanto, o relatório principia admitindo não ter cumprido sua missão principal – avaliar o PDE.

Uma lástima para uma comissão que, dentre vários projetos, aprovou a criação de um curso em Gestão de Políticas Públicas para o Desenvolvimento Econômico e Social, de autoria de um dos membros da própria Comissão. Poderiam ao menos ter lido o documento de análise preparado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Educação (CNTE), filiada à insuspeita CUT, sobre o PDE. Em suas conclusões destaca : "A CNTE entende que um projeto de educação comprometido com a transformação da atual realidade deva partir de algumas premissas elementares, sem as quais seus objetivos acabam se desvirtuando. Dentre elas, destacamos: i) o papel estratégico da educação no projeto de desenvolvimento sustentável para o país; ii) a participação social e; iii) a garantia de plena execução; cabendo ao Estado a condução das políticas públicas e à sociedade o envolvimento pleno nas ações. Embora o Governo tente disseminar a idéia de um plano para a educação vinculado a outro para o desenvolvimento (PAC - Programa de Aceleração do Crescimento), a estrutura de ambos não permite considerá-los projetos de desenvolvimento, uma vez que não tratam de questões estruturais, mas de ações conjunturais e focalizadas – no caso da educação, meritocráticas e duvidosas. Conseqüentemente, ao nosso ver, falta-lhes o caráter sistêmico das políticas públicas, com idéias e eixos de ações interligados às diversas áreas de Estado, visando atingir objetivos e resultados não apenas quantitativos, mas qualitativos; de rompimento paradigmático; de amplo desenvolvimento social e não apenas econômico."

A justificativa apresentada para não avaliar o PDE, restringindo-se a apenas alguns programas (REUNI, Acessibilidade ao Ensino Superior e Banco de Professores Equivalentes), foi o fator tempo para inclusão no orçamento de 2008. Curiosamente a ANDIFES parece não ter a mesma urgência. A Diretoria Executiva da Andifes esteve reunida, na terça-feira (10/07), com o secretário da Educação Superior (SESu/MEC), Ronaldo Mota. O encontro tratou de questões emergenciais das Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes) e do Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Estiveram presentes, também, a diretora do Departamento de Desenvolvimento da Educação Superior (Dedes/SESu), Maria Ieda Costa Diniz, e o secretário-executivo da Andifes, Gustavo Balduíno. O presidente da Andifes, reitor Arquimedes Diógenes Ciloni (UFU), deu início à reunião repassando ao secretário Ronaldo Mota documento elaborado pela Associação com os questionamentos das Ifes a cerca Reuni. O Ministério da Educação analisará as questões apresentadas e oferecerá respostas durante o seminário que realizará no final deste mês (julho) sobre o tema. Sobre essa questão, o professor Arquimedes Ciloni informou, ainda, que a Andifes realizará, no dia 07 de agosto, um seminário interno sobre o Reuni com o objetivo de proporcionar aos dirigentes o amplo debate. Na LXIVª reunião ordinária do Conselho Pleno, que ocorrerá no dia seguinte, será aprovado o conjunto de sugestões da Andifes para o aprimoramento do Reuni. O cuidado e o zelo demonstrado por esses dirigentes contradiz o que consta na página da Universidade Federal da Bahia aonde se afirma que a ANDIFES aprovou o REUNI, infelizmente, a outra notícia – a de que na UFRJ apenas a ESS não havia aderido ao REUNI é verdadeira.

Qualquer dirigente, com um mínimo de experiência e conhecimento de história da educação superior no Brasil, sabe dos efeitos nefastos de planos aprovados a toque de caixa sobre um sistema tão complexo, como o do ensino superior. Não foi por acaso, que o único membro especialista em Educação da Comissão, colocou-se contra a aprovação do relatório pelo CONSUNI, tecendo críticas à metodologia adotada.

Externamente à UFRJ, reitores, membros de conselhos também expressaram suas críticas. O prof. Thompson Fernandes Mariz, Reitor da Universidade Federal de Campina Grande afirma: O que, de imediato, nos preocupa no Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais é a sua meta nada modesta: "a elevação da taxa de conclusão média dos cursos de graduação presenciais para noventa por cento e da relação de alunos de graduação em cursos presenciais por professor para dezoito, ao final de cinco anos". Esta preocupação aumenta bastante quando lembramos que o Decreto em referência é fruto do Plano de Desenvolvimento da Educação – PDE, que tem como escopo a duplicação da oferta de vagas no ensino público superior. Como o Plano de Reestruturação não pode estar descontextualizado do Plano de Aceleração do Crescimento – PAC, que prevê, para os próximos dez anos, uma significativa limitação na expansão das folhas de pagamentos, não permitindo aumento superior a 1,5% por ano, o objetivo do REUNI se revela assustador. Nesta hora percebemos que o aparentemente inquestionável objetivo do REUNI de ampliar o acesso e a permanência na educação superior se dará pelo muitíssimo questionável "melhor aproveitamento da estrutura física e de recursos humanos existentes nas universidades federais". Duplicar a oferta de vagas e aumentar, pelo menos em 50%, o número de concluintes, a partir de um incremento de apenas 20% das atuais verbas de custeio e pessoal (excluídos os inativos!) é a indicação sub-reptícia de que a reestruturação proposta pelo Decreto Nº. 6.096 cobra uma subutilização dos recursos existentes nas Universidades Federais e aponta somente dois caminhos para o cumprimento de sua meta global: a aprovação automática ou a certificação por etapas de formação.Mas será que, para resolver estes problemas, temos que necessariamente optar por uma "diversificação das modalidades de graduação, preferencialmente não voltadas à profissionalização precoce e especializada"? Não estaríamos, assim, indo na contramão do modelo pactuado no Tratado de Bolonha, que propõe uma circulação do conhecimento mais rápida e ampla para conquistar os jovens que estavam fugindo do meio acadêmico para ir para o mercado de trabalho, mais atrativo do que os cinco anos indispensáveis para se obter uma graduação, ou os dez ou doze anos necessários para se formar um doutor? O certo é que a aprovação automática se contrapõe a qualidade sempre defendida para a educação nacional e a certificação por etapas mascara a atual evasão sob o discurso perverso – porque enganoso! – da inclusão social. Não temos dúvidas de que uma saída fácil para o cumprimento da meta de elevar a taxa de conclusão para noventa por cento do ingresso seria optar pela certificação por etapas. Ao aluno que concluir uma etapa de sua formação global dá-se um certificado e contabiliza-se esta certificação como uma conclusão. Alguns egressos da primeira fase de formação migrarão para a fase seguinte de formação, outros, por falta de condições competitivas, "serão migrados" para o mercado de trabalho, precocemente, porque ainda estarão sem uma profissão. Resta saber que tratamento o mercado de trabalho, a cada dia mais competitivo, dará aos egressos do ensino superior que, apesar de poderem demonstrar capacidade de expressão e de raciocínio lógico, conhecimento de ética, política e filosofia, domínio de técnicas da informática, e espírito empreendedor observado na criatividade e flexibilidade de suas iniciativas, não tenham um diploma de graduação, nos moldes estabelecidos pelas Diretrizes Curriculares Nacionais, ainda em vigência, e exigidos pelos Conselhos Profissionais, cada vez mais atuantes na definição do perfil do profissional. Não estamos discordando da necessidade de se reestruturar o ensino superior, de se evitar a evasão desenfreada, de se ocupar as vagas ociosas, de se ampliar a oferta de vagas, notadamente no turno noturno. Tampouco estamos fugindo da responsabilidade que nos cabe neste processo de revisão da estrutura acadêmica e de atualização das metodologias de ensino. Apenas esperamos uma revisão que contemple a adequação das metas do Programa às ferramentas disponibilizadas para o seu cumprimento, para que não caiamos simplesmente na redefinição da função da Universidade. Por fim, fica a pergunta inevitável: para onde caminhará uma Instituição que resolva não aderir ao Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, uma vez que o Ministério da Educação estabelecerá parâmetros de cálculo dos indicadores que compõem a meta global do REUNI?

O presidente do Conselho nacional de Educação, Edson Nunes, em entrevista à Folha Dirigida também expressa suas preocupações: "Os recursos para o Reuni são importantes, mas a parte preocupante é o estímulo à massificação da educação pelo setor público. É preciso investir na excelência do ensino público, mas do que na massificação. Me parece que o próprio Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) não traz estímulos para tal. Somos a décima economia do planeta e as nossas universidades deveriam refletir isso. Temos potencial para isso".


Ora, se os fins nobres do REUNI ainda estão por se esclarecer. O que justificou na UFRJ tanto açodamento na sua aprovação ? Seria mais um caso de os meios justificam os meios ? As metamorfoses da Comissão, tão pertinentemente analisadas pelo prof. Leher em seus antológico artigo no Jornal da ADUFRJ, a ponto de levar o Reitor a abrir uma sindicância, seriam justificadas por verbas que, aparentemente, outras IFES ainda estão por considerar ?

No dia 19 de julho o CONSUNI aprovou, por ampla maioria, um relatório que tem um cronograma de implantação do paradigma da Universidade Nova – grandes ciclos básicos e bacharelados generalistas de curta duração. Sabendo que estas idéias foram rejeitadas, ou não foram discutidas na maioria das unidades, o CONSUNI deu um golpe na comunidade universitária. Por quê tanta determinação em uma corrida se, aparentemente, as outras IFES ainda não estão participando em vista do principio da prudência ?

O orçamento da UFRJ não fecha. É o próprio prof. Levi, Pró-reitor de desenvolvimento, que nos informa que a esperança de eliminar o deficit de custeio de 50 milhões de reais e a realização de investimentos previstos no PDI da ordem de 115 milhões dependem da aprovação do REUNI. Portanto o princípio, o meio e o fim são um só – dinheiro a curto prazo em troca de compromissos a longo prazo. Para o governo federal o REUNI representa dividendos políticos e menos despesas por aluno nas IFES. No entanto para o país, para os alunos e professores representa ensino de menor qualidade, porque se não há mágica nem na prestação de serviços, quanto mais na educação. Diante do quadro caótico em que se encontra mergulhado o governo federal, não constituirá nenhuma surpresa se as negociações sobre o REUNI arrastarem-se por todo o resto do ano, e então teremos gasto nossas energias e tempo em vão, mais uma vez...




EXPANSÃO E REFORMA DA UFRJ:
UMA PROPOSTA ALTERNATIVA PARA O DEBATE



Agnaldo Fernandes (Técnico-administrativo, Decania do CCJE, membro do Consuni)
Albana Lúcia Brito de Azevedo (Técnico-administrativo, Escola de Comunicação)
Alessandra Lopes (discente – Faculdade de Educação)
Gabriel marques (discente, Faculdade de Educação)
Isadora Pereira (discente - Escola de Serviço Social)
Ivy Ana de Carvalho (discente - Escola de Serviço Social)
José Carlos Pereira (Técnico-administrativo, Decania do CT)
Julia Aparecida S. de Paula (discente - Escola de Serviço Social)
Júlia e Sá S. Campos (discente - Escola de Serviço Social)
Leonardo Morgan (Técnico-administrativo – Instituto de Psicologia)
Morena Marques (discente – Escola de Serviço Social)
Prof. Carlos Bessa (Faculdade de Ciências Contábeis)
Prof. Celina Maria de Souza Costa (Diretora do Colégio de Aplicação)
Prof. Gabriela lema Icasuriaga (Escola de serviço Social)
Prof. Jailson A. Santos (Faculdade de Educação)
Prof. Luis Acosta (Escola de Serviço Social)
Prof. Marcos Jardim (Diretor do Instituto de Psicologia)
Prof. Maria Cristina Miranda da Silva (Colégio de Aplicação)
Prof. Maria Magdala Vasconcelos de Araújo (Diretora da Escola de Serviço Social)
Prof. Maria Malta (Faculdade de Economia)
Prof. Mariléa Franco Marinho Inoue (Escola de Serviço Social)
Prof. Mavi Pacheco (Escola de Serviço Social)
Prof. Renato Oliveira (Diretor da Faculdade de Educação)
Prof. Roberto Leher (Faculdade de Educação)
Prof. Sandra Martins de Souza (Colégio de Aplicação)
Prof. Sara Granemann (Escola de Serviço Social)

Em consonância com a mobilização social em prol da ampliação do direito à educação superior pública, a universidade pública deve ser protagônica na ampliação do acesso, buscando, no gozo de sua autonomia, formas que assegurem um real universalismo no acesso, por meio de políticas de democratização que suplantem a falsa meritocracia classista. Também o conteúdo da universidade – no ensino, pesquisa e extensão – deve ser enfrentado e, como corolário, novas formas de auto-organização e de autogoverno devem ser buscadas para que essas transformações tenham a radicalidade necessária.


Apresentação

Após o Decreto do REUNI e o encaminhamento da Comissão instituída pelo CONSUNI para organizar o debate sobre o Plano de Desenvolvimento da Educação/ REUNI na UFRJ – que, no lugar de promover o debate, listou os critérios a serem seguidos para sua adesão – diversas unidades organizaram reuniões amplas para avaliar as referidas medidas. No campus da Praia Vermelha, a Faculdade de Educação, a Escola de Serviço Social, o Instituto de Psicologia e o Colégio de Aplicação, entre outras, realizaram assembléias e reuniões amplas com professores, estudantes e técnico-administrativos. Prevaleceu, nessas unidades, uma avaliação negativa sobre os fundamentos do REUNI e, em especial, sobre a proposta de reestruturação apresentada pela reitoria.

Por ocasião dos debates no campus, vários professores, técnicos-administrativos e estudantes da graduação e da pós-graduação de outras unidades apoiaram a proposta de realização de um seminário que discutiria alternativas ao REUNI e ao projeto da reitoria. Neste encontro, realizado em 26/9/07, os participantes deliberaram organizar grupos de trabalho que pudessem esboçar alternativas ao REUNI e ao documento da reitoria, priorizando a sistematização das propostas de expansão já elaboradas pelas unidades da Praia Vermelha, objetivando reivindicar recursos para 2008 (fora do REUNI), bem como grupos que pudessem sistematizar os seguintes temas: função social da universidade; expansão e democratização do acesso; autonomia universitária; problemas epistemológicos e epistêmicos; financiamento público e infra-estrutura.
A idéia motriz dos participantes foi que, em consonância com a mobilização social em prol da ampliação do direito à educação superior pública, a universidade pública deve ser protagônica na ampliação do acesso, buscando, no gozo de sua autonomia, formas que assegurem um real universalismo no acesso, por meio de políticas de democratização que suplantem a falsa meritocracia classista. Na compreensão dos participantes do seminário, também o conteúdo da universidade – no ensino, pesquisa e extensão – deve ser enfrentado e, como corolário, novas formas de auto-organização e de autogoverno devem ser buscadas para que essas transformações tenham a radicalidade necessária.

A proposta preliminar apresentada no presente documento, sistematizada em 15/10/07, expressa o consenso do coletivo que a elaborou. Até o presente momento, o documento não expressa institucionalmente as unidades que convocaram os dois seminários, pois não houve tempo hábil para submetê-lo às instâncias formais, mas isso não retira seu valor enquanto documento capaz de subsidiar a reforma da UFRJ e a elaboração emergencial de propostas de expansão.

O objetivo do documento não é, portanto, se constituir em um substitutivo ao REUNI a ser votado na sessão do CONSUNI de 18 de outubro. Compreendemos que a melhor alternativa seria que o CONSUNI rejeitasse o contrato de gestão imposto pelo MEC, votando contra a adesão ao REUNI, remetendo, ao mesmo tempo, as propostas contidas no chamado Módulo I para serem reexaminadas pelas unidades, visto que, como salientado, muitas unidades elaboraram suas propostas de expansão considerando os termos do REUNI/ Universidade Nova, pois esta foi a orientação da Comissão que deveria ter se limitado a organizar o debate sobre o tema. É nesse processo de reavaliação sobre as alternativas que o documento ora apresentado ao debate, pode servir como um subsídio.

O leitor observará que o documento trabalha com duas temporalidades: a primeira diz respeito ao orçamento de 2008. O coletivo da Praia Vermelha compreende que a UFRJ tem de apresentar sim uma proposta emergencial de ampliação de vagas, notadamente por meio da ampliação do ensino noturno, com novos concursos e uma robusta política de assistência estudantil, indicando ao MEC e à ANDIFES que a UFRJ quer expandir suas vagas, mas não nos marcos do REUNI/ Universidade Nova, reduzindo o tempo dos cursos de graduação e flexibilizando os currículos a ponto de torná-los referências de cursos de formação geral superficiais e de “pronta entrega”. A segunda temporalidade, mais dilatada, está comprometida com um processo radical de reforma da universidade pública, capaz de modificar, em profundidade, a natureza e o caráter da universidade pública e a sua composição social e étnica.
Em uma primeira seção, a proposta examina a nova versão do PRE-UFRJ apresentada pela reitoria, destacando que, a despeito de um bom diagnóstico do que seria uma agenda política para a universidade, ela permanece prisioneira dos marcos do REUNI. Na segunda, faz encaminhamentos para o CONSUNI assim como recomendações acadêmico-políticas; na terceira, discute a função social da universidade pública; na quarta, faz considerações sobre a autonomia universitária; na quinta, faz propostas objetivas para a ampliação e democratização do acesso; na sexta, apresenta as propostas de assistência estudantil e, finalmente, na sétima, indica a necessidade de mudanças no padrão de financiamento das IFES, de modo a garantir novos concursos e a infra-estrutura necessária para a forte expansão das matrículas das IFES.


I
Análise do PRE-UFRJ – Recomendações Acadêmico-Políticas

A nova versão do “Plano de Reestruturação e Expansão da UFRJ” apresentada pela reitoria para deliberação na sessão extraordinária do Consuni (18/10), embora tenha incorporado algumas sugestões provenientes das audiências públicas, continua, em essência, operacionalizando o Decreto nº 6.096 de 24 de abril de 2007.
A proposta preliminar de fato foi discutida em reuniões e audiências, entretanto, o método de debate não favoreceu a construção ativa de uma proposta que expressasse os anseios da UFRJ, por isso, as críticas aos termos do REUNI não foram incorporadas na nova versão. A comunidade da UFRJ se manifestou criticamente sobre o documento da reitoria, mas na hora de elaborar uma nova proposta foi relegada à condição de expectadora do processo, pois a versão que será examinada pelo CONSUNI foi fruto da decisão monocrática da reitoria.

A reitoria clama por um novo modelo acadêmico, mas poucos têm idéia do que a administração está pensando sobre o tema. As indicações sobre o modelo presentes na versão em discussão sugerem o modelo da Universidade Nova (fim dos departamentos, flexibilidade, bacharelados interdisciplinares com terminalidade breve), mas nada é explícito. Inicialmente, a idéia fundadora era a necessidade da transdiciplinaridade, mas, com os debates, a reitoria abandonou esse fundamento, mas não explicitou quais as principais idéias-força que nortearão o modelo pretendido. As medidas não fazem parte de um projeto com metas e pressupostos claramente expostos.

As “Considerações...” apresentadas pela Reitoria – itens (i) a (ix), nova versão, proposta de resolução, p. 2 – que subsidiam a proposta de adesão da UFRJ ao REUNI por meio do PRE-UFRJ, indicam que existe uma plataforma comum para a construção de um consenso ativo que expresse os anseios dos estudantes, professores e técnicos e administrativos. No entanto, o conteúdo do que é proposto como resolução para o CONSUNI objetivamente cria um fato ao propugnar que somente existe uma única via para avançar nos problemas indicados nas referidas “Considerações”: o REUNI. Com efeito, os seus pontos mais polêmicos e axiais foram mantidos, como:
· as “novas alternativas e trajetórias de formação profissional” e a busca de “novos paradigmas acadêmicos de educação superior” não explicitados (Universidade Nova?);
· a “redefinição da estrutura de organização e de administração acadêmica ...objetivando a gestão (?) do conhecimento”;
· a “redefinição do Plano Diretor de Ocupação da Ilha da Cidade Universitária e reordenamento espacial das unidades acadêmicas”, proposição que, ainda que não explicitamente apresentada, abre a possibilidade de cessão e alienação de patrimônio, como a maior parte do campus da Praia Vermelha; e
· o pressuposto de que os módulos II e III devem ser implementados, quando a quase totalidade da comunidade se posicionou contra os mesmos, atesta o quanto essas proposições seguem estruturando a proposta da reitoria. Considerando o prazo previsto (julho 08) e o método de discussão até aqui adotado, dificilmente os referidos módulos serão discutidos democraticamente.

Com efeito, o bacharelado interdisciplinar (Módulo II) e os cursos de terminalidade breve, pensados como estratégia de ampliação do acesso dos segmentos sociais mais explorados (Módulo III), requerem estudos e debates que dificilmente poderão ser levados a bom termo em prazo tão exíguo.
Outro motivo de intensa preocupação é a orientação de que o novo estatuto e regimento da UFRJ sejam elaborados fora de um processo estatuinte, que tenha como ponto de partida um congresso universitário, restringindo o debate aos conselhos superiores (IX), objetivando implementar a flexibilização curricular pretendida nos módulos II e III – o fundamento da proposta de BI e dos cursos de terminalidade breve – conforme as diretrizes do MEC para a implementação do REUNI (e aqui da Universidade Nova).
A nova versão ressignifica a função do CAp, inserindo-o como dimensão estritamente escolar e técnica, em detrimento de sua função precípua de formação de professores em conjunto com a Faculdade de Educação e demais unidades relacionadas à formação de docentes.
Mesmo em relação ao Módulo I, distintamente do afirmado, o documento preliminar que deu origem a proposta da UFRJ não foi o PDI, mas o relatório elaborado pela Comissão do CONSUNI que, lamentavelmente, induziu as unidades a aceitarem os termos do REUNI ao elaborar um formulário de adesão que teria de ser preenchido em um intervalo de tempo sumamente curto.

Finalmente, o documento parece ocultar os termos gerais do REUNI, como a relação professor-estudante de 1:18 e a taxa de conclusão de 90%. O documento tampouco menciona a ordem de grandeza dos recursos disponibilizados para o REUNI, absolutamente insuficientes, em particular pelo fato de que a maior parte do orçamento do programa será disponibilizado após o mandato do atual presidente da República. Ainda que parcialmente previsto no orçamento (2010-2011), é preciso lembrar o fato óbvio de que, no Brasil, o orçamento apenas autoriza a despesa, mas não garante a sua execução (vide os R$ 5 bilhões contingenciados do FNDCT).
Embora a nova versão preveja uma expansão muito próxima das metas exigidas pelo REUNI (4 mil novas matrículas por ano), é completamente omissa em relação ao fato concreto de que a LOA 2008 não prevê recursos para pessoal, assim como o PAC, por meio do PL 01/07 congela os gastos com pessoal (e as despesas correntes em geral) pelos próximos 10 anos.


Nesse sentido, apresentamos as seguintes recomendações acadêmico-políticas:

1. Considerando que no PRE-UFRJ, apresentado pela Reitoria para análise da Sessão Extraordinária do CONSUNI de 18/10, pontos axiais do Reuni foram mantidos e, ainda, alguns dos projetos oriundos das Unidades contidos no Módulo I, incorporaram as diretrizes do Reuni (conforme ‘Relatório da Comissão para análise do PDE’, criada pela Portaria 1345 e retificada pela Portaria 1440, cf. “Prioridades definidas pela Comissão”) - Recomendamos ao CONSUNI:
a. O voto contrário à aprovação do PRE-UFRJ nos termos da resolução apresentada pela reitoria;
b. Que os projetos contidos no Módulo I retornem para as unidades de origem para reavaliação da comunidade e das congregações;
c. A reelaboração de um novo PRE-UFRJ, fora dos marcos do Reuni, a partir de amplo debate com a comunidade universitária.
2. Recomendamos à ANDIFES que a aprovação de medidas para a expansão em 2008 seja feita apenas com base nos projetos das IFES, fora dos marcos do Reuni, ressaltando que esta entidade deve ter papel crítico e protagônico da defesa da universidade pública;
3. Manifestamos a crítica ao conceito de ‘Terminalidade Breve’, assim como ao uso instrumental da EAD, que expressam mudanças estruturais na universidade brasileira, baseadas em pressupostos muito semelhantes aos do projeto Universidade Nova, não discutidos de forma aprofundada pela comunidade universitária;
4. Manifestamo-nos contrários a intensificação do trabalho docente e dos técnicos administrativos, assim como à utilização de estudantes como substitutos precarizados ao trabalho docente, nos projetos de ‘reestruturação das IFES.
5. Apresentamos uma proposta de debate a propósito da necessária expansão e reforma da UFRJ, que deve ser entendida como uma contribuição que esperamos ser amplamente divulgada e debatida no caminho de um novo PRE-UFRJ que possa de fato expressar os anseios da comunidade universitária.

EXPANSÃO E REFORMA DA UFRJ – o debate necessário

Diante das contradições do REUNI/Universidade Nova, cabe à comunidade universitária interrogar o passado em nome do futuro, por meio da construção de alternativas. Nesse percurso consideramos que os eixos da construção de alternativas reais para as universidades públicas brasileiras devem priorizar o debate dos seguintes temas: função social da universidade; expansão e democratização do acesso; autonomia universitária; problemas epistemológicos e epistêmicos; financiamento público e a infra-estrutura.

II
FUNÇÃO SOCIAL DA UNIVERSIDADE

Não cabe analisar aqui a formação da sociedade brasileira, apenas a constatação de sua posição periférica no sistema interestatal mundial e a extrema desigualdade na distribuição do poder entre seus cidadãos: seja na forma de propriedade, de renda, de meios de difundir as idéias, de acesso aos canais políticos, de produção de conhecimento, etc. Portanto, para ser voltada para o “social”, a universidade não pode apenas referir-se a uma sociedade abstrata, mas buscar transformar essa realidade social segundo certos valores: do humanismo, da igualdade social e da difusão da cidadania para além do seu aspecto mais formal e aparente (o voto).
Restringir a função social da universidade à difusão de técnicas adequadas ao mercado de trabalho e à prestação de serviços de educação à sociedade é, na sociedade concreta, aproximá-la dos interesses imediatos do mercado, mercado este que não está requerendo sequer a formação técnica de alta qualidade, empobrecendo o horizonte da formação humana integral.
O fato de que políticas educacionais deliberadas levaram a universidade pública brasileira a ser uma instituição destinada a uma pequena parcela da juventude, cerca de 3% dos jovens entre 18 e 24 anos é, sem dúvida, inadmissível e por isso não há como pensar em uma função social democrática para a universidade sem a transformação profunda dessa realidade. A estagnação dos investimentos nas instituições públicas do ensino básico e superior e, alternativamente, a expansão vertiginosa da oferta de educação superior privada de caráter empresarial, inclusive com verbas públicas, transformaram a educação superior brasileira em uma das mais injustas do mundo. Os acertados reclamos de movimentos sociais e da juventude pela sua democratização são, portanto, motivo de alento para todos os que compreendem que o acesso a este espaço público de produção e socialização de conhecimento deve ser um direito da cidadania e um dever do Estado.

O Decreto 6096/07 que dispõe sobre o REUNI pretende praticamente dobrar o número de estudantes, mas não altera a ordem de grandeza dos recursos atuais das IFES e não prevê novos concursos para professores e técnicos e administrativos. Não menos grave, o próprio Decreto afirma que os recursos irão depender da disponibilidade orçamentária do MEC! O próprio documento que explicita o REUNI é claro quanto à ordem de grandeza dos recursos: “O total de investimentos projetados para o período de 2008 a 2011 é da ordem de 2 bilhões de reais. O valor acrescido ao orçamento de custeio e pessoal de cada universidade aumentará gradativamente, no período de cinco anos, até atingir, ao final, o montante correspondente a 20% do previsto para 2007”[1], excluindo as verbas de aposentadorias.
Portanto, expandir o acesso é essencial, contudo essa expansão só adquire significado social se for capaz de incluir as camadas mais desfavorecidas e acabar com a exclusão que se dá a partir da diferenciação entre os sem diploma e os com diploma. Se a estas pessoas não são dadas as ferramentas para modificar a realidade opressora na qual vivemos, então não haverá função realmente pública, apenas se ampliará a proporção de incluídos em relação aos excluídos.
Para ser de fato pública, a universidade deve tornar público um conhecimento que por sua vez torne possível alterar as desigualdades na distribuição do poder em todas as dimensões já citadas. Ou seja, deve-se orientar o saber com o objetivo de transformar a sociedade. O PRE-UFRJ/REUNI menciona a necessidade de novas arquiteturas curriculares, mas não explicita que conhecimentos devem ser produzidos, nem como os produzir, ou para que os produzir. Ou seja, a lógica utilitarista e pragmática vigente não é sequer mencionada, assim como os nichos destinados aos negócios que corroém o caráter público da universidade.
Quando a socialização dos saberes é pensada a partir da criação de ciclos de graduação com terminalidade breve, organizados por meio de estratégias semipresenciais, de flexibilização curricular desenvolvida a partir de ciclos básicos comuns, do abandono da profissionalização e da adesão a modelos estrangeiros estabelecidos, as mudanças propostas não se alinham à perspectiva de transformação, profunda e necessária, da sociedade brasileira, mas à adequação aos interesses do mercado.

A nova visão de formação profissional, que vem sendo difundida por meio de documentos como os do FORGRAD (Fórum de Pró-reitores de graduação), defende a ruptura com o modelo fordista, voltado para a especificidade e para a delimitação de competências e habilidades do profissional formado pela universidade. Argumenta-se que hoje o estudante deve ter ampla competência e dominar muitas habilidades, como por exemplo a informática, o conhecimento de gestão, o comando de operações, etc. O que não é dito, porém, é que essa concepção prevê apenas a substituição de um modelo por outro, qual seja, o toyotista, atualmente adotado pelas grandes empresas capitalistas. O modelo de fundo, contudo, é o da escolarização rápida, superficial, pois o pressuposto é que como o mercado é desregulamentado e flexível, uma formação minimalista basta para a grande massa de jovens, o público que fará os bacharelados interdisciplinares de terminalidade breve.

Em vista disso, reorientar a produção do saber e flexibilizar os currículos são medidas que devem ser balizadas por outra filosofia: a de buscar desenvolver, em cada unidade acadêmica, formas de utilizar o conhecimento para alterar as relações opressoras de nossa sociedade. Essa ação transformadora pode ser perseguida de três formas: i) diretamente através da aplicação do conhecimento na realidade social histórica e geograficamente determinadas, ii) produzindo conhecimento comprometido com a solução dos grandes problemas nacionais e iii) através do processo de formação de todos os universitários acerca da realidade histórica e geográfica da qual fazem parte, inserindo-os no tecido social que financia seus estudos e do qual provêm, visando às mudanças segundo os valores humanistas já mencionados. Cada uma dessas formas encontrará suas possibilidades e relevância dependendo da área do conhecimento na qual se insere.

Cabe destacar também que a imersão da universidade na realidade social talvez seja a melhor forma de orientar o conhecimento para um determinado fim sem nenhum dirigismo que estaria necessariamente fadado ao fracasso e à censura da pesquisa.
O diálogo de saberes entre a universidade e os movimentos sociais e as políticas públicas não pode ser episódico, pontual e dependente da iniciativa isolada de grupos dentro e fora da universidade, mas, antes, por meio de atividades sistemáticas, organicamente estruturadas na vida da universidade, por meio da extensão universitária. Todas as atividades de extensão precisam compor o plano de trabalho dos docentes, técnico-administrativos e estudantes.

Por último, cabe salientar que a universidade realmente pública tem de produzir um conhecimento que, principalmente nas ciências humanas, poderá conter um conteúdo propositivo diverso das proposições advindas das universidades dos países centrais, muitas delas comprometidas com o capitalismo acadêmico que as torna instituições pouco autônomas frente aos interesses de corporações. Assim, a produção nas humanidades tem uma dupla importância: não só porque situa o estudante histórica e geograficamente, como define a própria história e geografia a partir de sua pesquisa. A produção e difusão desse saber são essenciais para formar o cidadão politizado.

Assim, a socialização da Universidade não se restringe, apenas, à universalização do acesso, mas pressupõe a inserção desta universidade em um determinado contexto social. O argumento de que essa não é tarefa da universidade e sim da sociedade, do sistema educacional como um todo, tem uma razão parcial. Mas é justamente a nossa especificidade histórica que nos permite afirmar que uma vez que essa formação não ocorreu, a universidade, como um centro de criação e difusão do conhecimento, deve assumir para si também esse papel.

Cabe lembrar que o objetivo central de toda a luta política em prol da educação pública é a estreita articulação da educação superior com a educação básica, o oposto do que é pretendido pelo decreto do Reuni, dirigido, na prática, para a reestruturação e a expansão das universidades.

Em suma, a produção de conhecimento novo e sua socialização, com base em outras perspectivas epistemológicas e epistêmicas que não as eurocêntricas, objetivam uma universidade cuja função social é contribuir para forjar o público frente aos privilégios do privado-mercantil, por meio da radical desmercantilização do conhecimento, compreendido aqui como um direito humano fundamental.

III
AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA


O desenvolvimento contemporâneo das forças produtivas, criou as condições que possibilitaram a mercantilização das atividades culturais, processo este que se expressa de forma mistificada no debate conhecido como cultura pós-moderna. Com efeito, uma das vertentes deste debate tem como ponto de partida o relatório do filósofo francês Lyotard[2] para o Conselho das Universidades do governo de Quebec, no Canadá, publicado no ano de 1979. Aquilo que no projeto "Universidade Necessária" é designado como transdisciplinariedade (e na Universidade Nova está sendo chamado de interdisciplinaridade), para além do debate epistemológico, é na verdade uma tentativa de embalar os cursos de curta duração, tidos como a universidade necessária para o capital em países capitalistas dependentes, em um envólucro mais palatável para os professores e estudantes, aqui ressignificados, respectivamente, como empreendedores e consumidores.

A base material que possibilita o surgimento da "Universidade de serviços" é a chamada sociedade do conhecimento que concebe a universidade como empresa prestadora de serviços através de contratos de gestão e de parcerias público-privadas.

Esse processo de subordinação da universidade à sociedade do conhecimento colide frontalmente com o que pode ser denominado como "Universidade Latino-americana", a universidade surgida com o movimento reformista de Córdoba no ano de 1918, pautada pelos princípios da autonomia e do governo compartilhado. Esse ideário também foi assumido, a partir da década de 1960, pela União Nacional de Estudantes (UNE) através da greve conhecida como a “greve do terço” que lutava pelo governo compartilhado da universidade, movimento abortado pela ditadura de 1964 e particularmente pelo giro reacionário do emblemático ano de 1968. Naquele movimento reformista estavam unidas a Reforma Universitária junto com a Reforma Social, indicando claramente que as demandas por autonomia e co-governo não eram propostas de isolamento ou de cercar a universidade numa "torre de marfim". A articulação da Universidade com a sociedade era veiculada pela prática da extensão universitária que fazia parte do núcleo das propostas do movimento reformista.

Nossa proposta reivindica a melhor tradição reformista latino-americana propondo mudanças na universidade numa perspectiva de avanço da causa democrática em benefício da maioria da população. Para isto é necessário partir de uma definição da autonomia universitária, não pelo critério dos contratos de gestão, mas pelo direito e pelo poder de definir suas normas de formação, docência, pesquisa e extensão. Neste sentido, a autonomia precisa ser entendida em três sentidos principais: a) como autonomia institucional ou de política acadêmica; b) como autonomia intelectual; e c) como autonomia de gestão financeira. Com esta compreensão, é que deve ser entendido o artigo 207 da norma constitucional que consagra a autonomia universitária de um modo pleno, sem necessidade de lei complementar:

“As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão".
Entendemos que a autonomia universitária é indissociável da democracia interna das IES, tendo sido, ao longo da história do Movimento Docente, uma de suas principais bandeiras de luta. Da conceituação de autonomia universitária depende a definição do financiamento, da carreira docente, da política de pessoal, do regime jurídico (reconhecendo-a como `ente jurídico peculiar`, capaz de autonormação e auto-gestão), do processo de escolha de dirigentes, da avaliação, entre outros. O autogoverno com ampla participação estudantil e dos funcionários técnico-administrativos (e de setores da sociedade) precisará ser aperfeiçoado para poder realizar uma gestão democrática, sem menosprezar a eficácia e eficiência administrativa.

Para sua plena efetivação, a autonomia universitária requer não somente que a universidade estabeleça seus próprios princípios de ação como também determine procedimentos de controle da mesma. Se observarmos o quadro atual, veremos que as universidades federais, em particular, têm sua “autonomia” comprometida, porquanto o MEC, na trilha dos organismos financeiros internacionais, impõe às mesmas diretrizes que devem ser seguidas, bem como estabelece padrões de controle heteronômicos das atividades acadêmicas.

Com relação especificamente à autonomia de gestão “financeira”, observam-se na UFRJ casos em que alguns setores são, de fato, ‘soberanos’. Seus orçamentos respectivos não são considerados no orçamento geral da universidade (somente são contabilizados os 5% que repassam às fundações). Como a UFRJ pode autonomamente estabelecer políticas de recursos humanos, se os programas de algumas unidades estabelecem quadros remuneratórios diferenciados? Trata-se de um processo de privatização ‘endógena’ da universidade pública. Desse modo, as fundações (que são de natureza privada) também afrontam a autonomia da universidade pública.

Do ponto de vista interno, a “autonomia” pode estender-se aos diferentes Centros e Unidades da universidade, através do fortalecimento dos colegiados e demais espaços públicos, concebidos aqui como esferas que praticam o autogoverno compartilhado da universidade.

Finalmente, mas não menos importante, a autonomia se expressa pela prerrogativa da autonormação. A Constituição assegurou às universidades a faculdade de elaborar as suas próprias leis, por meio do Estatuto, referenciadas exclusivamente nos termos da Carta Magna. Nenhuma lei infra-constitucional que regulamente a vida universitária retirando o amplo grau de autonomia assegurado pela Carta pode tolher a escrita da lei interna dos entes universitários. Por isso, compreendemos que o processo de elaboração do Estatuto é um momento constituinte para a vida acadêmica. Objetivamente, o Estatuto da UFRJ está incrustrado de heteronomias e precisa ser substituído por um novo conjunto de leis internas. A realização de um amplo e democrático congresso interno é a melhor forma de iniciarmos um processo estatuinte que resulte em uma universidade reformada, autônoma frente aos governos, credos religiosos, aos interesses do mercado, concebidas como espaços públicos de produção e socialização de conhecimentos comprometidos com os problemas nacionais.

IV
AMPLIAÇÃO E DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO


A democratização do acesso ao ensino superior público é reivindicada há décadas pelos movimentos sociais. Todavia, apenas 3% dos jovens entre 18 e 24 anos estudam em universidades públicas hoje. As estatísticas confirmam a afirmativa encontrada em documento do Andes-SN[3] no sentido de que o ingresso, e o seguimento aos estudos, em instituições públicas e gratuitas de educação superior não estão ao alcance da esmagadora maioria da sociedade brasileira; note-se, uma sociedade capitalista dependente orientada por políticas macroeconômicas que perpetuam e aprofundam desigualdades existentes.

Observa-se que a desigualdade mencionada é justamente um dos fatores que contribui para que grande parte da população – em especial a população de baixa renda – não tenha acesso ao ensino superior. Os impedimentos apresentam-se desde a criança que não pode dar seguimento aos estudos na educação básica, pois necessita trabalhar para ajudar na economia doméstica, até o adolescente que ao concluir o ensino médio não obtêm uma vaga no afunilado sistema público superior, assim como não dispõe de dinheiro para assegurar uma vaga no crescente sistema privado de educação superior.

Frente a tal quadro, não há de ser por meio de políticas neoliberais – exatamente as que se encontram nas origens de tal conjuntura – que poderemos alcançar transformações que venham de encontro aos anseios dos movimentos sociais. Pelo contrário, tais políticas só fazem ampliar a exclusão a que determinados segmentos da sociedade estão sujeitos. Exclusão que não lhes assegura o direito básico à educação pública de qualidade.

Medidas urgentes na direção de se conseguir a universalização do acesso ao nível de ensino superior são necessárias, como afirma de forma contundente o PNE – Sociedade Brasileira. A democratização almejada não deve, contudo, apoiar-se em um universalismo falacioso, ignorante das desigualdades que atravessam e dão contornos específicos à constituição das classes sociais no Brasil. O pertencimento à determinada classe social e a determinadas etnias condicionam os direitos a que os cidadãos terão acesso, tornando imprescindível a elaboração de políticas afirmativas no intuito de garantir condições para que as políticas universais não sejam uma mera carta de boas intenções nunca realizável. O universalismo em uma sociedade de classes requer que os explorados e expropriados possam ter acesso real ao que de melhor existe em termos de políticas públicas. E é nesse sentido que pensamos as políticas de democratização do acesso das classes populares às universidades públicas.

Políticas de democratização do acesso e políticas para a Educação Básica

No PNE da Sociedade Brasileira (1997), elaborado coletivamente por setores da sociedade civil comprometidos com a educação pública, compreendendo inúmeras instituições e entidades representativas por meio de debates sistemáticos em seminários locais, regionais e nacionais, a democratização do acesso ao nível superior público já estava pautada. Objetivava-se a inserção de 40% da população entre 18 e 24 anos, inclusive os alunos com necessidades especiais, em instituições de ensino superior, no intervalo de dez anos.

O plano apresentou como diretrizes: a expansão da rede pública, atentando para as desigualdades regionais – e sociais – do país no sentido de diminuí-las, assegurando-se recursos para o pleno aproveitamento da capacidade física instalada para o ensino, pesquisa e extensão; a garantia de condições materiais para o desenvolvimento acadêmico do estudante universitário, tais como alimentação, transporte, moradia e disponibilidade de material de estudo aos que necessitassem.

A realização da meta proposta, por meio das diretrizes apresentadas, não poderia desconsiderar, assim como está no documento do Andes-SN, a oferta de educação básica de qualidade, observando-se a prioridade desta em locais de maior exclusão estrutural. Essas escolas públicas, em vista das demandas a que iriam de encontro, deveriam contar com apoio federal para que fossem asseguradas as condições necessárias a seu pleno funcionamento. Universidades públicas estariam sistematicamente acompanhando e dando suporte às mesmas. O referido documento defende, ainda, que essas universidades, no gozo de sua autonomia, deveriam formular estratégias para que descendentes dos povos originários, comunidades quilombolas e movimentos sociais do campo pudessem ter assegurado seu acesso. Dessa forma, esses segmentos sociais contariam com imprescindível fortalecimento às iniciativas de ocupação democrática do território. Observa, também, a extinção progressiva dos processos seletivos por meio do vestibular e a implementação de um sistema de avaliações realizadas pelas instituições de ensino superior em articulação com as redes de ensino básico.

É importante acrescentar que, ainda que teoricamente o ensino fundamental público (crianças de 7 a 14 anos) tenha sido universalizado, na prática as escolas não têm conseguido assegurar um padrão de qualidade que permita aos estudantes uma escolaridade média com 8 anos de ensino. No Brasil, há 170 mil escolas públicas – e apenas 47% têm quatro horas (ou mais) de aulas por dia. O acesso formal por si só não elimina as dificuldades para o aprendizado. Também no ensino médio o quadro não é diferente. Por isso, toda e qualquer política que caminhe na direção de um futuro acesso universal ao ensino superior público, não deve prescindir de uma política de valorização do ensino básico.

No PRE-UFRJ apresentado pela Reitoria para deliberação do Consuni em 18/10/07, propõe-se a retomada da “discussão, com vistas a uma deliberação sobre o assunto em prazo não superior a oito meses, do Programa Piloto de Acesso aos Cursos de Graduação da UFRJ para a Rede pública Estadual, elaborado pela PR1, apresentado nos Centros, discutido no CEG em 26 de outubro de 2005 e encaminhado às unidades para consulta”. É preciso ressaltar que o programa proposto pela PR1, na época, estava atrelado ao programa governamental “Sucesso Escolar”, onde apenas as escolas que haviam aderido a este programa estariam aptas a participar, o que gerou grande polêmica no CEG.

Cabe ainda destacar que, conforme documento ‘Anexo V’ do “Relatório da Comissão para análise do PDE” criada pela Portaria 1345 (cf. “Dados da Graduação”) a UFRJ oferece hoje 6.618 vagas de graduação e, dentre estas, apenas 684 são destinadas exclusivamente aos cursos noturnos (Direito, Bacharelado em Educação Física, Dança, História, Pedagogia, serviço Social e Licenciaturas em Física, Geografia, Matemática, Química e Ciências Biológicas), além de cerca de mais 200 vagas compartilhadas entre os turnos diurno e noturno. Tais dados demonstram que a UFRJ carece, ainda, de uma expansão significativa dos seus cursos noturnos.

Assim, na direção da universalização do acesso, como proposta alternativa ao PRE-UFRJ, indicamos:

3.1.1) Construção de alternativas ao processo seletivo do vestibular, considerando, para isso, as metas de crescimento da oferta da educação superior pública e gratuita. A meta deve ser a extinção progressiva do vestibular por meio de avaliações realizadas pelas instituições de ensino superior em articulação com as redes de ensino básico a fim de que seja garantido acesso diferenciado aos estudantes provenientes das escolas da rede conforme definição dos colegiados competentes;

3.1.2) Como parte desta estratégia, a UFRJ deve firmar convênio com escolas de ensino básico da rede pública, preferencialmente em locais de grande exclusão social. Estas escolas devem ser permanentemente acompanhadas por grupo de professores, estudantes e técnicos e administrativos da UFRJ que devem desenvolver obrigatoriamente programas de suporte pedagógico sistemático a essas escolas, por exemplo por meio de cursos de extensão ou de vinculação à formação de professores, articulando as unidades de origem, FE e CAp;

3.1.3) Na busca de estratégias para assegurar acesso a descendentes dos povos originários, às comunidades quilombolas e a movimentos sociais do campo, constituir grupo de trabalho composto por professores, estudantes e funcionários técnicos e administrativos dos diferentes centros da UFRJ, para elaborar propostas de políticas afirmativas de inclusão, por exemplo cursos específicos de graduação para esses setores a exemplo do que já ocorre em outras universidades públicas no país;

3.1.4) Ampliação dos cursos noturnos na UFRJ.

V
ASSISTÊNCIA ESTUDANTIL


As orientações para a assistência estudantil partem do diagnóstico e de proposições sistematizadas em documento da PR-1: Política de Assistência ao Estudante, compreendendo as seguintes prioridades:

1. Política de Acolhimento e instalação dos alunos de graduação e pós-graduação - deverá envolver as unidades com incumbência de promover uma atividade semestral para alunos estrangeiros e residentes fora do estado, que abordem questões legais, culturais e sociais. As informações sobre redes de serviços de apoio deverão estar atualizadas e ser divulgadas semestralmente.

2. Cursos gratuitos de línguas para os universitários, incluindo curso de português para estrangeiros. – Os estudantes das categorias C, D e E são os que têm menor domínio da língua estrangeira, apenas 14,7% apresentam um bom domínio da língua inglesa (FONAPRACE, 2006). Sugerimos ampla divulgação dos referidos cursos junto as unidades a serem informadas nas atividades desenvolvidas junto aos alunos estrangeiros.

3. Política de Assistência à saúde de alunos de graduação e pós-graduação – Segundo os dados da (FONAPRACE, 2003/04) 37% dos jovens universitários da classe C, D e E necessitam de assistência da saúde pública. Ademais, “ 36,95% dos estudantes das IFES apresentam necessidades significativas ou crise emocional durante o último ano do curso e 39,5% foram acometidos por dificuldades emocionais no início do curso” (FONAPRACE, 2003/04). Propomos a criação de uma política de atendimento envolvendo o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, Maternidade Escola da UFRJ/ Hospital Moncorvo Filho/Instituto de Puericultura Matargão Gesteira/Instituto de Psiquiatria/Instituto de Neurologia/ Instituto de Psicologia/ Divisão de Saúde do Trabalhador. Neste sentido a DVST deve ser a porta de acesso ao estudante que referenciará as demais unidades de saúde da UFRJ à assistência especializada necessária.

4. Comissão de Acompanhamento Acadêmico – Identificar o processo de implementação das COAAs nas diversas unidades de ensino da UFRJ e estimular a criação onde não exista, destacando a importância do trabalho das COAAS e recuperando a figura do professor orientador de turmas.

5. Alojamento – A UFRJ possui 43.187 alunos matriculados em seus cursos de graduação e pós-graduação strito sensu, contabilizando os alunos estrangeiros, para os quais oferece, apenas, 504 vagas no alojamento universitário. Segundo dados de uma pesquisa desenvolvida pelo Fórum Nacional dos Pró-Reitores as universidades federais brasileiras, as unidades públicas de ensino superior devem ofertar 30,5% (FONAPRACE, 2003/04) de vagas em alojamento aos estudantes que apresentam necessidade de moradia. No caso da UFRJ o quantitativo seria de 13.172 alojados, existe, pois, um déficit quantitativo de 12.668 vagas para alojamento na UFRJ.

6. Evasão e Vagas Ociosas – Identificar os motivos da evasão e sugerir medidas pra a s
uperação da evasão escolar na UFRJ.

7. Restaurante Universitário – 24,7 % (FONAPRACE, 2003/04) de estudantes da classe C,D e E das universidades públicas requerem os serviços do Restaurante Universitário a preços subsidiados para suprirem sua necessidade básica de alimentação e, poderem viver a dinâmica acadêmica, “contribuindo para seu melhor desempenho e formação integral” (FONAPRACE, 2006). No caso específico da UFRJ, significa criar 10.667 refeições diárias.

8. Bolsas – Nas Unidades Públicas de Ensino Superior 35,4% (FONAPRACE, 2003/04) dos estudantes das clasees C, D, e E exercem atividades não acadêmicas remuneradas para poderem cursar a universidade e/ou contribuírem com a renda familiar. Tendo em vista garantir a qualidade do desempenho discente a UFRJ, deve oferecer bolsas equivalentes a demanda por recursos econômicos. Neste sentido, deve-se aumentar o número de bolsas (auxílio, apoio, monitoria, iniciação artística e cultural, Laboratório de Informática de Graduação, Programa de Educação Tutorial, Iniciação Científica e Extensão)da UFRJ de 5.028 para 10.260.

A ampliação e distribuição do número de bolsas existentes na UFRJ considerando os seguintes critérios:
· priorizar as Unidades que apresentam maior número de alunos sem bolsa;
· considerar as Unidades com maior número de baixa renda;
· oferecer maior número de bolsas às Unidades que não tenham sido contempladas com bolsas oriundas dos Projetos financiados por editais em áreas específicas.
· No caso de empate na seleção de bolsistas priorizar os alunos baixa renda.

9. Acessibilidade – Investir no combate às barreiras atitudinais[4] e físicas[5], em todas as instâncias da UFRJ a começar pelo Vestibular.

10. Implementar um posto avançado da DAE no Campus da Praia Vermelha, em articulação com a ESS/UFRJ.

11. Transporte – A maioria dos estudantes das IFES (59,9% - FONAPRACE, 2003/04) utiliza transporte coletivo para deslocamento até a universidade. Destacamos a necessidade de promover “políticas articuladas com órgãos responsáveis pelo transporte urbano a fim de melhorar os índices de freqüência por intermédio da redução do gasto com transporte” (FONAPRACE, 2006), uma vez que boa parte dos recursos dos estudantes são gastos de transporte. Sugerimos a adoção do Tíquete Transporte UFRJ, para alunos incluídos no Programa de Assistência Estudantil. A UFRJ, pode viabilizar o recurso por intermédio de uma Política de Acesso Gratuito ao Transporte Urbano junto ao Governo do Estado e as Empresas de Transporte .

12. Acesso a Biblioteca e Laboratórios de Informática - Os dados da (FONAPRACE, 2006) revelam que 65,4% dos estudantes utilizam as bibliotecas para consultas acadêmicas. O potencial a ser explorado pelas Bibliotecas Universitárias é dificultado mediante o limite de horário de atendimento e a viabilização de novas tecnologias de acesso a informação. Existe ainda um déficit na área de informática de 56,1% de estudantes ainda sem acesso, diretamente relacionados à posse do equipamento e neste sentido cabe à Universidade ampliar a políticas de inclusão digital junto aos estudantes das categorias C, D e E, uma vez que 43,1% raramente utiliza a Internet e 10,1% nunca utilizou (FONAPRACE, 2003/04).

13. Acesso a Cultura, esporte e Lazer – “ampliação dos programas culturais, esportivos e de lazer, promovidos pelas IFES para a comunidade interna/esterna, estimulando a participação dos estudantes nesses programas”. (FONAPRACE, 2006)
As medidas aqui elencadas são compreendidas como estratégias para que o acesso e a permanência dos estudantes sejam materialmente garantidas como um dever do Estado. Todas essas orientações compõem um plano de ação universalista que assegure a todos a plena assistencia estudantil. As prioridades aqui indicadas objetivam, por conseguinte, a generalização desse direito fundamental dos estudantes.

VI
ORIENTAÇÕES GERAIS


Considerando (que):
· A universidade pública deve fazer parte da vida de toda metrópole do Rio de Janeiro e de seu interior, atendendo amplamente e indistintamente toda a comunidade que vive nas mais variadas regiões, independentemente de suas características pessoais, humanas ou sociais, reforçando o sentido amplo de seu caráter público.

· A necessidade de se romper com a lógica patrimonialista da distribuição espacial dos cursos de graduação, pós-graduação e extensão, bem como dos laboratórios e grupos de pesquisa, gabinetes de professores e espaços dedicados a administração e bibliotecas em toda a UFRJ;

· A necessidade de espaços de convivência e um ordenamento espacial que facilite a interação entre estudantes, professores e técnicos-administrativos da UFRJ;

· A importância da interação de saberes na perspectiva da totalidade na formulação e difusão do conhecimento no sistema universitário público brasileiro;

· A necessidade de preservar o patrimônio histórico nacional, especialmente aquele de responsabilidade da UFRJ;

Propomos aqui as seguintes tarefas imediatas:

· Promover amplo debate entre as unidades para a identificação de campos de diálogos interdisciplinares.
· A partir da discussão coletiva, cada unidade formular, de acordo com seus conhecimentos específicos, currículos que abram espaço para os diálogos e interações curriculares.
· Formular propostas de cursos de graduação que permitam a articulação de unidades afins que possam dividir as responsabilidades técnicas, acadêmicas e administrativas sobre os cursos. Tais cursos devem respeitar a duração e os padrões de excelência identificados coletivamente como adequados para a universidade pública e para a UFRJ.
· Discutir a possibilidade de coordenação conjunta dos cursos já existentes cuja responsabilidade acadêmica já esteja estabelecida.
· Respeitar e estimular iniciativas de integração acadêmica entre unidades por meio de criação e manutenção de laboratórios de pesquisa, seminários e atividades de extensão.
· Ampliar o número de vagas professores e técnicos-administrativos por meio de concurso público, objetivando manter a dedicação exclusiva como uma condição para a garantia da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.

Atualmente as 52 universidades federais (e mais as novas universidades que estão em processo de implementação) possuem, em conjunto, um orçamento próximo do dobro do orçamento das três universidade paulistas. A questão do financiamento, obviamente, é uma condição necessária para que a ampliação das vagas das universidades federais não repita a trágica história da educação básica pública: quando o sistema foi massificado, não houve acréscimos correspondentes de recursos, criando um sistema pobre para os pobres. Essa é a essência do REUNI/ Universidade Nova.

O orçamento previsto sequer arranha o problema do financiamento. Para 2008 a LOA prevê apenas R$ 480 milhões, cerca de R$ 9 milhões por instituição. Apenas para efeito de comparação, a dívida da UFRJ com fornecedores ultrapassa R% 52 milhões! Não é casual que o orçamento de 2008 impede a contratação de professores e técnico-administrativos. O custo-aluno/ano previsto no REUNI é de R$ 5 mil. Em 2003, conforme o TCU o custo estimado foi de R$ 9,7 mil. Está evidente, também, que o REUNI pretende explorar as possibilidades do banco de professores-equivalentes para ampliar a contratação de professores em tempo parcial. O custo-docente estimado no referido programa é de R$ 4 mil, o que permite antever uma universidade com docentes de 20h e 40h sem D.E, professores adequados ao modelo do “escolão”. Não menos significativo, 56% do orçamento do REUNI será liberado apenas no futuro governo federal!

A UFRJ, em conjunto com as demais IFES, deve apresentar a sua política autônoma de ampliação, elaborando uma planilha clara dos recursos necessários para uma expansão com elevado rigor, garantindo indissociabilidade, remuneração digna aos seus servidores, assistência estudantil universal, recuperação da infra-estrutura e aporte de verbas para pesquisas que não estejam prisioneiras dos editais heteronômicos.

Esses objetivos exigirão forte protagonismo de nossa comunidade. Por isso, é crucial que a construção do processo de reforma seja ao mesmo tempo um movimento que unifique todos os membros da comunidade comprometidos com a causa da educação pública. Esse é o objetivo maior dessa proposta preliminar. Os milhões de estudantes que reivindicam a universidade pública esperam essa atitude altiva da comunidade universitária. Não temos o direito de disperdiçar essa oportunidade de reformar, no sentido do público, as nossas universidades!

[1] Documento Elaborado pelo Grupo Assessor nomeado pela Portaria nº 552 SESu/MEC, de 25 de junho de 2007, em complemento ao art. 1º §2º do Decreto Presidencial nº 6.096, de 24 de abril de 2007.
[2] Jean-François Lyotard. "A condição pós-moderna". 6a. edição. Rio de Janeiro: José Olympio. 2000.
[3] “Agenda para a Educação Superior: uma proposta do ANDES-SN para o Brasil de hoje”. Brasília, 2005.
[4] As barreiras atitudinais são aquelas que se referencem aos impedimentos oriundos de preconceitos que impedem o exercício da cidadania no uso amplo do ambiente e serviços oferecidos pela UFRJ.
[5] Se referem aos impedimentos de circulação e uso de espaços ou mobiliários coletivos na UFRJ.


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