Jogos Ideológicos nas Universidades Federais
Luis Paulo Vieira Braga
A Diretora da Faculdade de Educação da UFRJ, segundo entrevista publicada no jornal da ADUFRJ, afirma que a universidade apostou na democratização a partir da adoção do ENEM como única forma de ingresso na universidade1. Aparentemente a professora sugere que no verso da moeda tem-se a elitização como alternativa. Visão oposta tem um professor do Hospital Universitário que em carta aberta2 distribuída pela internet acusa essa política de banalizar a vocação de excelência da universidade. Parece que finalmente começamos a ter na universidade um debate que não se limita apenas a vagas no estacionamento, assaltos e outras mazelas do cotidiano no campus.
A educadora prossegue na sua defesa da decisão tomada, justificando, em parte, os métodos adotados que atropelaram o Conselho de Ensino de Graduação, colocando nas mãos do CONSUNI a responsabilidade pela mudança3. Nada que surpreenda os observadores mais atentos à dinâmica do CONSUNI, aonde a Reitoria conquistou a maioria dos conselheiros, assegurando sucessivas vitórias em temas polêmicos como REUNI, Plano Diretor e finalmente o vestibular. Algo que passa desapercebido na visão do ilustre pesquisador e que reflete a alienação de boa parte da categoria docente em relação ao preenchimentos de cargos nos diversos conselhos da universidade, que enfim tomam as decisões. A fatura pelo comodismo, pela omissão política acaba de chegar. Não sei se é o caso do ilustre professor, mas para todos aqueles que praticaram o escambo político, trocando seus votos por bônus tais como obras, vagas, facilidades diversas, para esses também a fatura está chegando.
A educadora prefere a quantidade à qualidade, no que diz respeito à seleção, refletindo as metas para o ensino superior dos dirigentes do MEC, que também são militantes políticos com um projeto esquerdista para a educação e para o país. A formação de elites, obviamente necessárias, sempre foi uma fraqueza dos regimes coletivistas, o colapso da produção acadêmica na Venezuela é mais um exemplo recente dessa deficiência. O remédio apresentado pela professora é um esquema que combina assistencialismo com introdução aos estudos superiores. Por outro lado, a visão acadêmica do neurologista é aquela consagrada pelas velhas agências CAPES e CNPq – publicar em periódicos indexados, com altos índices de impacto4 - que reduziu a diversidade do trabalho acadêmico a somente uma variável dominante, relegando a um plano secundário o ensino e a extensão.
Temos, portanto, de um lado uma visão de universidade popular, e de outro o de uma visão de universidade de pesquisa. Atualmente essas duas visões convivem de forma paralela mas se aproxima o momento do ajuste de contas. Os ingredientes adicionais são explosivos: técnicos administrativos em greve há mais de 60 dias; docentes das IFES indicando greve; obras do REUNI atrasadas num contexto de contingenciamento de despesas; levas de novos alunos chegando de todos os quadrantes em todos os horários e uma gestão bizantina para a velocidade dos desafios.
1 “A UFRJ optou por uma aposta na democratização a partir da adoção do ENEM como única forma de ingresso na universidade”
2 carta aberta do Professor Maurice Vincent, do HU da UFRJ
3 “O CONSUNI votou. Os representantes do CONSUNI poderiam ter rejeitado a proposta pelo fato de ela não ter passado no CEG. A maioria aprovou a decisão.”
4 “Pertenço ao corpo editorial de várias revistas científicas. A mais importante delas, onde participo como editor associado, é a Cephalalgia,revista científica com índice de impacto de 4.265 (28º lugar entre 185 revistas de neurologia no mundo, 57º entre 237 de neurociências). Hoje, para dar um exemplo, tenho 3 artigos simultameamente submetidos a ela, que aguardam a decisão dos revisores para eventual publicação. O meu h-index, um índice do Institute of Scientific information (ISI) que mede o impacto pessoal das publicações de um autor em ciência, é 12, nada mau.”