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quinta-feira, julho 28 2011 - 02:42
A Segunda Ponte
(Ou como transformar um campus em um parque tecnológico)
Luis Paulo Vieira Braga
Campi universitários, em maior ou menor grau, são vistos como territórios mais ou menos livres, aonde podem acontecer eventos inusitados, sem que isso represente uma ameaça maior à sociedade. Pelo contrário, o instituto da autonomia para as universidades é uma chancela que a sociedade outorga a essas instituições exatamente para experimentarem, inovarem, criarem, enfim usufruírem de uma liberdade que não seria funcional em uma indústria ou repartição pública. Evidentemente a liberdade não poderia ser absoluta e foram estabelecidos mecanismos de avaliação e acompanhamento da produção e desempenho da academia. Da mesma forma procedimentos como estágios, residências, programas de extensão buscam estabelecer vínculos com a sociedade real, preparando melhor os alunos, permitindo a professores e técnicos testar e aprimorar suas idéias, enfim evitando um excessivo isolamento do mundo. Assim muitas universidades no mundo abriram seus campi a empresas, aonde professores e alunos poderiam mais facilmente interagir no desenvolvimento de novos produtos e processos. Nos países desenvolvidos, com forte tradição universitária, a formatação dessa ocupação se deu com a preservação da academia. Já nos países em desenvolvimento, ávidos por queimar etapas, com orçamentos desiquilibrados, sem muita tradição acadêmica, a intervenção do governo ou da indústria nas universidades vem se dando de acordo com procedimentos pouco ortodoxos.
Um exemplo disso no Brasil é a evolução do campus do Fundão da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ainda no regime militar foram instalados o CENPES(1968) e o CEPEL(1972) no centro da Ilha, entre os prédios do CCS e do CT-CCMN-CLA, e depois o CETEM(1978) próximo ao prédio da Faculdade de Arquitetura, aonde até hoje inadequadamente funciona a Reitoria da Universidade. Portanto, o indesejável imbricamento de unidades de ensino e pesquisa com unidades de produção, que não é visto em nenhum campus de renome no mundo, vem do período autoritário, durante o qual não se permitia muita contestação às decisões do executivo que, por seu lado, via no desenvolvimento tecnológico uma alternativa mais segura para o progresso econômico e social do país. Com a redemocratização do país e o esvaziamento das estatais, a UFRJ evoluiu vegetativamente até que o governo trabalhista iniciado em 2002 retomasse o desenvolvimentismo como agenda prioritária, voltando a investir nas empresas e universidades públicas. Surgiu então o projeto de expansão do CENPES, triplicando a sua área, com a ocupação das duas margens da Avenida Horácio Macedo, eixo central da ilha universitária, dividindo a ilha em ao norte do CENPES ou ao sul do CENPES. Em comum com o período militar, a ausência de discussão pública e a fé inabalável na tecnologia como fonte de progresso e bem-estar. Outras empresas estabeleceram ou vão estabelecer centros de pesquisa no campus do Fundão, a EMBRATEL já está lá e a General Eletric anunciou a intenção de vir também.
Com o aumento da população flutuante da ilha, seja pela instalação de novas empresas, seja pelo aumento de vagas acordado com o MEC de acordo com o REUNI, ou ainda pelo plano de concentrar todas as unidades de ensino da UFRJ no Rio de Janeiro no campus do Fundão, o acesso ao mesmo se tornou o maior desafio para seus gestores que enfrentaram e enfrentam muitas críticas pela formulação, sem a necessária transparência, de um plano diretor a “posteriori” da expansão da PETROBRAS na ilha. Nesse plano é prevista a construção de uma ponte, conectando a Ilha do Fundão à Linha Vermelha, a obra está em franco andamento e deve ser inaugurada ainda esse ano. No entanto, o que preocupa é a construção de uma segunda ponte ligando a ilha do Fundão à Ilha do Governador (Aeroporto) que vai viabilizar um ramal alternativo de acesso ao aeroporto via campus universitário! Essa obra não estava prevista no Plano Diretor, no entanto, a imprensa já está divulgando a sua futura realização...
À época do regime militar a construção de uma auto-estrada, ligando a Lagoa a São Conrado, passando por dentro do campus da PUC, provocou um movimento unificado de professores, alunos, funcionários e sociedade civil em defesa do espaço universitário. O movimento foi vitorioso e o traçado foi refeito, resguardando-se a integridade da universidade.
Em tempos de “democracia trabalhista” assiste-se ao desmonte do campus da Praia Vermelha e à descaracterização do campus do Fundão em prol do crescimento econômico e social, exatamente como há 40 anos atrás, desta vez por outros meios...
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