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observatório da universidade ANO VI
Um conservador contra o conservadorismo
domingo, junho 05 2011 - 10:18

Um conservador contra o conservadorismo

(Comentários à entrevista de um professor premiado a uma revista semanal)

Luis Paulo Vieira Braga

O famoso antropólogo francês, já falecido, Levi-Strauss afirmou uma vez a um jornalista que celebridades são elevadas à condição de especialistas em tudo, transferindo-se a notoriedade que adquiriram em um campo específico do conhecimento ou das artes para qualquer assunto, mesmo sem dominá-lo profundamente. Um famoso matemático brasileiro concedeu a uma revista semanal uma entrevista sobre política científica, educação e carreira universitária. Os temas não são tão distantes assim do cotidiano do eminente cientista, mas pelo teor de algumas respostas, temo que o efeito de celebridade prevaleceu sobre o de homem de ciência.

Pergunta: Qual é a dimensão de nosso atraso científico em comparação aos países mais desenvolvidos?

Resposta: ...Com base nas últimas décadas, dá para afirmar que o Brasil avançou de modo relevante, formando pesquisadores de alto gabarito em diversas áreas. Só que ainda precisa despir-se de certo conservadorismo para acelerar o passo. Em nome dele, condena-se, por exemplo, a idéia de premiar os mais talentosos, esforçados e produtivos. Cenário que não é propício para a retenção das melhores mentes no meio acadêmico. Basta olhar para outros países que caminham em direção inversa.

Comentário: Talvez a afirmação refira-se a colegas injustiçados, o que não é o caso do professor ilustre, homenageado e premiado por inúmeras instituições nacionais. Fica então a questão, por que o sistema que o próprio ilustre mestre integra, premiou a uns e não a outros? Foi só uma questão de conservadorismo?

Pergunta: O que o Brasil pode depreender da experiência internacional?

Resposta: Há muito que aprender com os chineses, que levam boje o conceito do mérito às últimas consequências. Para atrair de volta ao país os milhares de cérebros que seguiam carreira em universidades americanas e europeias, o governo passou a lhes fazer propostas agressivas. Eles chegam a ganhar o dobro ou até o triplo que a média do restante dos cientistas e trabalham em laboratórios de altíssimo nível. São valorizados de tal forma que foram alçados à condição de celebridades. Quando saem às ruas de Xangai ou Pequim, dão até autógrafo. Curiosamente daqui, não existe nenhum problema com a ideia de que vizinhos de mesa recebam salários diferentes.

Comentário: Há muitos exemplos, no mundo, de políticas científicas eficazes, no entanto, o professor infelizmente escolheu a pior delas – a da China. Um país que não preza a liberdade acadêmica e pratica atualmente o “dumping” no comércio internacional, graças predominantemente à brutal exploração de seus trabalhadores.

Pergunta: Em proporção ao PIB, a China destina 40% mais que o Brasil à área de pesquisa e desenvolvimento. Falta de dinheiro é um problema essencial?

Resposta: ...De todo modo, nosso desafio não se limita a expandir o orçamento, mas deve contemplar, sobretudo, a racionalização nos gastos do dinheiro já disponível. Repito: é premente que se rompa de vez na academia brasileira com o velho espírito napoleônico, segundo o qual a igualdade deve prevalecer sobre a meritocracia. É preciso também tornar a estrutura das universidades menos rígida - outro de nossos obstáculos históricos.

Comentário: O emérito professor descarrega suas baterias sobre o princípio da isonomia salarial, destacando-o como responsável pela não racionalização dos gastos com o dinheiro. A isonomia, há muito tempo, não é praticada nas universidades brasileiras. Professores mais produtivos podem usufruir de bolsas, projetos de consultoria e acumulação de até dois cargos em regime de DE. Mas, pretender que a mesma disciplina, dada por dois professores diferentes, de mesmo nível, seja remunerada diferentemente é confirmar o conservadorismo e não negá-lo.

Pergunta: Há outros obstáculos no Brasil para atrair os melhores cientistas?

Resposta: As universidades públicas brasileiras cultivam o conceito da auto proteção. Nas nações mais desenvolvidas da Europa e nos Estados Unidos, valoriza-se ao máximo a internacionalização. Não importa a nacionalidade do cientista, basta que ele esteja entre os melhores para ser cobiçado. Aqui, as instituições de ensino acham que os estrangeiros vão ocupar o lugar dos brasileiros. Por isso, praticamente há uma espécie de reserva de mercado. Para se ter uma idéia, elas exigem que os estrangeiros interessados em trabalhar no país prestem concurso e façam a seleção em português - regra que frequentemente tira do páreo gente de altíssima qualidade, uma vez que nosso idioma é pouco difundido. Muito melhor seria que estabelecessem um prazo para que esses candidatos aprendessem a língua, no lugar de simplesmente expeli-los. Afinal de contas, o idioma universal da ciência é o inglês.

Comentário: As universidades brasileiras cultivam a endogenia, ou seja, contratam ex- alunos dos professores titulares que presidem as bancas de concurso. O idioma, nesse caso, é consequência e não causa. Mais uma vez o cosmopolitismo e o corporativismo do ilustre mestre desviam o foco das raízes do problema.

Pergunta: Por que o Brasil ainda responde por apenas 0,1% da produção mundial de patentes?

Resposta: ... A produção científica conectada ao mercado é uma etapa da evolução que só agora passa a habitar a preocupação dos brasileiros.

Comentário: Evolução é conectar a produção científica às necessidades da sociedade, incluindo-se e submetendo-se aí o mercado.

Pergunta: Em um recente levantamento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os estudantes brasileiros aparecem entre os piores do mundo em matemática e ciências. Como mudar esse quadro?

Resposta: Não há outro caminho senão atrair os alunos mais brilhantes para as faculdades de ciências exatas, realidade da qual o Brasil está ainda distante. A caça a esses talentos deve começar desde muito cedo, nas primeiras séries escolares, quando já é possível incentivar o raciocínio lógico de forma bastante produtiva e despertar o que poucos alunos brasileiros cultivam - o gosto pelas ciências. Se um número razoável dessas crianças decidir mais tarde seguir a carreira de professor de matemática ou de física, passando adiante o apreço pelos números e a curiosidade científica, teremos, enfim, um bom ponto de partida para almejar um ensino de alto padrão nas escolas. E não este que temos hoje, tão desinteressante.

Comentário: Se depender do premiado professor, o ensino de qualidade vai ainda depender de muito tempo e sorte. Da enorme massa de alunos desassistidos e professores mal pagos, só interessam os mutantes com habilidades especiais. Ora, nada fala sobre os salários e as condições do professorado de ensino básico e médio no país. No mundo desenvolvido essa categoria recebe vencimentos equiparáveis aos dos docentes universitários, por esse motivo permanecem na carreira e contribuem decisivamente para a formação adequada das novas gerações.

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quinta-feira, julho 21 2011 - 03:26
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sábado, julho 16 2011 - 10:16
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Regina HS Barbosa
terça-feira, junho 07 2011 - 09:36
onde está a univeridade pública?
A entrevista é uma ilustração fidedigna da mentalidade que hoje impera no meio acadêmico, em particular na UFRJ. A palavra de ordem é: competição acirrada! os melhores vencerão! Se fizermos direitinho o 'receituário', chegaremos no padrão 1o. mundo! Onde foi parar o (nosso) projeto de universidade pública, democrática, transparente, comprometida com o 'bem público', ou seja, com os interesses e necessidades da população?
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