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terça-feira, maio 03 2011 - 09:51
Destruam as piscinas da EEFD!
por Leandro Nogueira
Assim como Catão, o Antigo, que no final de seus discursos no Senado Romano tornou recorrente a frase Delenda est Carthago! (Cartago deve ser destruída!), parece também haver por parte da Reitoria da UFRJ, a mesma idéia fixa com relação às principais instalações da Escola de Educação Física e Desportos.
Primeiro, como se sabe, houve em 2008 a parceria com a Petrobras, que resultou na devastação da Sede Campestre da EEFD e a destruição de uma quadra de tênis, duas quadras poliesportivas, arquibancadas, postes de iluminação, alambrados, centenas de árvores plantadas por estudantes e professores, além de praticamente desferir um tiro de misericórdia na pista de atletismo, à época já combalida por tantos anos sem recursos para a sua manutenção.
Tudo em nome da instalação do maior centro de pesquisa e tecnologia da nossa estatal verde-amarela, que segundo algumas fontes da própria UFRJ , vive repleto de estagiários... da PUC-RJ !
Até hoje esse lamentável episódio continua órfão de uma explicação academicamente decente, sem deixar de se mencionar que o instituto da autonomia universitária foi literalmente para o ralo, uma vez que nem mesmo o Diretor da EEFD havia sido comunicado sobre a sua própria adesão aos termos dessa “estratégica” parceria Petrobras-Reitoria.
Menos de dois anos depois, foi a vez da histórica piscina da EEFD localizada no campus Praia Vermelha.
Construída em 1957, como resultado do movimento estudantil que principiou pelo boicote às aulas de natação então realizadas no Clube de Regatas Guanabara, no protesto contra o racismo que impedia o acesso de um estudante negro – seu nome era Floriano Manhães - às dependências daquela agremiação, a obra contou com um desdobramento virtualmente épico, já que culminou no afastamento do então Diretor da EEFD, Prof. João Peregrino Junior, que era também membro da Academia Brasileira de Letras, enfrentou a resistência do Reitor da UFRJ à época, Prof. Pedro Calmon, contando finalmente com a intervenção de ninguém menos do que o Presidente Juscelino Kubitschek.
O Presidente da República não apenas determinou a liberação da verba necessária à construção da piscina, numa audiência concedida aos estudantes após intensa mobilização da classe até o Palácio do Catete, bem como empenhou-se na rápida liberação dos entraves alfandegários para as máquinas da empresa norte-americana que foi encarregada de entregar a obra em tempo recorde.
Outra resistência que os estudantes da época tiveram de superar, veio do IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que desde o início -sabe-se lá por quais razões – alegava que a obra “feria os interesses do patrimônio histórico”.
Só que passados mais de cinquenta anos, como se a luta contra o racismo e a mobilização política dos estudantes não constituíssem valiosos acervos do patrimônio histórico, na universidade que não tem autonomia acadêmica, finalmente o IPHAN encontrou o espaço político privilegiado para exigir da pusilânime Reitoria da UFRJ o aterramento de uma de suas próprias piscinas.
E como nesse contexto de heteronomia passam a vigorar os mesmos princípios que são vigentes na Casa da Mãe Joana, antes mesmo do aterramento da piscina do campus Praia Vermelha, a Faculdade de Educação decidiu destruir por conta própria os vestiários da piscina, instalando no local novas salas de aula, tudo sem qualquer consentimento ou mísero comunicado à Direção da EEFD.
Ironia das ironias, a histórica piscina que o IPHAN exige ser aterrada pela própria UFRJ, mesmo em seus estertores ainda serviu para combater com a sua água, o incêndio que em março último atingiu a Capela São Pedro de Alcântara, abrigada no Palácio Universitário que fica no campus Praia Vermelha.
Ainda assim, não bastasse a iminência desse descalabro contra a histórica piscina da Praia Vermelha, também encontra-se atualmente em estado de inutilidade pública, a piscina olímpica da EEFD situada no campus Ilha do Fundão.
Apesar de há anos o Diretor da EEFD vir alertando oficialmente a Reitoria da UFRJ para a necessidade de obras de engenharia na estrutura e atualização dos equipamentos existentes na casa de máquinas da piscina, além de mencionar que a sua utilização intensiva abrange não somente os diversos programas disciplinares e de extensão da unidade acadêmica, mas também o atendimento de crianças da rede municipal de ensino da cidade do Rio de Janeiro, bem como disciplinas de outras unidades e projetos de pesquisa do Hospital Universitário, nenhuma providência até hoje foi de fato tomada.
Em virtude do descaso, a piscina que vinha funcionando com grandes limitações desde janeiro último, há duas semanas ficou sem qualquer condição de operação, de tal sorte que na última Congregação da EEFD ocorrida em 28 de abril, última quinta-feira, foi anunciado pelo Diretor da unidade que não existe prazo algum para o retorno à normalidade.
Ficam assim os estudantes da EEFD, privados de mais um espaço fundamental para as suas aulas, enquanto que destituída de suas condições normais de operação, a piscina olímpica cessa igualmente a possibilidade de atendimento para outros públicos e suas respectivas demandas, que incluem promoção da saúde e qualidade de vida, pesquisa/extensão acadêmicas e programas de educação básica.
Tudo isso acontecendo na cidade que vai sediar os Jogos Olímpicos e justo com a primeira escola universitária de Educação Física do país, unidade acadêmica que de forma paralela à própria UFRJ, mais do que duplicou o seu número de cursos e vagas nos últimos vinte anos.
A menoridade política chega a ser de tal monta, que talvez a comparação com Catão, o Antigo, seja apenas incompleta.
Não é nada, não é nada, com tantas e expressivas devastações ocorridas em tão pouco tempo no seu entorno universitário, talvez seja o caso de toda a comunidade acadêmica da EEFD refletir de forma rigorosa sobre as ameaças reais e imediatas ao próprio futuro da unidade.
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