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observatório da universidade ANO VI
O significado do 10
quarta-feira, abril 27 2011 - 08:42

O significado do 10

Luis Paulo Vieira Braga

Estranho segundo turno da consulta para Reitor na UFRJ – a votação no segundo turno foi quantitativamente equivalente à do primeiro! Consequência de um calendário que situou o primeiro dos dois dias de votação após o feriado da semana santa, e o segundo dia, graças à imprevisibilidade meteorológica atual, após uma tempestade que parou o Rio de Janeiro. Segundo o Portal da UFRJ, as taxas de participação foram 71,87% de docentes; 56,02% de téc-adm e 14,18% de estudantes. O total de votos brancos e nulos (primeiro turno entre parênteses) foi de 592 (689). Os quantitativos dos dois candidatos quase não se alteraram, aumentaram um pouco para ambos, exceto estudantes para Levi que baixou, mantendo-se mais ou menos as diferenças observadas no primeiro turno (votação do primeiro turno entre parênteses). Docentes: Godofredo 969 (902); Levi 1.441 (1.409). Téc-adm: Godofredo 2.117 (2.040); Levi 2.659 (2.402). Estudantes: Godofredo 3.139 (3.049); Levi 3.517 (3.952). Desses números talvez se possa concluir que, quem não apareceu no primeiro turno, continuou não aparecendo no segundo. Essa reserva de votos poderia alterar o resultado e mostra juntamente com os resultados do segundo colocado que o candidato vitorioso precisará mais do que arte e engenho para conquistar o corpo social da UFRJ, especialmente os estudantes, as maiores vítimas da política atual.

Mas se é óbvio quem ganhou o quê, é menos evidente, principalmente para o público desavisado externo, ou interno, o que representa a continuidade da atual administração da UFRJ e como ela se enlaça com o projeto do governo trabalhista, que também assegurou sua continuidade nas últimas eleições gerais do país. O Brasil está no limiar de uma nova tentativa de implantação de um capitalismo de estado, a terceira após a ditadura Vargas e a ditadura militar. Solução tentadora em face da fraqueza do mercado interno, da fragilidade da sociedade civil e da cultura autoritária enraizada no comportamento da população. Mas que sucumbe, após alguns anos de sucesso, às crises de demanda reprimida, corrupção e inchaço da máquina pública, não antes sem passar por uma fase de supressão das liberdades democráticas, porque os defensores do modelo costumam identificar nos seus detratores as causas das não conformidades. Foi durante o regime militar que se criou a COPPE na UFRJ, voltada para a pesquisa tecnológica de apoio às estatais e também para a formação de quadros para essas empresas. Com o colapso do modelo estatista, a UFRJ assim como outras universidades federais passaram por um longo período de estagnação e baixo crescimento, apesar da liberalização política do regime que, entretanto, veio acompanhada de uma liberalização econômica a qual não envolveu adequadamente as instituições federais de ensino superior (IFES). Esse ciclo só foi interrompido mais recentemente na era Lula, retomando-se para as IFES as missões de apoio tecnológico e formação de quadros para as estatais remanescentes (quase que exclusivamente a Petrobrás) e o novo Estado trabalhista.

A UFRJ tornou-se, portanto, peça chave na engrenagem de sustentação do atual projeto político do governo central. Não é mera coincidência que o campus do Fundão está sendo transformado numa planta industrial, na qual a Petrobrás tem a parte do leão (talvez o único dos projetos relacionados no Plano Diretor que excede na realidade as dimensões retratadas no vistoso trabalho, cujo custo, diga-se de passagem, o futuro Reitor se recusou a revelar). Também não será coincidência a transformação do campus da Praia Vermelha em uma planta de serviços, envolvendo órgãos públicos e suas empresas servidoras. Para isso está sendo empreendida uma política de cerceamento do corpo social que ali atua de forma a tornar insustentável sua permanência. Na véspera do feriado de 21 de Abril desabou o teto de um dos andares da Escola de Serviço Social, inviabilizando aulas, projetos,etc. Aos containers que hoje servem aos professores, funcionários e alunos das Faculdades de Educação, Administração, Economia e Ciências Contábeis, vão se somar novos containers para os integrantes dos cursos de Serviço Social e Psicologia...

O capitalismo de estado reúne os piores defeitos do capitalismo e do socialismo - a desigualdade e o fatalismo, respectivamente. A adesão da UFRJ à nova sociedade capital-trabalhista se faz por vias indiretas que vão aos poucos solapando o ideal maior de liberdade de ensino e pesquisa. O dirigismo das agências governamentais irmanado às diretrizes da administração superior da universidade vem reduzindo a cada dia nossa autonomia intelectual e criatividade, proletarizando o trabalho nas universidades, reduzidas agora ao papel de fábricas, quando deveriam ser as anti-fábricas, ou mesmo as anti-universidades. Foi assim que a Suíça se tornou a líder na tecnologia de emissão zero para plantas industriais. Ou que a Open University passou a ser a maior universidade do mundo com alunos fora de seu campus. Ou ainda tantos outros experimentos científicos que sucedem em ambientes totalmente fora do contexto tradicional de ensino e pesquisa. Uma universidade que seja servidora de uma empresa ou de um governo certamente não primará pela inovação, autonomia ou independência, e em breve pela liberdade...

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emqysuoo
quinta-feira, julho 21 2011 - 02:18
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sábado, julho 16 2011 - 09:40
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Denise Pires de Carvalho
segunda-feira, julho 04 2011 - 08:42
Eleições na UFRj
Excelente comentário sobre o último processo eleitoral que foi deplorável sob vários aspectos. Fiquemos mais atentos às regras da próxima vez!
Luis Paulo
sexta-feira, abril 29 2011 - 06:54
sem vestígios
Curioso como no dia seguinte nã ahviam vestígios de eleições nem no site, nem no campus da UFRJ. Somente uma nota formal no site oficial da UFRJ. Nada mais.
Leandro Nogueira
quarta-feira, abril 27 2011 - 10:01
Universidade à deriva
Excelente análise de conjuntura, Luís! Servindo muito mais aos interesses da nomenklatura que comanda o país, do que à sua própria missão acadêmica, a universidade pública perde o seu leitmotiv e acaba à deriva dos humores políticos da hora. Torna-se assim uma lamentável caricatura de sua razão institucional, frustrando de forma recorrente as mais legítimas aspirações sociais.
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