A Universidade Brasileira: fatos e desafios (III)
Luis Paulo Vieira Braga
A terceira parte do texto é dedicada às atividades de extensão. Ao final da série será organizado um debate, no dia 25 de Março, às 21 horas, com participação aberta ao público.
O tema extensão é mais difícil de abordar pela sua diversidade, pois pode envolver cursos pagos, atendimento à comunidade, evento literário, etc. De uma maneira geral compreende as atividades de interação direta da universidade com a sociedade. Os serviços desenvolvidos podem ser cobrados, ou não, levantando-se aí a primeira polêmica, em se tratando de universidades públicas, aonde o ensino não é cobrado (gratuito nunca é, alguém paga pela atividade, os contribuintes, nesse caso). Podem as universidades públicas cobrar por cursos de extensão? Alguns juízes entendem que não e o sindicato nacional dos professores de ensino superior ANDES também. A questão se torna ainda mais tensa quando se fala das Fundações de Apoio às Instituições Federais que se tornaram protagonistas de rumorosos escândalos ultimamente, como foi o caso da Universidade de Brasília (que é uma Fundação) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (que é uma autarquia). As Fundações de apoio às universidades públicas foram criadas para intermediar os contratos da universidade com as estruturas governamentais e privadas, sob a alegação de que a administrações centrais das universidades não seriam ágeis o suficiente para gerir esses contratos (fica a indagação de por que não modernizar aquelas instâncias). Cresceram a tal ponto em montante de recursos e importância que seus presidentes disputam com os respectivos reitores a influência nos campi universitários. Apesar do imbróglio político administrativo, tem sido através das consultorias que os professores vem contribuindo para o desenvolvimento industrial, agrícola e de serviços do país. Esse processo teve sua sistematização iniciada nos anos setenta, quando o regime militar incentivou a criação massiva de cursos de pós-graduação para capacitar os recursos humanos destinados às empresas estatais, então em pleno “boom” de crescimento (o Brasil era China de então, crescendo a taxas fenomenais). Com a reversão do processo de estatização, o processo de desenvolvimento de tecnologia em parceria com as universidades decaiu, com algumas exceções. As conseqüências foram a deterioração da liderança brasileira no mercado de produtos de tecnologia intensiva em relação a países como a China, Coréia do Sul, Taiwan, entre outros. No domínio aeroespacial até o Irã já desenvolveu seu veículo lançador de satélites, enquanto o Brasil ainda recolhe os fragmentos da trágica explosão do foguete brasileiro em 2002.
Iremos, portanto, avaliar o impacto das atividades de extensão no progresso tecnológico do país, cujo índice mais natural de aferição é o pedido de patentes. A partir dos dados da World Intellectual Property Organization (WIPO) observamos que entre 2001-2006 o índice de patentes depositadas por milhão de dólares gastos em Pesquisa e Desenvolvimento oscilou entre 0,25 e 0,31 no Brasil. Para a China no mesmo período o índice variou entre 0,99 a 1,82. Na Federação Russa a variação foi entre 1,2 e 1,84. Na índia entre 0,18 e 0,29. Na França entre 0,34 e 0,37. Na Alemanha entre 0,74 e 0,83. Na Inglaterra entre 0,74 e 0,83. Na Coréia entre 3,46 e 4,35. Nos EUA entre 0,59 e 0,72. Um outro índice que se pode utilizar é o número de patentes por Produto Interno Bruto (PIB). Nesse caso, no Brasil no mesmo período 2001-2006, o índice oscilou entre 2,35 e 2,47. Na China entre 10,03 e 20,63. Na Índia 1,25 e 1,98. Na Federação Russa entre 13,91 e 18,77. Na França entre 7,61 e 8,19. Na Alemanha entre 18,05 e 20,53. Na Inglaterra entre 8,74 e 12,85. Na Coréia entre 73,84 e 116,18! Na Espanha entre 2,41 e 2,53. No Canadá entre 3,77 e 4,76, esses três últimos países com PIB próximo ao Brasil. Vemos, portanto, que o desenvolvimento industrial brasileiro não tem sido acompanhado por correspondente geração de tecnologia nacional salvo em algumas áreas específicas. As universidades, com poucas exceções, não têm participado, como poderiam, deste processo. É imperativo envolve-las porque não há quadros suficientes nas empresas para promover uma revolução tecnológica.