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observatório da universidade ANO VI
A Aula Magna de Jiddu Krishnamurti na Universidade do Brasil
quarta-feira, março 10 2010 - 07:09

A Aula Magna de Jiddu Krishnamurti na Universidade do Brasil*

A maioria de nós sabe o que se passa no mundo – a ameaça de guerra, a bomba nuclear, as muitas tensões e conflitos que provocam novas crises. Parece-me que uma mente completamente diferente é necessária para fazer em face de esses desafios. Uma mente que não seja especializada, exclusivamente treinada em tecnologia, que não esteja meramente procurando prosperidade, mas que possa enfrentar os desafios completamente. Parece-me que essa seja a função da educação e da escola.

Faz muito tempo que estive no Brasil, em 1935, antes da terrível Segunda Guerra Mundial, recordo-me da beleza do Rio de Janeiro e da agitação de São Paulo. Da janela do avião pude observar como essas cidades cresceram, dentes tortos e desiguais em uma enorme boca, em alguns aspectos lembram-me a minha terra natal - Índia, que integra junto com o Brasil o bloco dos BRICS. Surpreendeu-me o convite, grandes organizações não estão dentre os meus anfitriões mais comuns (mas a diplomacia gosta de promover eventos culturais). Os direitistas me consideram recessivo, os esquerdistas estupefaciente, os religiosos um mistificador, os pragmáticos um sonhador. Enfim, parece que ao longo da minha vida só consegui agradar aquela gente que não se tornou coisa alguma. Como diante de mim tenho dois contingentes - um de jovens que desejam ardentemente ser alguém, outro de professores que ardentemente desejam fazer alguém de seus alunos, corro o sério risco de decepcioná-los com um discurso que não segue as leis de Newton e teme as de Einstein.

Educação não é somente aprender nos livros, memorizar fatos, mas também aprender como olhar e escutar o que os livros dizem, se o que dizem é verdadeiro ou falso. Tudo isto é parte da educação. Educação não é simplesmente ser aprovado nos exames, colar grau e conseguir um emprego, casar-se e estabelecer-se. Mas também ouvir os pássaros, apreciar o céu, as árvores, a forma das montanhas, e sentir junto com tudo isso, estar em contacto direto com tudo isso. Quando se envelhece, a capacidade de escutar e ver desaparece porque a pessoa passa a ter mais e mais preocupações, deseja mais dinheiro, um carro melhor, mais filhos, ou menos filhos. Torna-se invejosa, ambiciosa, possessiva, ciumenta; perdendo assim a percepção da beleza do planeta. Vocês sabem o que está ocorrendo no mundo. Vocês devem estar estudando os eventos atuais. Há guerras, revoltas, nação contra nação. Neste país também há divisões, separações, mais e mais pessoas nascendo, pobreza, sofrimento e indiferença. O homem não se importa com o que acontece ao seu semelhante enquanto está seguro. E vocês vão crescer para se ajustar a tudo isto. É certo isto, é isso que significa a educação, que querendo ou não, vocês devam se ajustar a esta estrutura insana denominada sociedade?

A educação real significa que a mente humana, as suas mentes, não sejam somente capazes de serem excelentes em matemática, geografia e história, mas que nunca sejam arrastadas, sob nenhuma circunstância, pela rotina da sociedade. Porque esta rotina à qual chamamos de vida, é corrupta, imoral, violenta e ambiciosa. Então a questão é como desenvolver o tipo certo de educação que possa resistir às tentações, às influências e à bestialidade desta cultura e civilização.

O espírito da ciência nada tem a haver com condições individuais, com nacionalismo, com raça, com preconceito. Cientistas se dedicam a pesquisar a matéria, a investigar a estrutura da terra, das estrelas e dos planetas, a descobrir a cura de doenças, a prolongar a vida, explicar o tempo, o passado e o futuro. Mas a inteligência científica e suas descobertas são usadas e exploradas pelo nacionalismo, pelas nações – Índia, Rússia e América.

A inteligência humana usa o conhecimento acumulado e renovado ao longo de séculos. Uma das funções da escola é transmitir esse conhecimento para que não tenhamos de partir do zero a cada geração. Mas será essa a única e mais importante função da escola? Certamente não, pois todo o conhecimento é resultado do que chamamos de inteligência – a capacidade da mente humana de compreender com clareza, objetividade, lucidez e sanidade. Se houver preconceito, opiniões pré-concebidas, insensibilidade então o conhecimento gerado será inadequado. A escola está contribuindo para o desenvolvimento desta forma de inteligência?

Qual é a função da educação? Quando se ensina uma técnica a alguém, para que se torne um especialista nela, ao mesmo tempo se cria uma expectativa, uma ambição. Quanto melhor for, maior será sua insegurança, levando-o ao desespero. O mesmo desespero que encontro nos professores para conseguir uma promoção, manter uma posição ou conquistar um prêmio.

Não sou contra o conhecimento. Mas há uma diferença entre aprendizado e aquisição de conhecimento. A aprendizagem cessa quando há somente acumulação de conhecimento. Não há contradição entre ambos, ela só existe quando a aquisição de conhecimento predomina. A mera aquisição de conhecimento é imediatista, respondendo aos desafios imediatos que se repetem – um ano é uma guerra, no seguinte uma revolução, no terceiro uma crise econômica, e assim por diante.

Somos seres humanos ou profissionais? Nossas profissões tomam a totalidade de nossas vidas e deixam muito pouco tempo para cultivar e entender a mente e o que é viver. Para a maioria de nós a mente é uma palavra e é através de palavras que o mundo é entendido. Uma mente que está mergulhada no tempo e no espaço, em palavras, em si mesma, em conclusões, em técnicas, em especializações, uma mente assim é uma mente incapaz de lidar com o novo. Pensar deve suceder a capacidade de observar e não o contrário. E observar significa se libertar das palavras, dos símbolos, do tempo e do espaço. Despertar essa capacidade nos estudantes é a meta definitiva da educação, pois dela resultam a criatividade e a intuição.

Duas últimas palavras para essa platéia que me ouviu tão atentamente e educadamente. Não se submetam à rotina, vivam sempre com intensidade e vigor. Sejam bons, uns para os outros, sejam generosos, ajudem o próximo e tenham consideração com os seus semelhantes.

*Ficção elaborada por Luis Paulo Vieira Braga com base nos textos, áudios e vídeos de Jiddu Krishnamurti, especialmente On Education de 1985. A aula poderia ter ocorrido em qualquer universidade do país.

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Luis Paulo
quinta-feira, março 11 2010 - 09:19
aula magna
Obrigado Armando, sua colaboração com o BLOG não tem passado desapercebida. No ano passado a aula fictícia foi com Nietzsche, bem mais dura e fria. Krishnamurti que tive a hoonra de conhecer em NY era um contra profeta. Mandava todo mundo baixar a bola e respirar fundo...
Armando G. M. Neves
quinta-feira, março 11 2010 - 07:18
A Aula Magna de Jiddu Krishnamurti na Universidade do Brasil
Parabéns, prof. Luis Paulo. Não só a ideia de criar uma aula fictícia foi interessante, mas o conteúdo é belíssimo. Lembrou-me muito em seu teor geral o discurso final do filme O Grande Ditador de Charles Chaplin. Já faz alguns anos que o li pela última vez, mas me deixou uma impressão semelhante. Certamente nós educadores devemos tentar melhorar muito na maneira como "ensinamos" aos nossos alunos. E eles também devem mudar a maneira como encaram o processo educativo. Ler esse texto aos alunos no primeiro dia de aula é uma sugestão para mim.
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