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quarta-feira, janeiro 13 2010 - 08:51
EM DEFESA DO CURSO DE PEDAGOGIA DA UNICAMP
Ângela Fátima Soligo (1)
Maria Márcia Sigrist Malavasi (2)
Sérgio Antonio da Silva Leite (3)
Os cursos de Pedagogia das faculdades de Educação da UNICAMP e da USP têm sido alvos de injustas críticas por parte da cúpula que atualmente administra os destinos do ensino público paulista. O Sr. Secretário da Educação, economista Paulo Renato Souza, ao defender a política meritocrática proposta pela Secretaria de Estado de Educação de São Paulo, tem atribuído grande responsabilidade pelo despreparo dos professores à sua formação na graduação, apontando nominalmente as duas Faculdades públicas citadas.
Afirma o Sr. Secretário: “No lugar de ensinarem didática, as faculdades de educação optam por se dedicar a questões mais teóricas. Acabam se perdendo em debates... cujo ideário predominante não passa de um marxismo de segunda ou terceira categoria... A resistência vem de universidades como USP e UNICAMP, as maiores do país.”
Estranhamente, o Sr. Secretário de Educação faz parecer que universidades públicas e privadas funcionam a partir dos mesmos princípios e condições, com os mesmos propósitos e a mesma qualidade, o que não corresponde à realidade. Induz também a pensarmos que são as instituições públicas que formam a maioria dos professores do Estado, o que também não corresponde à realidade. No Estado de São Paulo, infelizmente, as universidades públicas paulistas são responsáveis por apenas 25% das vagas universitárias, contra 75% das privadas. Vale dizer que essa discrepância não parte de uma opção das universidades públicas, mas foi produzida, nos últimos anos, pela própria política de encolhimento do setor público e ampliação do setor privado que ele, então Ministro da Educação, ajudou a implementar.
Também fica óbvio que o atual Secretário de Educação desconhece os projetos e currículos dos cursos de pedagogia da UNICAMP e USP. No caso da UNICAMP, temos desenvolvido e aprimorado um projeto pedagógico que tem, como princípios, uma sólida formação teórica (já que formamos educadores e não técnicos), a pesquisa como eixo de formação e a unidade teoria-prática, sendo que o nosso compromisso é com a educação de qualidade para todos. Em nossa última reforma curricular, foi exatamente nas atividades de pesquisa e nos estágios supervisionados que logramos ampliar a carga horária.
Igualmente, equivoca-se o Sr. Secretário ao confundir autonomia do professor, como intelectual que reflete sobre a própria prática, com ausência de método. Nossa ênfase na formação continuada, a partir dos projetos pedagógicos desenvolvidos nas escolas com foco no trabalho coletivo, reforça essa diferença.
Se pensar criticamente a realidade, conhecer os problemas do nosso país, dos nossos alunos e dos nossos professores como sujeitos concretos, é visto pelo Sr. Secretário como “ideário de um marxismo de segunda ou terceira categoria”, o que dizer da assunção de uma proposta que se assenta sobre as profundas desigualdades que marcam o nosso Estado e o nosso país, escamoteando e ocultando suas verdadeiras causas, por meio do discurso falacioso da meritocracia? Não haverá também aí viés ideológico? Ou pretende o Sr. Secretário fazer crer que a política por ele desenvolvida é neutra, imparcial, desprovida de ideologia?
Apenas para ilustrar a relevância do trabalho que realizamos, segundo dados fornecidos pela Assessoria de Imprensa da UNICAMP, a pesquisa desta Universidade mais consultada, em 2009, é da Faculdade de Educação e, para surpresa do Sr. Secretário, trata de uma questão pungente da sala de aula: o ensino de matemática. A análise de nossa produção aponta a intensidade do vínculo que estabelecemos com a escola pública – aliás, marca do trabalho de toda a Faculdade de Educação da Unicamp, através das atividades de ensino, pesquisa e extensão. Além disso, o Sr. Secretário desconhece que o curso de Pedagogia da UNICAMP tem sido reconhecido, nos últimos anos, como um dos melhores do país.
Quanto à forma como encaramos a relação público-privado, salientamos que temos defendido que a educação pública de qualidade é um direito da população, que as condições de trabalho e salário docente devem ser garantidas a todos os profissionais da área, e que as universidades públicas devem ter todas as condições necessárias para a ampliação dos cursos de Pedagogia visando à formação de professores. Vale relembrar que a verba pública provém dos muitos impostos que nós, trabalhadores brasileiros, pagamos, com o suor de nosso trabalho. A educação de qualidade, portanto, é nosso direito e obrigação do Estado.
1 Ex-coordenadora do curso de Pedagogia da Unicamp.
2 Coordenadora do curso de Pedagogia da Unicamp.
3 Diretor da Faculdade de Educação da Unicamp.
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