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observatório da universidade ANO IV
Ações judiciais, acumulação, bolsas de produtividade e consultorias - O colapso da isonomia nas universidades estatais
quinta-feira, janeiro 07 2010 - 08:32

Ações judiciais, acumulação, bolsas de produtividade e consultorias

O colapso da isonomia nas universidades estatais

Luis Paulo Vieira Braga

A voracidade fiscal do Estado brasileiro, entre outros desiquilíbrios econômicos, provocou a oneração da folha salarial de modo geral, inibindo a criação de empregos formais e os reajustes salariais. O rebaixamento salarial, agravado na época de inflação alta, provocou reações heterodoxas por parte dos assalariados que buscaram desde as formas clássicas de reivindicação salarial por meio de greves e protestos, passando pela ação judicial, até procedimentos de natureza individual que no conjunto estão levando ao colapso a isonomia no setor público em geral e em particular nas universidades estatais. O presente texto reúne fatos e depoimentos que alertam para o caos em que está se tornando o plano de cargos e salários dos docentes das instituições federais de ensino.

O intervencionismo governamental na economia ao longo das recentes décadas produziram uma série de planos emergenciais para tentar corrigir desiquilibrios financeiros e econômicos: Plano Collor, Plano Bresser, Plano Verão, etc. Os servidores públicos e suas associações de classe identificaram em muitos casos prejuízos à sua categoria, ingressando então na justiça para reaver direitos perdidos. Devido às peculiaridades do rito judicial os ganhos de causa não benefeciaram a todos uniformemente. Dependendo da vara, do escritório de advocacia ou do sindicato, alguns professores foram beneficiados, outros não, configurando uma flagrante quebra de isonomia salarial generalizada por todo o país, gerando novas ações para reparar as consequências das ações precedentes, em uma espiral jurídica infindável.

O emprego público no Brasil sofre de alguns estigmas que são aparentemente antagônicos: ganha-se pouco, mas trabalha-se pouco, difícil de conseguir um, impossível de ser mandado embora. No rastro desta leniência e aproveitando-se do expediente constitucional sobre acumulação de cargos públicos, muitos professores 40 horas em dedicação exclusiva, que tinham tempo para se aposentar, assim o fizeram e ingressaram por concurso, muitas vezes no mesmo departamento, para uma nova matrícula 40 horas em dedicação exclusiva. O fato contrasta com a figura do professor emérito ou do colaborador voluntário que continua contribuindo para a universidade graciosamente após sua aposentadoria, embora só tenha uma matrícula. Apesar de algumas tentativas de inibição de reingresso na universidade através deste expediente, liminares na justiça vêm garantindo a sua continuidade. A discutível prática vem sendo defendida no meio acadêmico, o professor G. declara: “Aqueles professores que se aposentam e voltam a trabalhar na universidade, eu entendo que o fazem mediante concurso público aberto para todos. Muitos até não passam nesses concursos e aqueles que reingressam se aposentam com um salário proporcional ao seu novo tempo de serviço. Tenho firme convicção, que se não fosse muitos desses professores, a produção científica brasileira estaria ainda mais abaixo.” Embora válido como argumento para a acumulação, não seria também um indício que não estão se formando adequadamente novas gerações de docentes capazes?

Em face da retomada da massiva intervenção estatal na economia, já anteriormente à recente crise mundial, pelo governo de coalizão liderado pelo PT, a mordida do Leão começou a doer na própria carne. A solução foi criar ou expandir programas de bolsas - que não geram encargos- ao invés de contratos formais de trabalho, contraditoriamente ao que o governo frequentemente cobra da iniciativa privada. A solução fez escola e se expandiu para todos os setores de atividade e em particular para a educação superior. Bolsas não são um instrumento estranho à universidade, sempre foram utilizadas como meio de fomento à formação, à implantação de uma nova área e assim por diante. No entanto cada vez mais alguns tipos de bolsas vêm sendo um subterfúgio para não criar novos contratos de trabalho, ou encobrir aditamentos aos contratos já existentes. É o caso das bolsas de produtividade em pesquisa pagas aos professores 40 horas em dedicação exclusiva das universidades estatais. Gradualmente o CNPq, órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia, vem ampliando uma folha de pagamento paralela ao SIAPE que remunera professores com produtividade em pesquisa. A sua duração pode ser indefinida, vejamos o comentário do professor C. a seu respeito: “Sou bolsista desde muito jovem e realmente me senti incentivado a cumprir as tarefas relativas à bolsa: nada mais eram que parte das tarefas de professor. Houve épocas que a bolsa chegava à metade de meu salário. Sinto que foi realmente um incentivo a mais que tive da minha comunidade para não esmorecer.” A sua concessão, em tese, depende da produção científica do candidato, na prática, essencialmente, do seu êxito em publicar numa lista de periódicos elaborada pela CAPES,  denominada QUALIS, e da anuência dos seus pares. As declarações de outro docente, o professor F. expressam seu ponto de vista sobre o processo de seleção: “A bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq tem uma peculiaridade que merece nota: ela envolve um periódico e criterioso julgamento por pares. É preciso passar constantemente pela avaliação crítica de nossos pares. E isso é importante para o desenvolvimento de nossas atividades científicas.” No entanto, para o professor G.a distribuição de bolsas não segue um critério único: “ Existem Cas do CNPq que exigem muito pouca produtividade científica e nem mesmo é compulsório publicações em periódicos internacionais.” Durante todo o ano de 2009 houve manifestações críticas ao QUALIS e à política de concessão de bolsas. Jovens pesquisadores denunciaram, no início daquele ano, em manifesto com centenas de assinaturas o caráter arbitrário da concessão das bolsas de produtividade. Sociedades e editores de periódicos científicos nacionais das áreas de biologia e zoologia protestaram contra os critérios do QUALIS para inclusão de publicações.

As consultorias praticadas nas universidades estatais não deixam de configurar em tese uma acumulação indevida, no entanto, o volume destas atividades cresceu tanto, que merecem um parágrafo à parte neste texto. Existem dois tipos mais comuns de prestação de serviço: projetos e cursos pagos. Elas foram legalizadas pelo expediente de sempre – a mais valia. Ou seja, se pagar uma taxa ao Estado pode fazer, desde que alguns procedimentos jurídicos sejam respeitados. Um deles foi a criação de Fundações de apoio à universidade que se incubiriam da gestão destes recursos, ordenando despesas, fazendo pagamentos, etc. e repassando às universidades os saldos destas atividades, socorrendo assim o combalido caixa das IFES. Porém em muitos casos, as Fundações foram o rabo que abanou o gato e não o contrário. Gozando de autonomia financeira, movimentando vultuosos recursos, diversas Fundações se envolveram em rumorosos escândalos, dos quais o da Universidade de Brasília tornou-se o mais paradigmático. A imagem do professor consultor não é uma unanimidade entre os seus pares, vejamos o que diz ainda o professor G. a este respeito: “Conheço colegas das engenharias e da computação da U. que não querem bolsa de pesquisa, pois suas atividades de contínua consultoria mais do que duplicam seus salários em regime de DE.”

A degradação dos salários dos docentes das universidades públicas provocou reações que vão do individual ao coletivo, do legal ao marginal, da ortodoxia à heterodoxia. No embate por uma ordenação deste quadro altamente instável dois extremos se confrontam – a restauração de uma isonomia estrita e a livre negociação de salários. Recentemente o governo tentou uma ordenação das diversas formas de remuneração docente pela sua incorporação no contracheque, através de gratificações. Como na proposta a Dedicação Exclusiva passaria (corretamente) a ser uma gratificação e não mais um direito adquirido, independente do seu cumprimento ou não, o corporativismo uniu liberais e classistas no boicote ao novo plano e mesmo à sua discussão. Fica tudo como está até onde der. Classistas clamando pelo insustentável: a cada um segundo suas necessidades, e de cada um segundo suas possibilidades. Liberais dizendo exatamente o oposto.

Isonomia a esta altura dos acontecimentos é um farrapo nas mãos manipuladoras de classistas ou liberais. O conceito de isonomia faz parte daquele minúscula lista de conquistas que vão compondo o que se denomina desenvolvimento civilizatório. A isonomia no trabalho foi consagrada em 1919 no Tratado de Versalhes após a barbárie da Primeira Guerra Mundial, que a despeito dos seus equívocos políticos, introduziu importantes reformas sociais na Europa Ocidental. Embora não tenha se originado nos meios liberais, a isonomia consolidou-se como importante fator agregador de mão de obra e da consequente expansão do mercado consumidor. Não há nada de ilógico em sua premissa – remunerações iguais para trabalhos iguais - desde que se meça o trabalho realizado. Mas isso nem os classistas(de oportunidade), nem os liberais(de oportunidade) desejam. Pois o absenteísta que pouco faz e o super-homem que diz publicar, ensinar, assoviar e chupar cana seriam desmascarados!

É deste tecido pobre que se veste o debate sobre a política salarial nas universidades, ditas públicas, do Brasil. Reflete a miopia, o egoísmo e o narcisismo das piores matilhas acadêmicas, prontas a destroçar quem se meter em seu caminho. E é infelizmente no seu rastro que a história recente da universidade brasileira está sendo contada.

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Leandro Nogueira
sábado, janeiro 09 2010 - 04:08
Reitores estadistas
Esse é de fato o cerne da questão. Se contássemos com reitores e equipes gestoras com a envergadura estadista que as IFES tanto necessitam, muitos desses problemas estruturantes seriam contemplados com abordagens que jamais perderiam de vista a autonomia constitucional das universidades públicas, e por certo potencializariam os papéis de protagonismo democrático e civilizatório dessas instituições. No entanto, desde os anos 90 as IFES não tem sequer o controle sobre as suas próprias folhas de pagamento, enquanto que a maioria dos seus reitores, há muito encontra-se mais preocupada em agradar e acatar tacitamente qualquer medida do MEC, mesmo que duvidosas e/ou suspeitas do ponto de vista acadêmico, tais como o ProUni, REUNI, ENADE, New Enem etc.
Luiz Eduardo R. de Carvalho
sexta-feira, janeiro 08 2010 - 11:33
projeto de IFES, projeto de nação
Alguém aqui acaso conhece algum Reitor com envergadura de estadista, para liderar um debate, um estudo, um encaminhamento... sobre esta questão estruturante das universidades públicas ?
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