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segunda-feira, dezembro 28 2009 - 09:30
OBSUNI – Retrospectiva 2009
Luis Paulo Vieira Braga (webmaster)
Clovis Pereira da Silva (UFPR)
José Henrique Erthal Samglard (UFRJ)
Leandro Nogueira (UFRJ)
Luiz Eduardo R. de Carvalho (UFRJ)
Em seu terceiro ano, o Observatório da Universidade originou 37.211 sessões, com uma média diária de 103,36 sessões. Embora, a maioria das sessões tenham se originado no Brasil, o OBSUNI foi também acessado de 91 países diferentes. Depois do Brasil, EUA, Inglaterra e Alemanha têm originado a maioria das sessões. Há algumas curiosidades, houve uma sessão originada de Tonga e outra de Tuvalu. Por outro lado houve várias sessões originadas de órgãos civis e militares do governo norte-americano.
As postagens que constituem a atividade central do blog somaram 53 artigos de professores, pesquisadores, estudantes e entidades representativas. Os boletins de utilidade docente (BUD) foram 11. No fotoblog duas novas seções foram criadas: faixa musical, com a apresentação de cinco artistas, e o quadrinho Às Moscas, com a produção de 13 quadros. Em setembro foi criado um canal do OBSUNI no YouTube, tendo sido produzidos 23 mini vídeos que geraram 510 acessos adicionais. Para o próximo ano planeja-se criar um canal de maior participação interativa, mas ainda não se chegou a um consenso sobre a mídia a ser utilizada.
Os artigos publicados ao longo do ano refletiram a crise do ensino superior brasileiro. Com base em uma seleção feita por sua comissão editorial, o blog Observatório da Universidade escolheu para cada mês do ano o texto que foi mais relevante naquele momento. Uma tarefa difícil porque chegamos a ter 10 artigos em um só mês!
Em janeiro, o texto escolhido foi o Relatório de Renato Janine Ribeiro a propósito de sua saída da Capes, que inicialmente circulou em algumas listas na internet e depois (com autorização do autor) foi formatado para postagem neste blog. Janine Ribeiro era o Diretor de Avaliação da CAPES até outubro de 2008, quando o presidente Jorge Guimarães decidiu antecipar sua saída, anunciada para dezembro daquele ano. O relatório veio tardiamente e enumera 24 itens de realizações de sua administração. A consolidação e expansão do QUALIS foi contemplada em diversos aspectos – QUALIS livro, QUALIS Artes, entre outras. No relatório o ex-diretor demonstra preocupação com a diversidade da produção acadêmica em áreas tão distintas. Como sabemos, em 2009, as críticas ao QUALIS se intensificaram dramaticamente. Principalmente no tocante à seleção de periódicos baseada no índice de impacto. Diversos trabalhos de origem nacional e internacional foram divulgados criticando este critério. O uso quase que exclusivo do Qualis periódicos, para avaliar a pesquisa e a pós-graduação, vem provocando grande rejeição na comunidade acadêmica, em geral, porque isto tem implicado na exclusão de pessoas, na rejeição de bolsas e de financiamentos diversos. Portanto, o OBSUNI ao publicar o texto de Janine Ribeiro detectou que os temas ali tratados seriam relevantes ao longo de todo o ano, e tudo indica que continuarão sendo em 2010.
Em fevereiro, o texto escolhido foi A Casta dos Superbachareis de Wilson José Vieira, o excelente artigo foi publicado originalmente no Correio Brasiliense e posteriormente (com autorização do autor) foi formatado para publicação neste blog. O artigo, de certa forma, é um contraponto ao anterior, porque traz a visão do cliente das agências de fomento. Nele está explícita a crítica ao viés exclusivista do QUALIS periódicos para a avaliação de pesquisadores. Assim como a padronização de atividades tão distintas quanto pesquisa básica, pesquisa aplicada ou desenvolvimento tecnológico. Segundo o autor que é membro do grupo de discussão bolsa_produtividade@googlegroups.com , as regras das agências de fomento estão gerando super-bacharéis ao invés de cientistas ou pesquisadores. A imposição de uma estratégia para publicar em periódicos internacionais está levando ao solapamento dos periódicos nacionais, ao abandono de pesquisas de longo prazo e ao desinteresse por problemas nacionais. O problema se agrava nas universidades fora das grandes capitais. Jovens doutores vêm enfrentando enormes dificuldades para obterem os insumos necessários às suas atividades científicas.
Em março, o texto escolhido foi A dor no coração do INPE de Gilberto Câmara, o artigo inicialmente circulou em listas de discussão na Internet, foi formatado (com autorização do autor) e publicado neste blog. Teve enorme repercussão, principalmente dentre a comunidade de computação. O autor que é o atual diretor do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) lamenta que os programas de controle de órbita dos próximos satélites brasileiros sejam importados, ao invés de serem produzidos aqui. Culpa em parte a orientação das agências de fomento que só consideram artigos em periódicos, ao invés de programas de computador como produção científica. O artigo completa uma trilogia iniciada com o texto de Janine, um dos formuladores dessa política, passando pela reflexão de Wilson Vieira sobre os superbacharéis.
Em abril, o texto escolhido foi Central única de vestibulares de Luis Paulo Vieira Braga, o artigo critica a forma como está sendo implantada a nova sistemática do vestibular – um exame único para todo o país – Segundo o autor, por detrás da aparente democratização, a proposta viria dar sustentação aos Bacharelados Interdisciplinares propostos no REUNI em 2008. A pressa em fazê-lo ainda este ano, colocaria em risco a estabilidade de um processo já bastante estressante para os jovens vestibulandos. E de fato, as preocupações com a intempestiva mudança, infelizmente se confirmaram com o desandar do Novo ENEM (nome dado à nova sistemática). Quebra de sigilo, adiamento das provas, recusa de muitas universidades importantes em adotá-lo este ano, culminando com a recente queda do presidente do INEP. O imbróglio está longe de ter sido resolvido e é mais um passivo que se leva para 2010.
Em maio, o texto escolhido foi DE dedicação extemporânea de Luis Paulo Vieira Braga, o artigo comenta as propostas governamentais de mudança no contracheque dos professores das Instituições Federias de Ensino Superior (IFES). Na esteira dos escândalos que abalaram as Fundações de Apoio às Universidades, envolvendo dirigentes do escalão superior, dentre os quais o mais notório foi o reitor da Universidade de Brasília, o TCU baixou um acórdão restringindo o desempenho de atividades remuneradas por parte dos professores em dedicação exclusiva (DE). A solução aventada de mudar o regime de DE para gratificação variável (em função de estar ou não recebendo por projetos ou bolsas) enfrentou rejeição abrangente (por motivos distintos e até opostos) do ANDES às direções das Fundações. Mais uma vez o governo empurrou com a barriga a decisão final sobre a questão. Permanece o regime de mercado persa, ou seja, tudo vale desde que seja para a compra e venda...
Em junho, o texto escolhido foi Sociedade sem salas de aula de Luis Paulo Vieira Braga, o artigo comenta os desafios trazidos pela massificação do ensino básico e médio assim, como o superior, que após a implantação do REUNI tem metas ambiciosas de dobrar o contingente discente em três anos. A viabilização de um ensino de massa de qualidade passaria pela adoção de notas tecnologias de ensino, tais como o ensino a distância (EAD). Para uns, trata-se de uma revolução no ensino, para outros, mais uma forma de negar às camadas menos favorecidas da população um ensino de qualidade. A criação da Universidade Aberta do Brasil (que não é uma universidade aberta no sentido estrito do termo), o desenvolvimento de programas estaduais de EAD indica que os governos estão apostando nesta opção. Entretanto, problemas como evasão e curso ralos de conteúdo vêm despertando preocupações entre os especialistas e docentes em geral.
Em julho, o texto escolhido foi Parecer sobre a proposta do curso de nanotecnologia da representação discente no CONSUNI da UFRJ, que se manifesta contrária à aprovação do curso. Fruto do REUNI, este curso, como tantos outros, carece de uma fundamentação melhor em seu projeto pedagógico, assim como do perfil do bacharelando que dele egressar. A imposição de uma expansão acelerada e (desnecessária) de 100% das vagas nas universidades federais vem enfrentando problemas, tanto para implantação de cursos novos, como para a expansão de cursos existentes. Laboratórios lotados, construções inexistentes, improvisações inaceitáveis vêm caracterizando a implantação do REUNI.
Em agosto, o texto escolhido foi Carta aberta ao Ministro da Educação da APEERJ, a Associação de Professores de Espanhol do Estado do Rio de Janeiro, a propósito de um convênio com o Instituto Cervantes da Espanha, anunciado pelo Ministro da Educação para a formação de professores de espanhol. O ato não deixa de revelar os movimentos de vai e vem do Ministério. Graças ao novo ENEM, não haverá exame de línguas estrangeiras, e fala-se em manter apenas o inglês. A exclusão do espanhol provocou reações, principalmente no sul do país, aonde a interação com a Argentina, o Uruguai e o Paraguai é muito intensa.
Em setembro, o texto escolhido foi O vento da liberdade sopra de Luis Paulo Vieira Braga, sobre sua visita à Universidade de Stanford. Em um momento em que muito se fala sobre uma nova era para as universidades federais, encontra-se em uma universidade particular nos EUA, muitas das soluções que, em particular, a Universidade Federal do Rio de Janeiro vem procurando para os seus problemas. Surpreendentemente, pouquíssimos alunos pagam anuidades, embora tenham que pagar outras despesas tais como transporte, moradia, insumos necessários ao curso, etc. No entanto, como os conjuntos residenciais são próximos ao campus, pouco se despende com condução. A universidade de Standord sempre esteve envolvida com o sistema produtivo norte-americano. Transporte ferroviário na sua origem, hardware e software nos anos setenta, e agora a interdisciplinaridade. Uma das mais desejadas universidades do mundo tem um processo de seleção artesanal, baseado em notas de exames de certificação, boletins escolares, carta de apresentação e entrevistas. O seu lema – O vento da liberdade sopra - encarna a defesa da liberdade como fundamento do progresso humano e científico.
Em outubro, o texto escolhido foi Outros argumentos contra o Qualis de Armando Neves, o texto sugere que a melhor alteração no QUALIS é acabar com ele. A explosão de indignação reflete o sentimento de muitos professores, grupos de pesquisa e comitês editoriais em todo o país. Argumentando que para um critério ser bom não basta ser objetivo, o autor enumera seis razões para se abandonar o critério do QUALIS, repudiado até pela União Internacional Matemática. O tema alimentou polêmicas durante todo o ano e espera-se que em 2010 haja uma reformulação deste critério a partir de um seminário que será organizado para discuti-lo.
Em novembro, o texto escolhido foi O Sistema Estadual de Ensino Superior do Paraná de Clóvis Pereira da Silva, o texto faz um diagnóstico da qualificação docente do sistema estadual de ensino superior do Paraná, recomendando em seguida um Plano Estadual de Capacitação Docente, para que a qualidade dos cursos de graduação e pós-graduação possa ser melhorada.
O Observatório da Universidade parte para mais um ano de atividade e não podia deixar de agradecer a todos os seus leitores, contatos e colaboradores pela participação e apoio, sem o que nosso trabalho teria sido em vão. Desejando que a educação em geral e a superior em particular tenham dias melhores em 2010, despedimo-nos com efusivos votos de um Feliz 2010. Lembrando que, no próximo ano realizar-se-á a Conferência Nacional de Educação que traçará as diretrizes para a educação brasileira nos próximos anos.
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