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quarta-feira, novembro 25 2009 - 06:31
O caso Uniban e a banalização do ensino superior: da torre de marfim ao campus de barbáries
por Leandro Nogueira
Geisy Arruda, a jovem universitária do microvestido, arrebentou por completo a boca do balão, como se costuma dizer popularmente: envolveu instituições como a imprensa, a UNE e o MEC, além de boa parte da opinião pública e de setores da direita, na defesa do seu inalienável direito de exibir o próprio figurino de mulherão com pernas generosamente à mostra, isso no ambiente de um campus universitário, bem como na condenação aos alunos que a insultaram e também à reitoria da universidade que pretendeu culpá-la e bani-la, em prol da preservação da mais elevada “atitude acadêmica”.
Mais ainda, a estudante virou celebridade disputada à tapa por programas de TV em São Paulo, ganhou música em ritmo de axé, aguçou o interesse da Playboy e motivou a publicação de inúmeros artigos de colunistas ligados aos principais jornais brasileiros.
Não será surpresa, de acordo com o andar dessa carruagem, se a moça for escalada na próxima turma do Big Brother ou, quem sabe, aparecer como convidada especial de uma novela da Globo.
Andy Warhol, se vivo ainda fosse, veria confirmada mais uma vez a sua famosa profecia pós-moderna sobre os quinze minutos de fama para o resto de todos nós.
Causa espécie entretanto, que o caso em questão não tenha motivado qualquer debate significativo envolvendo reflexões sobre a questão universitária, mormente sobre a concepção de ensino superior que ameaça alastrar-se apartada da educação e, por conseguinte, do compromisso com a evolução do processo civilizatório.
Nem mesmo os recentes textos de Joel Birman e Renato Janine Ribeiro, dois respeitáveis acadêmicos, publicados no domingo do dia 15 de novembro, no Jornal do Brasil e na Folha de São Paulo respectivamente, dedicaram maiores espaços a esse tipo de debate.
Tanto Birman quanto Janine Ribeiro, não obstante as relevantes contribuições de ambos para o entendimento do caso Uniban, optaram por uma abordagem que privilegiou argumentações acerca da sexualidade mal resolvida entre os indivíduos e suas instituições.
Birman atribuiu a explosão de bárbarie ocorrida na Uniban, quando Geisy Arruda por pouco não foi linchada, à influência deletéria do discurso machista e de suas práticas violentas correlatas, que não raro, manifestam-se não apenas contra os homossexuais, mas também contra as mulheres, que são tratadas como prostitutas caso não se adequem aos padrões disseminados por sua lógica.
Padrões que o articulista faz questão de lembrar, mesclam razões políticas com as de ordem moral nos problemas relacionadas ao campo da sexualidade.
Por sua vez, Janine Ribeiro priorizou as sua argumentações em torno de uma outra vertente da sexualidade mal resolvida, atribuindo à “esfera do desejo”, o status de questão central no caso da aluna da Uniban.
Janine Ribeiro até reconheceu a educação como “uma grande (outra) questão” no caso Uniban, lembrando que o ensino universitário proporcionado pela instituição paulista estaria sendo questionada a partir do caso Geisy, e não em sua qualidade.
Sem embrago, o mesmo articulista ainda lembrou que a educação proporcionada pela Uniban vinha sendo criticada há tempos, mas admitiu não dispor de dados mais precisos a esse respeito, já que à época em que foi diretor da Capes - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - , percebeu avanços da Uniban nos seus mestrados e no único doutorado, mas nada detectou acerca de sua graduação.
Sem mais delongas, Janine Ribeiro pontuou que seria preciso avaliar se a educação da Uniban estáaria melhorando ou piorando, em vez de ler generalidades que não responderiam a essa pergunta central.
Neste pequeno texto entretanto, ainda que reconhecendo a validade das análises de Birman e Janine Ribeiro, penso que a questão central do caso Uniban remete sim, à questão educacional, mais precisamente à educação universitária que vem sendo perpetrada nos cursos de graduação.
Com efeito, em quase todo o mundo (não apenas no Brasil, diga-se de passagem) testemunha-se o simulacro da democratização do ensino de graduação universitária, invariavelmente massificado e invadido por processos de formação tão aligeirados quanto academicamente suspeitos, que são cada vez mais assemelhados a cursos pós-secundários e com prestígio flagrantemente esvaziado na comparação com o ensino de pós-graduação stricto sensu.
Em outras palavras, constata-se em todas as universidades, de forma lamentável, o esvaziamento educacional dos cursos de graduação universitária e a priorização inequívoca dos cursos de mestrado, doutorado e pós-doutorado.
Segundo essa “renovada” concepção de educação universitária, somente uns poucos cursos de graduação ainda seriam tributários de alguma respeitabilidade acadêmica, como a “tríade de ouro” composta por Medicina, Engeharia e Direito, por exemplo.
E isso na esfera das instituições públicas.
No cômputo geral, prevaleceria uma espécie de geléia geral na graduação dos novos estudantes universitários (vide o decreto que iimpôs o REUNI às IFES), com processos de formação cada vez mais flexibilizados ou carentes dos necessários recursos às suas dinâmicas acadêmicas, que eventualmente somente seriam potencializadas com o aporte de “parcerias” firmadas junto à iniciativa privada, no caso das universidades públicas, ou mediante o pagamento de expressivas anuidades, no caso de algumas poucas e privilegiadas instituições universitárias privadas.
Estaríamos testemunhando então, a plena manifestação de um darwinismo univeristário - que vale dizer, como todos os outros darwinismos, jamais teve algo a ver com Darwin, mas somente com a exclusão sem culpa de seus idealizadores - ,no qual somente os mais fortes sobreviveriam à nova concepção dos cursos de graduação, adquirindo o direito de ascender posteriormente aos cursos strictu senso, os únicos reconhecidos como legítimos espaços acadêmicos fautores da denominada “produção do conhecimento”.
Pode ser ainda, mais precisamente, que tenhamos de concordar com Harry R. Lewis, professor de ciências da computação e ex-decano do Harvard College, que estamos na idade em que as universidades trocaram a missão de educar, pela mera intenção de satisfazer o consumidor, como bem cabe a toda e qualquer empresa submetida à lógica do capitalismo..
Para o influente acadêmico, depois da Segunda Guerra Mundial havia um consenso explícito sobre a responsabilidade de Harvard e também das outras universidades em preservar a civilização. Afinal, a sociedade acabara de testemunhar a possibilidade de a vida civilizada e o aprendizado desaparecerem da Terra.
Lewis entende que não existe mais acordo algum sobre a educação em Harvard, no sentido de que existem fatos e valores que os estudantes devem aprender antes de se graduarem.
O autor, que também foi professor de Bill Gates em Harvard, expôs a sua tese em Excellence Withou a Soul : How a Great University Forgot Education (Public Affairs, 2006), criticando simplesmente a qualidade da educação superior da universidade de maior orçamento e prestígio em todo o mundo.
Voltando ao Brasil e ao caso Uniban, o que temos a partir de uma visão geral (at a glance) é um sistema universitário altamente privatizado, com pouco mais de um quarto dos estudantes em instituições públicas, carente de uma política nacional promotora do processo de democratização da excelência acadêmica, sem qualquer compromisso com a melhoria do ensino básico e com graves problemas do ponto de vista institucional, especialmente nas universidades públicas, com departamentos que não favorecem o desenvolvimento de programas interdisciplinares e a canibalização dos cursos de graduação em favor dos cursos de pós-graduação stricto sensu.
Com esse perfil francamente exposto ao totalitarismo de mercado, o ensino de graduação universitária não tem como expressar qualquer acordo sobre a educação, no sentido civilizatório de que existem fatos e valores fundamentais que os estudantes devem considerar no processo do chamado ensino superior.
Muito pelo contrário, ao invés disso os estudantes são incitados à exarcebação da competitividade, da produtividade, da maximização de todos os recursos (sobretudo do tempo), do oportunismo destituído de princípios éticos e da coisificação generalizada das relações humanas, sendo eles próprios equiparados à mera condição de consumidores, já que cidadania e democracia são apenas adjetivos que não devem causar maiores embaraços ao “progresso”.
Esse “progresso”, como se sabe, é o mito primordial do capitalismo, o sistema econômico historicamente autocentrado na produção e acumulação incessante do capital, igualmente reconhecido pelo sociólogo americano Immanuel Wallerstein como sexista e racista.
Assim, curvadas cada vez mais às “naturalidades” de um sistema econômico patentemente absurdo, porque todos os seus valores concorrem para que se acumule capital, afim de que mais capital seja constantemente acumulado, incitando todos ao típico comportamento de ratos brancos em uma roda de gaiola, que correm cada vez mais rápido para poder correr ainda mais rapidamente, as universidades não têm como se afirmar enquanto autênticas instâncias de educação superior, mas qualificam-se tão somente como reprodutoras massificadas das relações mercantilizadas e fundamentalmente violentas da civilização capitalista.
À luz dessa interpretação, longe de constituir surpresa, a violência sofrida pela estudante Geisy Arruda não passa de uma inovação da barbárie estudantil que resultou na morte do estudante Edison Tsung Chi Hsuen, em 1999, na piscina da Atlética da USP (Universidade de São Paulo).
Nesse sentido, a influência do discurso machista, como apontado por Birman ou tara incontida dos estudantes da Uniban, incapazes de exercer o autocontrole diante de um corpo feminino trajado em tentadora microvestimenta, como pontuou Janine Ribeiro , podem estar mais para efeito do que causa.
E talvez a qualidade da educação superior, sobretudo nos cursos de graduação, não seja apenas mais “uma grande (outra) questão” a ser considerada no caso Uniban.
Muito pelo contrário, a questão da qualidade na educação universitária bem pode estar no cerne deste e de numerosos outros casos, que famosos ou não, ameaçam a outrora torre de marfim, do extremo pedantismo e arrogância, à condição de fautora do campus de barbáries.
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