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observatório da universidade ANO IV
Outros argumentos contra o Qualis
segunda-feira, outubro 12 2009 - 05:11

Outros argumentos contra o Qualis

Armando G.M. Neves

Algumas semanas atrás troquei com meus colegas do Depto. de Matemática da UFMG uma série de mensagens em que me manifestava contra o Qualis e sugeria que a melhor forma de melhorá-lo era acabar com ele. Reproduzo aqui com algumas modificações o conteúdo da última mensagem que enviei: Caros colegas, Talvez eu tenha sido meio enfático demais em minha proposta e talvez até não tenha sido levado a sério por causa disto. Mas tenho uma proposta concreta para melhorar o Qualis: acabar com ele. Seguem aqui alguns argumentos sérios para isto e que podem ser colocados em um documento bem embasado a ser apresentado à Capes.

1. Em meus diversos contatos com pesquisadores das mais diversas áreas dentro desta universidade e de outras descobri que os menos adeptos a uma classificação numérica de alunos, ou universidades, ou cursos, etc, somos nós cientistas exatos. É incrível, mas enquanto biólogos ou historiadores, só para citar dois exemplos, adoram atribuir números reais não-negativos a entes abstratos, nós, que estudamos os números, resistimos a isto. E o fazemos porque sabemos muito bem que os cursos de pós-graduação, por exemplo, não são um conjunto parcialmente ordenável. Muito menos linearmente ordenável. Acho que se a iniciativa de explicar isto aos demais cientistas partisse de nós matemáticos, existe uma boa chance de que sejamos escutados.

2. Por pior que seja, o Qualis atual foi baseado em um critério objetivo e tem por finalidade facilitar a avaliação de cursos. Tentar mesclar esse critério objetivo atual com uma certa dose de bom senso, por exemplo colocando no nível A1 uma revista de cada área da Matemática, significa que estamos aceitando que critérios puramente objetivos são inaceitáveis. Por que continuar insistindo com eles?

3. Supondo que decidamos então por continuar com um critério puramente objetivo, iremos propor um novo critério, pois estamos insatisfeitos com o atual. Quem garante que algum critério objetivo não irá causar distorções semelhantes ou até piores que o critério atual? Não seria a instituição de um critério objetivo para julgar cursos de PG uma mera luta de poder, cada um querendo inventar um critério que "justamente" o beneficie?

4. Embora o objetivo do Qualis não seja o de classificar pesquisadores, e sim cursos, qualquer um que quiser utilizar o Qualis para classificar pesquisadores poderá fazê-lo. Por exemplo, por ocasião da minha promoção a Professor Associado, o parecer que recomendava tal promoção dizia que eu possuía publicações em revistas de bom nível. Será que o parecerista não se baseou no Qualis?

5. Um dos bens mais preciosos que possuímos é a liberdade de pensamento. Nunca ouvi dentro da universidade, a não ser por questões éticas, que se dissesse a algum professor que ele não poderia dirigir sua pesquisa em uma determinada direção. Embora o Qualis não seja de forma alguma imperativo, não há como negar que sua existência direcione a pesquisa de forma a que seja publicável nas revistas mais bem classificadas. A Capes está ligada ao Ministério da Educação e portanto ao governo. Estamos portanto permitindo ingerência do governo dentro das instituições de pesquisa. No caso das universidades, isto é uma afronta ao art. 207 da Constituição, que diz que as universidades são autônomas do ponto de vista científico.

6. Cito novamente um trecho que retirei de "Citation Statistics, A report from the International Mathematical Union (IMU) in cooperation with the International Council of Industrial and Applied Mathematics (ICIAM) and the Institute of Mathematical Statistics (IMS)", www.mathunion.org/fileadmin/IMU/Report/CitationStatistics.pdf : "But citation data provide only a limited and incomplete view of research quality, and the statistics derived from citation data are sometimes poorly understood and misused. Research is too important to measure its value with only a single coarse tool." Embora o contexto de onde foi retirado esse trecho seja o de classificar pesquisadores através de número de publicações ou de citações ou fator de impacto, etc, o mesmo se aplica ao Qualis. A qualidade de um artigo não pode ser confundida com a qualidade de um periódico, assim como a qualidade de um periódico não pode ser medida por um único número. Além do mais, assim como eu, muitos devem ter suas experiências pessoais negativas de ter seus artigos rejeitados em determinadas revistas por serem pouco conhecidos, ou por rivalidade ou inimizade com o referee, ou por motivos políticos. Nesse caso, muda-se de revista, quase sempre para uma menos conhecida, de menor impacto, Qualis mais baixo, e publica-se onde for possível, não é? Será que os conceitos dos cursos de PG ou dos pesquisadores têm que sofrer por causa disto? Não seria muito mais justo, embora mais trabalhoso, se só a qualidade das publicações fosse levada em conta? Vou parar por aqui, mas gostaria que meus colegas mais influentes no meio científico abraçassem essa luta. Seria uma excelente contribuição da Matemática a si mesma e ao resto da Ciência brasleira.

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