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observatório da universidade ANO VI
O vento da liberdade sopra (III)
quinta-feira, setembro 10 2009 - 08:45

O vento da liberdade sopra (III)

Luis Paulo Vieira Braga

O processo de seleção de alunos para a universidade reflete necessariamente o sistema de educação norte-americano. Desde sua fundação, a universidade de Stanford baseia-se no tripé: rendimento escolar prévio; desempenho em provas de aptidão (SAT, ACT) e qualidades pessoais. Enquanto que os dois primeiros fatores são mais objetivos, o último varia de acordo com a época (por exemplo, o número de mulheres já foi limitado a 500 no passado). Conduta pessoal e atividades extracurriculares são itens de peso em um processo dos mais meticulosos que se tem notícia. A justificativa para a importância dada a estes aspectos, deve-se ao fato de que os alunos vão residir na universidade durante muitos anos.

O candidato a aluno em Stanford deve apresentar os seguintes documentos: histórico do high school; resultados de testes SAT ou ACT; apresentação pessoal por escrito; histórico da escola secundária; 2 cartas de referência de professores das séries 10 a 12. É uma avaliação feita ao longo da vida do estudante em contraste com aquela baseada exclusivamente numa bateria de provas. A apresentação pessoal permite que o candidato demonstre outras qualidades, tais como, civilidade, iniciativa, atividades extra-curriculares (muito consideradas em Stanford). A operacionalização do processo dura vários meses e cada dossier pode ser examinado por até 4 avaliadores diferentes (professores e doutorandos). Anualmente a universidade recebe da ordem de 15.000 pedidos de inscrição, destes, cerca de 20% são admitidos, mas 60% dentre eles efetivamente se matriculam (a natureza do sistema de seleção nos EUA possibilita que o aluno aplique simultaneamente para várias universidades). O que resulta numa entrada de 1.500 a 2.000 novos alunos por ano. Do ponto de vista mais objetivo há limiares mínimos que habilitam um aluno a entrar em Stanford, entretanto, os sistemas de cotas raciais, de cotas para atletas e de cotas preferenciais para filhos de professores da universidade desequilibram um pouco a meritocracia estrita (falaremos disso mais adiante).

Desnecessário dizer que as diferenças com respeito ao sistema praticado no Brasil são abissais, mesmo levando-se em conta as recentes modificações introduzidas pelo MEC (novo ENEM). Alegando o caráter classista do vestibular (selecionaria renda e não competência, segundo o reitor da UFRJ) o ministro da educação propôs uma revolução no vestibular, que consiste na realização de uma prova única em todo o país para as universidades federais, possibilitando ao aluno maior escolha de cursos e universidades. Ora, nada indica que o novo processo irá efetivamente democratizar o acesso à universidade, nem desburocratizar sua operacionalização. Se ao invés de mudanças circunstanciais, o MEC, ou melhor ainda, uma agência governamental independente do MEC implantasse um sistema de certificação nas disciplinas do ensino médio para configurar um dossier do aluno, teríamos de fato mudanças no sistema de acesso ao ensino superior no país.

Ações afirmativas são praticadas nos EUA, em geral, e em Stanford, em particular. São focadas na questão étnica, fruto dos intensos conflitos raciais dos anos sessenta que expuseram ao mundo a desigualdade de oportunidades para os afro-americanos. Baseando-se nas proporções demográficas de cada etnia na Califórnia, são estabelecidas cotas para afro-americanos, nativos e chicanos. Esta política e o fato de que asiático-americanos apresentam um excelente rendimento escolar resultaram na redução da proporção de brancos matriculados em Stanford em até 20% relativa à proporção demográfica observada no estado ! Outros fatores também vêm criando tensões no sistema de acesso às universidades mais disputadas do país (Ivy League). A maioria delas depende de doações, assim tem havido favorecimento a alunos, cujas famílias sejam doadores potenciais. Além disso, devido às cotas preferenciais para atletas, famílias mais abastadas têm conseguido matricular seus filhos nas melhores universidades, engajando-os na prática de esportes mais caros, tais como vela, hipismo, etc...Neste cabo de guerra, a classe média americana típica vem perdendo terreno para as minorias, por um lado, e para a classe alta, por outro.

No Brasil, tudo indica que as cotas raciais terão vida curta, uma vez que esta recomendação foi excluída do recém aprovado (na Câmara dos Deputados) Estatuto da Igualdade Racial. Uma ação de inconstitucionalidade sobre cotas raciais também aguarda julgamento no STF. A tendência dominante é favorável a cotas sociais, que seriam garantidas na reserva de vagas para alunos oriundos da escola pública. Entretanto, sem apoio substancial ao estudante carente, e à sua família durante o período de estudos, será muito difícil que o programa tenha sucesso.

Encerramos com este texto a série sobre a Universidade de Stanford, que deverá ser ainda complementada por um fotoblog. Em breve divulgaremos outra matéria especial, desta vez focada no Ensino a Distância, um tema que também vem provocando muitos debates em todo o país.

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