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domingo, julho 05 2009 - 04:32
Off Campus*
“Vai aqui uma disgressão apressada, mas não parece descabido supor que a proliferação desses espaços revele sinais de esgotamento da universidade.”
In A fetichização do Conhecimento, por Flávio Moura, sobre a FLIP de 2005, em artigo republicado pelo OBSUNI em setembro de 2008.
Em mais uma edição de sucesso, contabilizando palestras de qualidade e milhares de espectadores, a Feira Literária de Paraty de 2009 prova que há (e muita) vida inteligente fora dos campi universitários. Somando-se à recente decisão do Supremo Tribunal Federal desobrigando a necessidade de diploma universitário para o exercício da profissão de jornalista e ao sucesso da Casa do Saber no Rio de Janeiro, pode-se começar a especular (com exagero) se não estamos assistindo ao alvorecer de uma sociedade sem universidades, pelo menos naquelas atividades ligadas à cultura que são avessas ao caráter estatal, que as universidades ditas públicas assumiram nos últimos anos.
Ouvindo a palestra de Ma Jian e lendo o seu livro Pequim em Coma sobre a brutal repressão do regime comunista chinês contra os estudantes universitários, em 1989 na Praça da Paz Celestial, não se pode deixar de refletir sobre o papel trágico da universidade – compor-se com o poder constituído, ou ser aniquilada. Com mais, ou menos truculência, os governos em todo o mundo, e não necessariamente as sociedades de seus países, transformaram as universidades em reservas para o pensamento selvagem. O taylorismo bem sucedido na organização dos métodos de trabalho, foi adaptado à vida universitária, e rege com tempos e movimentos cada vez mais determinados o que alunos e professores podem e devem fazer.
A universidade é uma instituição relativamente nova no Brasil, mesmo para os padrões latino-americanos, apesar disso já viveu muitas crises e transformações. Marcada pela impertinência nos anos sessenta, conheceu um progressivo processo de estatização até a redemocratização, quando então foi assimilada ao produtivismo nos anos de FHC, sem, entretanto, libertar-se do jugo estatal. Já no atual governo a ênfase é a sua integração às políticas sociais com a ampliação acelerada de vagas e cursos.
Richard Dawkins outro palestrante ilustre na FLIP destacou o caráter humano único do pensamento com consciência, cuja origem é ainda um mistério. O pensamento que vive nas reservas dos campi universitários é um pensamento cada vez menos consciente por um lado, e cada vez mais de locação por outro.
*Luis Paulo Vieira Braga é professor associado na UFRJ
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