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sábado, junho 06 2009 - 09:55
Sociedade sem salas de aula*
Na década de sessenta o educador austríaco Ivan Illich propôs uma utopia educacional – Uma sociedade sem escolas, com um sistema educativo capaz de assegurar simplesmente a quantos desejassem instruir-se, em qualquer assunto, o acesso aos conhecimentos adequados. De funil seletivo e autoritário, o sistema educacional passaria a ser uma igualitária rede de intercâmbio entre espíritos curiosos, libertos de toda autoridade docente. Só uma renovação total das instituições educativas, propiciaria a esperada mudança social –(1) . O sonho não se realizou, e em muitos países permanece o pesadelo da ausência de escolas e de qualquer alternativa a elas, enquanto que na maioria dos países desenvolvidos ou em desenvolvimento, as instituições educacionais experimentaram um crescimento marcante, com o aumento geral de todo o tipo de matrícula. Este processo foi acompanhado por uma renovação de conteúdos, metodologias e tecnologias. A sala de aula, célula da escola, transformou-se, significativamente, diversificando-se em oficinas, laboratórios e excursões de trabalho de campo. O desafio, entretanto, de educar contingentes de alunos, cada vez mais numerosos, distantes ou de acesso dificultado, foi respondido com a potencialização dos métodos de ensino através das modernas tecnologias de informática e comunicação. A virtualização dos processos de ensino e aprendizagem com o advento de browsers 3D e de interfaces cada vez mais realísticas rompe com todos os limites técnicos diagnosticados até agora como restritivos ao ensino a distância (EAD), exceto pelo elevado custo que estes equipamentos ainda têm.
Evidentemente, nenhuma destas tecnologias substitui a função social da escola e sua importância para o desenvolvimento psicológico dos jovens, mas permitirá reduzir em muito o excessivo e compulsório tempo dispendido em sala de aula, tanto por alunos, como por professores, liberando-os, supostamente, para atividades mais criativas e produtivas. Os papéis desempenhados por professores e alunos estão passando por uma mudança radical, ao professor não caberá mais a tarefa de prover o ensino e o entendimento, mas o de acompanhar, orientar e avaliar os alunos. Enquanto que, ao aluno será atribuída a tarefa de buscar o conhecimento através dos meios diversificados, colocados à sua disposição.
Uma nova utopia desenha-se no horizonte – ensino de qualidade para todos, 24 horas por dia, a domicílio. Os números de matrículas nesta modalidade de ensino se contam aos milhões. E são nos países em desenvolvimento que o EAD traz alento à população e aos governantes. Índia, Paquistão e Brasil desenvolvem projetos ambiciosos tanto de natureza regional, como urbana. Ou seja, o alvo não é somente o aluno que mora em regiões de difícil acesso, como na Amazônia, por exemplo, mas também o adulto que mora e trabalha em grandes centros, não dispondo de tempo para seguir um curso formal.
Mas, se os acertos se fazem à velocidade da luz, em termos de EAD, os equívocos também podem ocorrer no mesmo ritmo. Cursos enganosos podem se aproveitar da virtualidade para enganar com mais facilidade tanto os órgãos fiscalizadores, como os estudantes, oferecendo um ensino de baixa qualidade. Já cursos sérios correm o risco de ter altas taxas de evasão, diante da dificuldade em superar exames que necessariamente devem ser presenciais e compatíveis com os níveis exigidos em cursos análogos consagrados. Por este motivo, detratores do EAD vêem com desconfiança o seu uso, como uma maneira de prover ensino barato e de baixo nível para a população, por parte dos governantes. Temem ainda que o EAD seja a via de entrada das instituições internacionais de educação no sistema de ensino do país, o que ainda não ocorreu por causa da resistência da sociedade civil em admitir a categoria de serviço para a educação, contrariando as recomendações da Organização Mundial do Comércio (OMC).
As utopias são uma contínua fonte de inspiração, mas, uma após outra sofrem grandes transformações no embate com a realidade. De certo, somente uma coisa, a educação no século XXI será radicalmente diferente daquilo que ela foi no passado.
* Luis Paulo Vieira Braga é professor associado da UFRJ
(1)http://www.estudantedefilosofia.com.br/conceitos/educacaoemumasociedadesemescolas.php
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