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observatório da universidade ANO IV
A dor no coração do INPE
sexta-feira, março 13 2009 - 03:25

A dor no coração do INPE*

Gilberto Camara

O INPE acaba de contratar (com dor no coração) a industria argentina INVAP para nos fornecer a tecnologia de controle de órbita para os futuros satélites brasileiros do programa PMM (plataforma multi-missão). Prevemos lançar pelo menos sete satélites com a PMM ate 2020. Pagaremos módicos 20 milhões de dólares. Poderia ser pior. Os franceses queriam 30 milhões, sem garantia de transferência de tecnologia.

Isto não é um caso isolado. Nossa industria aeroespacial não sabe fazer software. Os aviônicos da EMBRAER também são importados. Nossos engenheiros eletrônicos e aeronáuticos são bons de hardware. Mas na hora de fazer software confiável em tempo real, necas. Esta falha vem do berço. A lógica de publicação dos "epsilon papers" que se instalou na universidade brasileira limita a realização de projetos de software mais arrojados, com riscos e prazos maiores.


A regra geral é: "Quanto maior é o software, menor é a quantidade de papers per capita que se produz". Colocar cinco alunos para fazer cinco teses de doutorado bem diferentes (e cada uma sendo uma contribuição "epsilon" à literatura) gera pelo menos dez papers, seja em revistas ou em conferências. Colocar cinco alunos para fazer parte de um projeto de longo prazo, que tenha metas ambiciosas, gera cinco papers se tanto.


Uma das razões porque mantemos um programa de pós-graduação em Computação no INPE é porque precisamos dar à nossa equipe uma formação que eles não recebem na graduação e no Mestrado. O aluno que recebemos, inteligentes e talentosos, não tem noção do que seja desenvolver software para valer. Especialmente na área de> Engenharia de Software, a formação deles é muito limitada.

Não vejo saída em curto prazo. Exemplos virtuosos como o CESAR/UFPE e o TECGRAF/PUC-RIO ainda são insuficientes para convencer nossos representantes na CAPES e no CNPq que a Computação precisa de parâmetros de julgamento específicos. Assim como na Sociologia e na Filosofia valorizam-se livros e não papers, na Computação deveríamos valorizar projetos arrojados cujo risco seja proporcional ao conteúdo de inovação. Enquanto isso, nossa equipe do INPE está recebendo tecnologia de software argentina... Quem diria!

*INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

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sp
sexta-feira, outubro 16 2009 - 09:52
sp
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Julio Cesar Leite
terça-feira, março 17 2009 - 05:18
Política Industrial
O comentário que enviei pode ser visto formatado e com elos em: http://jcspl.wordpress.com/2009/03/17/politica-industrial/
Julio Cesar Leite
terça-feira, março 17 2009 - 03:19
Política Industrial
Prezado Gilberto, Primeiro parabéns pela transparência. Gostaria de tecer alguns comentários sobre sua nota. Criar software é distinto de produzir software, tendo em vista que a produção no sentido estrito é apenas o processo de cópia e empacotamento, se for o caso. Criar software requer conhecimento em três grandes áreas: conhecimento da engenharia de software, conhecimento da máquina computacional e conhecimento do contexto. A engenharia de software fornece métodos, técnicas e ferramentas para auxiliar na integração desses conhecimentos. Portanto a capacidade de criar software é extremamente dependente da demanda, ou seja, do contexto e da máquina computacional. Ocorre que em alguns casos, como na área aeroespacial, como você aponta, deixou de haver uma integração entre os especialistas no contexto (aeronáutica) e da máquina computacional (hardware) com aqueles capacitados a criar software. Veja que em outras áreas, como automação industrial, automação bancária, e automação comercial existem vários casos de sucesso com software nacional. O que você reporta é fruto da falta de investimento anterior. Os setores que mencionei acima requerem menos capital para que sejam criados, como também têm um mercado de produção (cópias) bem maior. O que faltou ao longo de alguns anos é uma política de software que pudesse contemplar esses nichos especiais, em particular no setor aeroespacial. Veja o caso do projeto Radam. O software foi desenvolvido nos Estados Unidos, sendo que alguns dos desenvolvedores tinham se formado aqui no Brasil! Portanto a questão é política. Creio que, como eu já tinha apontado em 1991, a política de software concentrada na exportação foi equivocada. A intenção era a melhor possível, mas faltou uma visão macro. Você só exporta quando é competitivo e para ser competitivo é preciso saber fazer: ou seja, adquirir experiência na integração das três áreas apontadas acima. O resultado é que vimos ao longo desses 17 anos o crescimento substancial de nosso debito em conta corrente no que tange a serviços, ou seja, aumentamos em muito a importação de software e os avanços na exportação, que são louváveis, ficaram bem abaixo do esperado. No entanto, para tecer mais comentários sobre essa questão, seria necessário um estudo cuidadoso das contas nacionais e do levantamento de áreas prioritárias para que se evite, no futuro, situações como essa que você reportou. Veja que o que estou falando acima é sobre política industrial, na qual a universidade é parte, mas não o centro. O ponto central é que precisamos unir os três tipos de conhecimento acima. Isso é difícil porque, porque, por exemplo, muitas vezes o fornecedor do hardware é opaco sobre informações importantes para a construção de software, só abrindo para empresas coligadas. No fundo, precisamos de mais investimento e esse investimento tem quer ser fomentado pelo estado, principalmente em áreas críticas e de grande especialização. Veja que os avanços alcançados nos Estados Unidos na área de computação/informática é função do montante que o estado investiu e investe nessa área (em recente entrevista a revista Isto É, creio, o Professor Noam Chomsky aponta essa característica estatizante na indústria de computação nos Estados Unidos).
Luis Paulo
sábado, março 14 2009 - 02:19
A dor no coração de todos nós
O pequeno grande texto de alguém que está no topo de uma das mais importantes instituições de desenvolvimento científico e tecnológico do país reflete a insatisfação reinante em muitos departamentos acadêmicos de computação Brasil afora. Poucas vezes falou-se tão claro do preço que o país está pagando pelo modelo de financiamento à pós-graduação e pesquisa em computação. Infelizmente, o equívoco não se limita à computação, mas em muitas outras áreas aplicadas, o modelo formalista publicador vem se impondo, como em uma inquisição que lança à fogueira grupos e indivíduos produtivos que não se integram às suas normas.
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