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observatório da universidade ANO IV
A Aula Magna de Nietzsche na Universidade Federal do Rio de Janeiro
sábado, fevereiro 28 2009 - 05:43

A Aula Magna de Nietzsche na Universidade Federal do Rio de Janeiro*

"Quando fui, pela primeira vez, ao encontro dos homens, cometi a loucura própria dos anacoretas, a grande loucura: coloquei-me na praça pública. E, ao falar a todos, não falei a ninguém. À tardinha, porém, os meus companheiros eram saltimbancos e cadáveres; e eu próprio era quase um cadáver. Com o novo dia, no entanto, ocorreu-me uma nova verdade; aprendi, então, a dizer: que me importam a praça pública, mais a populaça, mais o barulho da gentalha e as orelhas compridas da populaça?"

Para mim foi uma grande surpresa ter sido convidado a proferir a Aula Magna do corrente ano em uma universidade na América Latina. Mais ainda quando soube que os custos de minha viagem seriam bancados por uma empresa alemã – a siderúrgica Thiessen Krupp, empenhada na construção de uma gigantesca planta no Estado do Rio de Janeiro, empreendimento que dificilmente seria autorizado na Europa devido às normas de controle ambiental. Se o Brasil se rege pelo que ocorre no Rio de Janeiro pode-se anunciar que o país atravessa um descontrolado processo de industrialização que vitimou o próprio campus aonde se situa a Universidade Federal do Rio de Janeiro, tomado pelas novas instalações de um gigantesco prédio da super estatal Petrobrás, empresa voltada para a produção, refino e distribuição de petróleo. Orgulhosos, os diligentes funcionários da universidade que me acompanharam do aeroporto fizeram questão de registrar que em outro campus da universidade também se preparam grandes obras. Os campi das universidades federais, segundo o que me contaram, têm muita área ociosa e por todo o país os seus dirigentes estão traçando ousados planos de ocupação e expansão.

Confesso que foi a curiosidade pela vida na colônia que mais pesou na minha decisão de fazer uma longa viagem aos trópicos, creio que a curiosidade também valeu como motivo para os meus anfitriões. Não espero nenhuma dissidência, pelo contrário, é a caricatura do modelo ocidental de universidade, tão comum na periferia, que torna mais palpável minha argumentação contra as instituições aparentemente promotoras da cultura, que no fundo nada sabem dos propósitos de uma verdadeira cultura e agem apenas segundo seus interesses. O Estado “somente a promove para promover a si mesmo”, os negociantes ao exigirem instrução e educação querem “sempre em última análise o lucro” e “aqueles que têm necessidade de formas…a única coisa clara…é que eles dizem sim a si mesmos, quando afirmam a cultura”. Os eruditos impedem com sua ação o surgimento do gênio, pois a cultura para eles é apenas utilitária e os grandes homens seriam uma ameaça à sua mesquinhez.

Desde esta perspectiva a cultura seria a produção de uma certa inteligência comum, mediana, que formasse “o maior número possível de homens correntes, no sentido que se fala de moeda corrente”, homens dispostos a ganhar dinheiro. A cultura estaria voltada para a produção de necessidades para o consumo; deve ser rápida, para formar o mais rápido possível homens que produzem e consomem, pois no consumo está centralizada a busca da felicidade: “não se atribui ao homem senão justamente o que é preciso de cultura no interesse do lucro geral e do comércio mundial”. O estado incentiva a difusão da cultura para o maior número possível de pessoas unicamente para servir-se delas em suas instituições e usá-las como joguetes.. O Estado é quem constrói os diques para utilizar toda esta energia que do contrário poderia ser perigosa para sua sobrevivência.

A indisciplina, a vulgaridade na linguagem dos estudantes, o desrespeito pelas hierarquias académicas, a ignorância da cultura clássica e o desprezo pelo esforço e pela emulação (tão presentes nas atuais escolas estatais) evidenciam a impossibilidade e a inutilidade de ensinar as grandes massas, pois a instrução pública nos grandes Estados será sempre, quando muito mediana, pelas mesmas razões por que nas cozinhas grandes se cozinha, no melhor dos casos, sofrivelmente. A educação pública estatal visa criar rebanhos dóceis, conformistas e ignorantes. A idéia de escola para todos é, na melhor das hipóteses, uma idéia impossível e, na pior das hipóteses, um rebaixamento dos melhores espíritos conducente à degeneração cultural. A atual Universidade de massas pretende que seja possível e desejável abrir o ensino superior a todas as pessoas, incluindo àquelas que não têm talento, nem vontade para se sujeitarem ao esforço continuado e persistente que o acesso à cultura superior exige. Para mim são discípulos indesejáveis aquele que não sabe dizer: "Não!" e este diz em tudo: "Em partes iguais!" Admitindo que eles entendessem a minha doutrina, o primeiro teria muito que sofrer, pois a minha maneira de pensar exige uma alma belicosa, uma vontade de fazer sofrer, prazer em dizer não, uma pele dura - ele sucumbiria às feridas exteriores e interiores. E o outro faria de toda a causa que sustentasse uma coisa medíocre, dando-lhe a forma de um compromisso. Um discípulo assim antes o quero para meu inimigo.

Se a educação do nosso tempo esforça-se em formar uma quantidade cada vez maior de funcionários para o Estado, pessoas comuns, consumidores de uma cultura medíocre, onde buscar uma verdadeira formação? A educação acontece, então, a partir do modelo ou exemplo de vida fornecido pelo mestre, e não pela simples transmissão de conhecimentos. A credibilidade pessoal do mestre ou guia é ainda mais importante que o conteúdo objetivo de sua doutrina .A educação moderna substituiu os verdadeiros educadores que seriam os “modelos ilustres” por “uma abstração inumana” que é a ciência. As universidades fizeram do ensino da ciência algo desligado da própria vida, tornando os eruditos mais preocupados com a ciência do que com a humanidade, esquecendo que sua verdadeira tarefa é “educar um homem para fazer dele um homem” . A esta tendência à especialização soma-se a estreiteza do campo de visão dos cientistas, “sagaz para as coisas próximas, ao lado de uma grande miopia para o longínquo e o geral”. Os seres humanos mais elevados são os que são capazes de se auto-superarem, quebrando as tradições que os prendem a realidades rasteiras. Para voar alto é preciso quebrar as amarras da tradição, da obediência e da servidão.

A possibilidade de uma educação elitista, fortemente competitiva e ancorada na cultura clássica, tinha por finalidade criar espíritos livres, independentes e verdadeiramente superiores. Uma empresa dessas teria, forçosamente, de se destinar apenas aos que merecem a educação superior. Os outros, por não serem merecedores da educação superior, isto é, por não serem capazes de pagar o preço que o esforço de acesso à cultura superior exige, também não precisam dela, "pois o fato de toda a gente ter a possibilidade de aprender a ler corrompe, a longo prazo, não só a escrita, mas também o pensamento...” É graças à competição e ao exemplo dos espíritos mais fortes que é possível desenvolver as capacidades ao ponto de o indivíduo se auto-superar. A educação aristocrática e elitista, baseada não na superioridade de uma raça ou de uma classe social, mas na supremacia da vontade de poder e da inteligência, radica na concepção do homem superior.

Ou seja, embora reconheça a impossibilidade de a grande maioria dos jovens adolescentes terem acesso à cultura superior, por lhes faltar maturidade e aptidão, sei que o maior valor da escola reside no combate à vulgaridade da linguagem, à frouxidão do espírito e da vontade e à superficialidade dos argumentos. Ora, esse combate é mais necessário hoje do que jamais, visto que a vulgaridade, a frouxidão e a superficialidade invadiram o discurso pedagógico e político oficial, usurpando a cultura superior do currículo e as virtudes de excelência da escola. A verdadeira missão da escola, é: "a escola não tem nenhuma missão mais importante do que ensinar pensamento rigoroso, juízo cauteloso e dedução consequente" E isso é tanto mais necessário, quanto se sabe que os talentos inatos de pouco valem se não forem preparados, com tenacidade, persistência e energia, pela educação. Só assim, o indivíduo se "torna, realmente, um talento, para que, portanto, venha a ser aquilo que é; ou seja, traduza isso em obras e ações" . Ou seja, embora céptico em relação à possibilidade e utilidade de uma educação de massas, reconheco o verdadeiro e insubstituível valor de uma educação aberta a todos os que mostrarem poder merecê-la. Mas dar educação aos que a merecem, não é o mesmo que torná-la obrigatória. É até muito diferente!

A liberdade de espírito é impossível com a massificação da cultura e da educação. Ora, a liberdade de espírito exige, rebeldia, subversão, ruptura, conflito, solidão e recriação. Aquele que procura o aplauso fácil não pode aspirar à nobreza de carácter. O timorato, aquele que procura atingir a felicidade no meio dos compromissos, da submissão e do servilismo, nunca deixará de ser um escravo. Os demônios da coletivização e da estatização que devoraram o século vinte surgiram com duas máscaras: a "persona" do socialismo e o seu irmão com duas caras: o nacional-socialismo e o fascismo. Um e outro exemplificariam a vitória da vulgaridade e o esmagamento da liberdade do indivíduo face ao poder do coletivo. Haverá saída para o Homem moderno? Será ele capaz de se transcender, ditar as suas próprias leis e criar uma nova tábua de valores? Para o conseguir, o Homem moderno teria de pagar o preço da solidão, teria de ser capaz de voltar as costas ao Estado protetor e à ilusão de bem estar que as utopias capitalista e socialista engendraram.

* Ficção redigida por Luis Paulo Vieira Braga com base em textos de

Nietzsche (http://www.davemckay.co.uk/philosophy/nietzsche/),

Elenilton Neukamp(http://www.consciencia.org/nietzsche_educacaoneukamp.shtml)

RamiroMarques(http://www.eses.pt/usr/ramiro/docs/etica_pedagogia/NIETZSCHE%20E%20AEDUCA%C3%87%C3%83O.pdf)

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Gervasio Gurgel Bastos
sábado, fevereiro 28 2009 - 09:09
Aula Inaugural de Nietzsche
Meu caro Luís Paulo, gosto de suas intervenções e movimentaçãode ideias, e agradeço sua enorme gentileza em fazê-las chegar até mim. Nesta sua prosopopeia sobre a realidade parafraseando Nietzsche (com a sua noção do Super Homem) vejo colocações belas e instigantes como essa:"A educação acontece, então, a partir do modelo ou exemplo de vida fornecido pelo mestre, e não pela simples transmissão de conhecimentos." Ou essoutra, ao final do ensaio:"Para o conseguir, o Homem moderno teria de pagar o preço da solidão, teria de ser capaz de voltar as costas ao Estado protetor e à ilusão de bem estar que as utopias capitalista e socialista engendraram." Teria. Esse condicional traz consigo a identificação do universo de discurso em que se insere o artigo: A Filosofia; cuja liberdade de se cogitar, no entanto, carrega em si a reprovação da maioria inquieta, que não aceita a maturação de uma utopia, em cujo tempo prefere algo paupável, tipo escambo, feudalismo, capitalismo, socialismos tirânicos com um largo espectro de cores (leninismo, nazismo, fascismo, etc.). Veja o exemplo entre nós do iletrado mas muito esperto (o mundo é deles!) Lula.
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