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observatório da universidade ANO IV
A casta dos superbacharéis
quinta-feira, fevereiro 12 2009 - 09:25

A casta dos superbacharéis*

WILSON JOSÉ VIEIRA

Engenheiro nuclear,Ph.D.

Participo de uma lista de discussão na internet (bolsa_produtividade@googlegroups.com) que tem discutido a utilização de critérios quantitativos para concessão de auxílios financeiros, de bolsas de produtividade e para avaliação de projetos pelas agências de fomento de C&T. O denominador comum é que todos acreditam que o mérito das propostas submetidas aos órgãos de fomento não é devidamente contemplado.

Não há dúvidas sobre o excelente trabalho que fizeram, e que ainda fazem, o CNPq, a Capes e a Fapesp, por exemplo. Todos sabem que a pós-graduação no Brasil é um grande sucesso. No entanto, a procura de pesquisadores e professores por melhores currículos é fomentada principalmente pela supervalorização do número de publicações, especialmente, publicações internacionais, o que chamamos de corrida pelo “currículo por metro”.

Com inúmeras exceções, a corrida pelo currículo/m está concentrando as pesquisas nas linhas mais publicáveis em detrimento daquelas de maior necessidade do país. Alguns pesquisadores e professores admitem que concentram seus esforços na redação de várias publicações similares (autoplágio), fatiam suas pesquisas em vários artigos apenas para aumentar o número, participam de clube de autores que multiplica o número de publicações de cada um, editam periódicos veículos da próprias publicações, evitam pesquisas que demandem tempo ou grandes experimentos, abraçam linhas de pesquisa do exterior com maiores facilidades de publicação; evitam publicar na língua portuguesa; evitam publicar em congressos e revistas nacionais; participam da ciranda dos índices de citação e escolhem orientados com maiores chances de publicarem rapidamente.

Tudo isso os distanciam ainda mais da sociedade brasileira e da atividade econômica nacional. E fazem com que percam oportunidades de descobrir coisas realmente novas e que mereceriam o reconhecimento das comunidades nacional e internacional de C&T. Está-se criando no país uma casta de superbacharéis.

O resultado da discussão é um manifesto pedindo às instituições de fomento que estudem maneiras de melhorar os critérios de avaliação de pedidos, projetos e propostas em C&T. Principalmente, que incluam o mérito. Por exemplo: por que não criar bolsa de produtividade científica, bolsa de produtividade tecnológica, bolsa de produtividade acadêmica, bolsa de mérito científico, bolsa de mérito tecnológico, bolsa de mérito acadêmico? É preciso valorizar cada área e cada atividade. Não é possível essa tábua rasa que coloca pós-graduação, ciência, tecnologia, educação e pesquisa medidas pelos mesmos critérios.

Para considerar o mérito de uma proposta em C&T, penso que os avaliadores devem se perguntar: É realmente uma contribuição à ciência? Trará maiores e melhores conhecimentos teóricos? Ou ainda, de um ponto de vista mais aplicado: é de interesse para o país, para a região? Gera emprego? Substitui importações? Salva vidas? Aumenta a eficiência? Promove a integração do país? Fortalece nossos mercados? Protege o meio ambiente? Aumenta a qualidade de vida? Diminui a poluição? Aumenta a produtividade? Diminui o custo de produção? Se questões como essas não forem consideradas, não conseguiremos transformar ciência em tecnologia, ou, mais claramente, educação em riqueza. A facilidade do julgamento de propostas com base no tamanho do currículo não poderia ser a principal razão para não se considerar o mérito de uma proposta.

Somos bons em ciência, temos excelentes universidades e laboratórios nacionais. Temos núcleos de excelência em várias áreas do conhecimento, mas não se pode perseguir apenas a meta de alcançar nível sete da capes. Qualquer programa de pósgraduação deveria, em primeiro lugar, realizar o que tem de maior mérito. Qualquer pesquisador ou professor poderia propor pesquisas de grande mérito, publicá-las e ter um currículo reconhecido. Mas se a única coisa a valorar for o tamanho do currículo, ele vai publicar um monte de obviedades inúteis enquanto suas idéias mais originais e mais necessárias talvez sejam esquecidas ou desenvolvidas no Primeiro Mundo.

Outra consequência é o inchamento das grandes universidades que absorvem a maioria dos recursos que poderiam ser utilizados para o desenvolvimento de outros polos regionais de C&T no Brasil. Isso, sim, criaria postos de trabalho qualificados e espalharia qualidade de vida pelo país como um todo.

  *
Publicado no Correio Braziliense em 7 de fevereiro de 2009

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José Fernando Mourão Cavalcante - UECE - Fortaleza-CE
domingo, março 22 2009 - 12:48
Avaliação por metro
Parabenizo o Prof. Wilson José Silva pelo seu brilhante artigo publicado no Correio Brasiliense. Você foi direto no assunto, quando afirma "Está-se criando no país uma casta de superbacharéis". Esta corrida pelo "curriculo metro" vem causando nefastos prejuízos ao Brasil, na área de C&T. Está mais do que na hora dos orgãos de fomento deste país começarem a mudar seus critérios quantitativos para concessão de auxílios financeiros, de bolsas de produtividade e para avaliação de projetos de pesquisa. Caso contrário, está-se criando no país uma verdadeira casta de superbacharéis, "made in Brazil".
Maria Aparecida da Silva - Letras UFRJ
sexta-feira, março 20 2009 - 09:41
Esclarecimento, caso seja necessário
Minha postagem do dia 13 de fevereiro é uma resposta ao comentário do colega Renato Janine Ribeiro.
leandra noguira dutra
segunda-feira, março 16 2009 - 10:35
chará
e aí xará
kelly
segunda-feira, março 16 2009 - 10:33
love
Te amo teacher
Jéssica
segunda-feira, março 16 2009 - 10:32
elogio
Adorei tudo q vc escreveu,concordo com vc hoje e sempre já fui aluna do professor Leandro e é o melhor,espero q continui assim.Um abraço.
Maria Aparecida da Silva - Letras UFRJ
sexta-feira, fevereiro 13 2009 - 02:31
Parâmetros
O caro colega que me perdoe, mas retornamos sempre àquela mesma tautologia, ou seja, um trabalho de qualidade é avaliado como tal pelo Qualis porque, na verdade, é o Qualis que determina a qualidade do trabalho de acordo com o veículo no qual é publicado. Se um periódico está listado nesta base de dados, então qualquer trabalho nele publicado é, a priori, de qualidade. Seguramente muitíssimos trabalhos de verdeiro mérito e real impacto no universo acadêmico - e fora dele - podem estar sendo publicados em periódicos não listados pelo Qualis ou por qualquer outro banco de dados assemelhado. Assim como um trabalho publicado num jornal pode ser tão inovador e singular como um artigo de cunho estritamente científico, desde que tenhamos a capacidade para discernir a natureza e os objetivos de cada um desses textos, que são diferentes, obviamente, dentro de suas especificidades. O grande problema da avaliação de mérito nessas bases é fechar o circuito priorizando apenas as publicações ditas "científicas", atribuindo maior pontuação a este item, enquanto que outras produções, como o texto do jornal, por exemplo, são vistas como secundárias ou insignificantes. Em termos de divulgação de resultados de pesquisa, cuja "cientificidade" necessariamente se distingue de uma área para outra, o mais adequado seria publicar o máximo, em todas as formas possíveis. Mas, como seu próprio depoimento deixa claro, optou-se por valorizar o mínimo, desde que previamente abalizado e aprovado por filtros que enquadram os diversos saberes em moldes aparentemente unificados. Por último, sobre a tal questão do idioma, gostaria que refletissem sobre a propriedade de professores de línguas e literaturas, como eu, publicarem nos idiomas de suas respectivas áreas de atuação. Entre publicar em português e em espanhol, darei sempre preferência a esta segunda língua, e a publicações on line ou com versão impressa e em hipertexto, porque me interessa que o maior número possível de pessoas tenha acesso ao que escrevo, pois se isto não acontece de nada vale meu esforço como pesquisadora.
Renato Janine Ribeiro
quinta-feira, fevereiro 12 2009 - 11:49
Avaliação "por metro"
Compartilho inteiramente o que Wilson J. Vieira diz sobre a necessidade de avaliar a produção em termos de - como ele diz: É realmente uma contribuição à ciência? Trará maiores e melhores conhecimentos teóricos? Ou ainda, de um ponto de vista mais aplicado: é de interesse para o país, para a região? Gera emprego? Substitui importações? Salva vidas? Aumenta a eficiência? Promove a integração do país? Fortalece nossos mercados? Protege o meio ambiente? Aumenta a qualidade de vida? Diminui a poluição? Aumenta a produtividade? Diminui o custo de produção? Acredito que a avaliação deva considerar cada vez mais esses pontos. Agora, pelo menos enquanto estive na Capes como diretor de avaliação, era este o entendimento que procurávamos dar à avaliação. Não é trivial nem fácil fazer isso. Só que - aludindo a outra parte do comentário de Wilson Vieira - hoje não parece correto dizer que aqueles que "concentram seus esforços na redação de várias publicações similares (autoplágio), fatiam suas pesquisas em vários artigos apenas para aumentar o número, editam periódicos veículos da próprias publicações" tenham êxito em inchar seus indicadores de produtividade. Isso porque a qualidade das publicações é considerada (no ano passado, revisamos o Qualis de Periódicos justamente para evitar situações equivocadas, como a de uma área, que tinha 100% dos seus periódicos como Internacional A) e portanto fatiar um artigo em vários pode levar esses vários a uma nota mais fraca, e mesmo a uma nota zerada. Não é verdade, pelo menos na Capes, que mais seja mais. Muitas vezes é melhor publicar um único trabalho, de alta qualidade (e portanto bem avaliado no Qualis), do que vários fracos. Mas Wilson tem razão quando observa que: 1) (Para não repetir suas palavras, usarei aqui minhas:) Ingressa-se em linhas de pesquisa do estrangeiro sem se questionar se são boas, se valem a pena para nós. Por vezes, é uma adesão de um indivíduo só, um brasileiro que então não dialoga com seus colegas daqui, mas só com o estrangeiro de quem acaba sendo - me desculpem o termo - o franqueado. Ora, internacionalização não pode se reduzir a franchising! Mas às vezes se reduz. 2) Nem sempre se questiona a utilidade da pesquisa para nosso país. Em certas areas, publicar em inglês é essencial. Mas, em outras, é fundamental que um público - geralmente profissional - que não lê inglês tenha acesso aos trabalhos. Isso, sem esquecer que para nós seria absurdo lermos brasileiros sempre em inglês, assim como o seria nós mesmos darmos cursos nas nossas universidades em inglês para alunos brasileiros. Apóio a recomendação de Meneghini e Packer, do SciELO, no sentido de que vários artigos deveriam sair em português e em inglês. Em suma, a situação não é tão ruim quanto aponta Vieira. O "cv por metro" pode ser um erro! Um avaliador experiente prefere um CV mais enxuto, mas de qualidade, àqueles em que, por hipotese, alguem com uma coluna semanal num jornal lança 520 artigos em 10 anos. Isso não só não agrega, mas depõe contra. Mas, mesmo assim, creio que vários de seus comentários merecem, sim, atenção.
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